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terça-feira, 10 de março de 2026

O PRÍNCIPE ADIL E O LEÃO - conto oriental











O PRÍNCIPE ADIL E O LEÃO


Há muito tempo atrás e muito longe daqui, vivia um rei que tinha um filho de quem ele gostava muito e que se parecia muito com ele quando era jovem.

Um dia, o rei Azad disse ao grão vizir:

– Vamos levar meu filho à cova do leão e dizer-lhe o que se espera dele, agora que completou 18 anos.

O príncipe Adil foi chamado à presença do rei e o grão vizir assim lhe disse:

– Alteza, sempre foi costume nesta nobre família, quando o herdeiro do trono chega à idade que você tem agora, que ele passe por um certo teste. Isto é para que fique estabelecido, sem nenhuma dúvida, se o príncipe está apto ou não para ser o futuro governante do nosso povo. Venha conosco e nós lhe mostraremos o lugar onde será seu teste.

O príncipe seguiu seu pai e o grão vizir até uma grande porta na parede de uma cova rochosa. Havia uma pequena grade na porta, através da qual podia-se ouvir o rugido de um leão.

– Veja, meu filho, disse o rei alisando a barba, aí dentro está um enorme leão criado na floresta. Você deve lutar com ele e submetê-lo com uma adaga e uma espada. Você pode fazer isso quando quiser. Todo homem de nossa família teve que passar por este teste antes de herdar o trono.

O príncipe olhou pela grade e empalideceu, pois o que ele viu foi de fato um leão muito grande, andando de um lado para o outro dentro de uma caverna cheia de ossos. O animal tinha uma juba espessa e dentes brancos e afiados. De vez em quando, franzia o nariz, arreganhava os dentes e dava um rugido horripilante.

– Lutar? Submeter? Matar esta coisa? Como poderei fazer isso? O máximo que consegui até hoje foi matar um veado ou mandar meu falcão caçar um pássaro. Eu tenho certeza de que um leão deste tamanho e com toda esta força está além das minhas possibilidades, dizia o príncipe quase sem voz.

– Não tenha medo, disse o grão vizir. Você não precisa fazer isso agora. Um dia você poderá fazê-lo, quando se acostumar com a idéia. Pela graça de Allah, você vai encontrar a confiança necessária, quando tiver pensado um pouco sobre o assunto. Todos os seus antecessores o fizeram no final.

O rei sorriu e fez um sinal para que um escravo jogasse um pouco de carne para o leão, que a devorou com satisfação.

Depois disso, os dias se passaram e, embora o rei continuasse tratando seu filho tão gentilmente quanto antes, Adil sentia que sua tarefa pesava sobre ele e que seu pai devia estar ansioso para que matasse o leão imediatamente. Ele não conseguia sentir prazer em nada, pensando no que tinha que fazer.
Uma noite, depois de virar-se e revirar-se na cama sem conseguir dormir, ele se levantou. Vestiu-se, encheu uma bolsa com muitas moedas de ouro e foi até os estábulos reais. Acordou seu escudeiro e pediu-lhe que selasse seu cavalo favorito e que dissesse ao rei que ele ia fazer uma viagem.

A lua brilhava no céu e o príncipe se foi, sem olhar para trás, buscando uma resposta para seu problema.

Na manhã seguinte, chegou à beira de um rio com prados verdejantes dos dois lados. Enquanto o cavalo bebia água, ele ouviu o som de uma flauta e logo em seguida avistou um jovem pastor levando carneiros para o pasto. Adil perguntou-lhe se ali por perto havia algum lugar onde ele pudesse ficar por uns dias. O pastor levou-o ao seu patrão, um homem rico que morava numa casa muito grande nas redondezas. Lá, o homem, que se chamava Haroun, convidou Adil para jantar e perguntou-lhe:

– De onde você vem e como estão seus rebanhos?

O príncipe respondeu com evasivas, dizendo que tivera certos problemas em casa que o obrigaram a viajar. Disse também que estava buscando uma resposta para uma questão pessoal, pedindo ao velho homem que não lhe perguntasse mais nada.

Imediatamente Haroun disse que Adil poderia ficar em sua casa quanto tempo quisesse e que ali ficassse à vontade. Seu cavalo foi levado ao estábulo e o príncipe pensou que gostaria de ficar um longo tempo naquele espaço tão tranquilo.

A cada dia descobria um lugar encantador onde se podia ouvir o som das flautas dos pastores, que naquela área eram inúmeros, pois aquela era a Terra dos Tocadores de Flauta Celestiais.

Acontece que uma noite, horrorizado, o príncipe ouviu rugidos de leões não longe da casa e contou a Haroun na manhã seguinte.

– Ah, sim, respondeu ele calmamente. Este lugar está infestado de leões. Eles caçam à noite. Fico surpreso de que você ainda não os tenha escutado. Por isso temos este alto muro em volta do jardim, senão eles já teriam levado toda a minha família. – E Haroun ria com gosto, como se tivesse dito uma piada.

O coração do príncipe encheu-se de medo. Assim que preparou seu cavalo para partir, despediu-se de seu anfitrião agradecendo sua hospitalidade e, mais uma vez, colocou-se a caminho na estrada, cavalgando o mais rápido que podia. À medida em que viajava, foi deixando para trás os verdes vales enquanto ia sur-gindo a sua frente uma árida planície arenosa, onde não se via um único tufo de grama. O cavalo avançava com dificuldade, enfrentando o vento que, de vez em quando, levantava nuvens de poeira seca. Adil sabia que precisava logo encontrar água para ambos. Em silêncio, rezou para que na próxima duna surgisse um acampamento de beduínos ou um pequeno oásis para se abrigar.

Como em resposta a sua oração, ele viu no horizonte uma fila de tendas negras. Vários guerreiros se aproximaram, suas armas reluzindo ao sol, e o saudaram gritando “Assalamu Aleikum!”. Eles o escoltaram até o Sheikh, que o recebeu calorosamente, dizendo-lhe que tinha muita honra em tê-lo como hóspede e que ele poderia ficar quanto tempo desejasse. Depois de uma deliciosa refeição de carneiro cozido, arroz com especiarias, figos e tâmaras maravilhosamente doces, o Sheikh perguntou a Adil que ventos o levavam naquela direção.

– Não me pergunte mais nada, disse o príncipe. Basta que você saiba que deixei minha casa com um problema, que espero resolver, tendo me ausentado da casa de meu pai até me sentir mais seguro de minha situação.

O Sheikh inclinou a cabeça, alisou a barba e deu uma baforada no cachimbo.

– O tempo nos dá todas as respostas, murmurou, se pudermos ser pacientes.

O príncipe sentiu que poderia ficar para sempre naquele lugar, onde, durante o dia, respirava o ar frio e fresco do deserto, caçando antílopes e comendo fartas comidas na companhia do Sheikh.

Mas um dia, depois de duas semanas de tranquilidade, o velho Sheikh lhe disse:

– Meu filho, meu povo e eu gostamos de você e admiramos o modo como se juntou a nós em nossos divertimentos. Mas somos guerreiros e temos que lutar com outras tribos. É necessário ter muita bravura pessoal para a nossa sobrevivência, por isso, gostaríamos de submetê-lo a um teste onde pudéssemos ter uma evidência do seu valor. A duas milhas ao sul desta área está uma cadeia de montanhas infestada de leões. Levante-se cedo amanhã e, depois da oração do alvorecer, pegue o melhor de nossos cavalos e com uma lança e uma espada mate um destes animais. Depois disso, arranque sua pele e traga-a para nós, assim terá provado sua valentia.

O rosto do príncipe tornou-se branco como cera e enquanto dizia boa noite ao Sheikh, tomado pelo medo, tinha certeza de que não poderia enfrentar aquelas criaturas selvagens.

– Deus do céu, ele se dizia ao abandonar o acampamento antes da última refeição da noite, parece que encontro leões em qualquer lugar para onde vou. Não posso entender, afinal, eu saí de casa justamente para evitá-los. Novamente Adil resolveu fugir daquele lugar para não ter de enfrentar o desfio proposto pelo Sheikh.

Viajou muito tempo pela noite estrelada. De manhã chegou a uma bela região onde as flores selvagens cresciam nas montanhas. Avistou ao longe um magnífico palácio, o mais belo que ele jamais vira. Era feito de uma pedra rosada, com colunas de lápis lazuli e balcões de madeira esculpida e pintada de várias cores. Havia fontes nos jardins a sua volta, pássaros que cantavam em árvores cheias de flores, e muitos pavilhões cobertos de jasmins e rosas docemente perfumadas.

– Parece um paraíso na terra! disse Adil para si mesmo, enquanto se aproximava do palácio. Nos portões, guardas levaram-no ao quarto de hóspedes, onde tomou um banho e vestiu roupas limpas, ajudado por servos sorridentes. Depois, foi conduzido à presença do Emir, um homem de barbas cinzentas que lhe perguntou o que o trouxera ali. Junto dele estava sua filha Perizade, que tinha lindos olhos amendoados e um cabelo negro como a cauda de um pássaro.

– Minha situação é tal que não posso falar dela, tentou responder o príncipe, evitando olhar para a adorável Perizade, por quem ele tinha imediatamente se apaixonado. 

– Eu deixei meu país porque tinha um problema para resolver.

– Eu entendo, disse o Emir balançando a cabeça. 

E começou a falar de outros assuntos. Depois da refeição, o Emir mostrou a Adil o palácio por dentro em toda sua magnificência. Escadas de mármore levavam a aposentos cheios de móveis de madeira de várias partes do mundo. As paredes e o teto eram cobertos de mosaicos de turquesa e ouro, afrescos e espelhos espalhados pelos grandes salões. As janelas eram de vidro transparente pintado em cores delicadas e os tapetes macios como seda, tão bem tecidos e mostrando paisagens tão harmoniosas que quase não pareciam ter sido feitos por mãos humanas.

O Emir o levou finalmente a seu quarto para que ele pudesse descansar e lhe disse que ele ficasse ali o quanto lhe fosse possível ficar.

Sozinho, olhando todo aquele esplendor a sua volta, Adil pensou que naquele lugar ele poderia ficar o resto de sua vida.

Muitos dias se passaram. A princesa Perizade encantava-se em poder mostrar ao príncipe os jardins em várias horas diferentes. Um dia, ao entardecer, ele a ouvia cantar e tocar alaúde com extrema graça e perfeição. Foi então que escutou um som que o arrepiou dos pés à cabeça.

– Pare, gritou ele, que som foi este?

– Não ouvi nada, ela respondeu um pouco aborrecida pela interrupção. e continuou a tocar.

– Foi ali, perto de uns arbustos. Parecia o rugido de um leão!

Ela riu e lhe disse:

– É apenas Rustum, nosso guardião, como o chamamos. É o animal de estimação de toda a corte. A esta hora ele vigia nossos jardins. Eu o conheço desde que era um filhotinho e à noite ele dorme à porta do meu quarto.

Nesta noite, completamente cheio de medo, o príncipe quase não tocou na comida. Quando subiu as escadas acompanhado pelo Emir, quase saiu correndo ao ver o enorme leão parado à porta do seu quarto.

– Veja que honra, disse o Emir. O bom Rustum está esperando para levá-lo para a cama! Ele não faz isso com muita gente, não. Apenas se aborrece se vê que alguém tem medo dele. Mas, na realida-de, é extremamente manso.

– Eu tenho medo dele, sussurrou o príncipe, realmente tenho muito medo.

Mas o Emir pareceu não escutá-lo e se despediu, deixando Adil com o leão. O príncipe abriu a porta e, o mais rápido que pôde, fechou-a atrás de si. Não conseguiu dormir a noite inteira. Quando se levantou pela manhã, começou a pensar que seria melhor voltar para casa. Havia tantos leões no seu caminho que seria melhor lutar com o leão na cova e acabar logo com isso, em vez de ficar fugindo a vida toda. Foi até o Emir e lhe disse:

– Peço permissão para partir e enfrentar meu próprio problema a minha maneira, ou então nunca estarei em paz comigo mesmo. Sou um covarde e quero deixar de sê-lo, em honra de meu pai. Sou o filho do rei Azad e fugi do dever que todos os homens de minha família devem realizar. Estou en-vergonhado e sei que nunca poderei pedir a mão da princesa Perizade enquanto não encarar meu destino e lutar com o leão naquela cova.

– Muito bem falado, meu filho, disse o Emir. Desde o primeiro momento eu soube quem você era, pois você se parece muito com seu pai quando jovem. Sempre respeitei e admirei o rei Azad. Vá, lute com o leão e eu lhe darei minha filha em casamento.

O príncipe montou no seu cavalo e galopou até o acampamento das tendas pretas.

– Benvindo, príncipe Adil, disse o Sheikh beduíno, conheci o seu pai quando tínhamos ambos a idade que você tem agora. Eu pude saber quem você era pela enorme semelhança que você tem com ele, aliás, maior agora de que no dia em que você chegou aqui.

Adil contou-lhe sobre sua intenção de voltar para casa, o que muito agradou ao Sheikh.

Depois de descansar aquela noite, o príncipe seguiu viagem e descobriu, no caminho, que estava com muita saudade de casa, com leão e tudo e que mal podia esperar para dizer a seu pai que estava preparado para enfrentar aquela criatura dentro da cova.

Logo chegou à terra dos tocadores de flauta celestiais. Quando encontrou o dono daqueles campos no pátio de sua casa, ele lhe disse:

– Quando cheguei aqui pela primeira vez, era um covarde. Agora estou pronto para lutar e fazer o que meus antepassados fizeram, seja qual for o resultado. Tenho confiança em Allah, o compassivo.

– Que assim seja, disse o velho homem. Eu sabia que você – sendo o verdadeiro filho de seu pai, que foi meu companheiro quando estudamos juntos – no tempo certo, iria enfrentar suas dificuldades. Vá e que Allah esteja com você!

Algum tempo depois, Adil chegou a seu reino e pediu imediatamente ao grão-vizir para levá-lo à cova do leão. O velho rei o abraçou muito feliz e os três se dirigiram para a caverna.

A espada e a adaga que o príncipe carregava brilhavam ao sol. Então, um escravo abriu a enorme porta e Adil entrou corajosamente.

O leão começou a rugir, levantou-se e andou na direção do príncipe com a enorme mandíbula aberta. O príncipe olhou para aquele animal sem medo, armas na mão, enquanto o rei, o vizir e o escravo ficaram em silêncio, observando. O leão deu um outro rugido, mais forte que o anterior e chegou perto dele. Então, para o espanto do príncipe, o monstro pôs-se a esfregar sua cabeça contra seus joelhos e lambeu suas botas como um cão amestrado.

– Agora você pode ver, disse o grão-vizir, que este leão é tão dócil quanto um escravo dedicado e não faz mal a ninguém. Você passou no teste por ter entrado na sua toca. A prova do seu valor está completa. Agora você é digno de ser o nosso futuro rei. Louvado seja Allah!

O jovem mal podia acreditar no que tinha acontecido. Quando saiu dali, o leão veio junto com ele, andando a seu lado, até que o escravo o levou de volta para a cova.

Houve muita festa no palácio e no dia seguinte as comemorações se estenderam para cada casa na cidade. Seguindo a tradição, o rei distribuiu moedas de ouro e prata para o povo reunido no grande pátio sob o balcão real.

Adil contou a seu pai sobre seu desejo de casar-se com a princesa Perizade e o rei mandou um mensageiro buscá-la.

Para Adil, o tempo que a comitiva demorou a trazer sua amada pareceu-lhe uma eternidade. Ela chegou acompanhada de parentes e amigos, todos vestidos com as mais belas roupas de casamen-to. Até o fim de seus dias ele guardou na memória a visão que teve da princesa, cavalgando um cavalo branco árabe, com roupas da mais pura seda e jóias de beleza inigualável.

As festividades do casamento duraram sete dias e sete noites. Assim, eles foram muito felizes e, quando Adil tornou-se rei, fez uma inscrição com letras de ouro no chão de seu quarto de estudos particular que dizia:


Nunca fuja de um leão.



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domingo, 1 de março de 2026

SE EU TIVESSE PERNAS, EU TE CHUTARIA - resenha de filme






SE EU TIVESSE PERNAS, EU TE CHUTARIA


Título original - If I Had Legs I'd Kick You
Direção - Mary Bronstein
Roteiro - Mary Bronstein
Elenco: Rose Byrne, Helen Hong, Josh Pais, Mary Bronstein, Christian Slater, Conan O'Brien, A$AP Rocky, Delaney Quinn
Drama
2026
01h:53m

Linda (Rose Byrne) é uma mãe à beira de um colapso. Praticamente mãe solo de uma menina doente, a psicóloga Linda é obrigada a navegar uma crise atrás da outra quando cai o teto do seu apartamento,  graças a um vazamento enorme de água no andar superior. Com a vida desmoronando (literal e metaforicamente), ela busca socorro de todos os lados, mas ninguém parece estar realmente interessado ou ser capaz de ajudá-la. Agora, morando num motel com sua filha, enquanto aguarda o conserto de sua casa, precisa encontrar um jeito de resolver o buraco em seu telhado, a doença misteriosa da sua criança (ligado a um raro transtorno alimentar), o arranjo de estacionamento irritante da escola da filha  e um paciente desaparecido.

Durante as quase 2h de duração de Se Eu Tivesse Pernas, Eu te Chutaria, dificilmente a câmera da diretora se afasta muito do rosto de sua protagonista que recebeu o prêmio de melhor atriz (Globo de Ouro, 2026) por sua brilhante interpretação.

A médica que acompanha a filha, Dra. Spring (personagem vivido pela própria diretora do filme) não poupa Linda com cobranças e recriminações.

O pior é que ninguém parece realmente disposto a ajudá-la, muito menos os homens ao seu redor. O marido (Christian Slater), pai da criança, só ouvimos ao telefone - ele trabalha em um cruzeiro e não está presente no dia-a-dia da família, além das cobranças domésticas; seu terapeuta, outro psiquiatra vivido por (um excelente) Conan O’Brien, desde o início não acolhe suas angústias, ao contrário tenta se afastar da personagem que solicita sua ajuda.

Acontece que eles, como outras figuras masculinas na vida de Linda (um novo vizinho interpretado por A$AP Rocky entra rapidamente nesse rol), também gostam do sentimento de satisfação que vem de posar como o “resolvedor de problemas” na vida dessa mulher com uma dinâmica muito complicada. O que fazem, para isso, é entrar em cena quando a situação já passou do ponto do desespero e agir como se cada mero movimento que fazem na direção da conveniência de Linda fosse um grande ato de altruísmo. E ela entra nesse jogo repetidamente, diante da corrida de obstáculos hostil e solitária em que se transformou sua vida. Parece que Linda vai entrar em colapso a qualquer instante e assim Bronstein estabelece a sua abordagem claustrofóbica, focada em colocar o espectador na ótica de uma mulher no seu limite que a cada cena parece que irá desmoronar, apresentando um retrato impiedoso do isolamento e da volatilidade do ser mãe, das pressões sociais que, por sua vez, criam ansiedades e medos. A aparição do rosto criança não é revelada até a última cena, somente sua voz, um recurso adicional para que a mãe seja o personagem principal.

Um filme sensível e delicado que retrata o sofrimento e a batalha de uma mãe que tenta resolver seus muitos problemas e conflitos absolutamente sozinha.

scapar, pela boca amarga de quem está os reprimindo, esses medos são seguidos por olhares de desaprovação, movimentos de desvencilhamento, e portanto ainda mais isolamento. É um ciclo vicioso que vai girando e girando na direção de um desastre anunciado, mas nem por isso noMédico Escolar Dr. José Carlos Machado www.mediconaescola.com - Acompanhe também nosso canal no You Tube - https://www.youtube.com/user/medicinaescolar e no instagram @antroposofiaemdia

O FILHO DE MIL HOMENS - filme (resenha)











O FILHO DE MIL HOMENS

Diretor - Daniel Rezende
Roteiro - Valter Hugo Mãe e Duda Casoni
Elenco:
Rodrigo Santono, Miguel Martines, Johnny Massaro, Rebeca Jamir, Ignez Viana
Duração - 02h:06m
2025


Crisóstomo (Rodrigo Santoro) é um pescador solitário que tem o sonho de ter um filho, carrega dentro de si a culpa de aos 40 anos ainda não ter conseguido realizar esse sonho. Sua vida muda quando ele encontra Camilo (Miguel Martines), um menino órfão de 12 anos de idade que decide acolher. Logo eles iniciam uma jornada em formar uma família nada convencional quando uma mulher cruza o caminho dos dois, Isaura (Rebeca Jamir) tentando fugir de sua própria dor encontrando amparo e ternura naquela casa, em seguida, Antonino (Johnny Massaro), um jovem incompreendido, também se conecta com eles. Juntos, os quatro aprendem o significado de família e o propósito de compartilhar a vida.
Muitas vezes a obra literária não tem o mesmo impacto quando surge sua versão nas telas, nesse caso o filme manteve o lirismo e a força dos personagens, cujos atores interpretaram de maneira sensível e delicada a trama dessa história belíssima que merece ser assistida.
Leia também nesse blog a resenha desse livro escrito por Valter Hugo Mãe quem também colaborou com o roteiro do filme.




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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A MOURA TORTA - Luís da Câmara Cascudo (conto folclórico)





A MOURA TORTA

Uma vez havia um rei que estava envelhecendo e que tinha três filhos, ficava preocupado em escolher um herdeiro que fosse capaz de assumir o seu lugar então deu a cada um deles uma melancia, quando eles quizeram sair de casa para ganhar a sua vida e provar o seu valor. O pai lhes tinha recomendado que não abrissem as frutas a não ser em um lugar onde houvesse água. O mais velho quando foi ver o que dava a sua sina, estando ainda perto da casa, não se conteve e abriu a sua melancia. Pulou de dentro uma moça muito bonita dizendo: 
- Me dê agua, ou me dê leite. 
O rapaz não achava nem uma coisa nem outra, a moça caiu para traz e morreu.
O irmão do meio, quando chegou a sua vez, se achando não muito longe de casa, abriu também a sua melancia, e saiu de dentro uma moça ainda mais bonita do que a outra; pediu água ou leite, e o rapaz não achando nem uma coisa nem outra, ela caiu para traz e morreu.
Quando o caçula partiu para ganhar a sua vida foi mais esperto e só abriu a sua melancia perto de uma fonte. Quando abriu sua melancia pulou de dentro uma moça ainda mais bonita do que as duas primeiras, e foi dizendo: 
- Quero água ou leite. 
O moço foi à fonte, trouxe água e ela bebeu até se fartar. Mas a moça estava nua, e então o rapaz disse a ela que subisse em uma árvore que havia ali perto da fonte, em quanto ele iria buscar alguma roupa para ela vestir. A moça subiu e se escondeu nas ramagens. Veio uma moura torta buscar água, e, vendo na água o reflexo de uma moça tão bonita, pensou que fosse a sua própria imagem e se falou: 
- Que desaforo! Pois eu sendo uma moça tão bonita, ter de andar carregando água!…
Atirou com o pote no chão e arrebentou-o. Chegando em casa sem água e nem pote levou uma descompostura muito forte, e a senhora mandou-a buscar água outra vez; mas ao chegar na fonte, aconteceu o mesmo e, novamente quebrou o outro pote. Foi pela terceira vez  e como das outras vezes, ficava muito revoltada e quebrava o pote. A moça que estava encima da árvore não se podendo conter deu uma gargalhada.
A moura torta, espantada, olhou para cima e disse: 
- Ah! é você, minha netinha!… Deixe eu lhe pentear seu cabelo. 
E foi logo subindo pela árvore e foi mexendo na cabeça da moça e fincou-lhe um alfinete, e a moça se transformou em uma pombinha e voou. A moura torta então ficou no lugar dela. O moço, quando chegou, achou aquela mudança tamanha e estranhou; mas a moura torta lhe disse: 
- O que você queria? Foi o sol que me queimou!… Você demorou tanto a vir me buscar!
Partiram para o palácio, onde se casaram. A pombinha então costumava a voar por perto do palácio, e se punha no jardim a dizer: 
- Jardineiro, jardineiro, como vai o rei, meu senhor, com a sua moura torta? E voava para longe dali.
 Até que o jardineiro contou ao rei, que, meio desconfiado, mandou armar um laço de diamante para prende-la, mas a pombinha não caiu nessa armadilha. Mandou armar um de ouro, e nada; um de prata, e nada; afinal fizeram um laço simples de visco, e ela caiu. Foram leva-la para dentro do palácio e a pombinha ficou muito feliz. Passado algum tempo, a moura torta fingiu estar grávida e colocou mato para a pombinha comer. No dia em que deviam coloca-la na panela, o rei, com pena da pobre pombinha, pegou-a e começou a acariciar sua cabecinha e encontrou aquele carocinho na cabecinha, e pensando ser uma pulga, foi puxando e retirou o alfinete e surgiu aquela moça linda de antes. O rei conheceu a sua bela princeza. Casaram-se, e a moura torta morreu amarrada nos rabos de dois burros bravos que a arrastaram pela estrada afora.


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CARNE DE LÍNGUA - conto africano





CARNE DE LÍNGUA

Certa vez, na África havia um reino muito próspero. Lá, todos eram felizes e amavam o rei e a rainha, que era gordinha, de bochechas rosadas e riso gostoso. 
Um dia, sem nenhuma explicação a rainha começou a ficar doente, dia a dia ela foi emagrecendo e ficando com a pele opaca e sem brilho.
O rei buscou todos os curandeiros do reino, porém, ninguém encontrou a resposta para o que estava acontecendo a ela. 
Determinado, o rei resolveu, ele mesmo procurar a cura para a sua esposa.
Ele saiu pelo reino e um dia, quando passava por um campo, ouviu uma risada gostosa, o que o lembrou da sua esposa. Ele foi até à casa e olhando pela janela viu uma mulher sentada com seu esposo, os dois estavam rindo e viu também que ela era gordinha e de bochechas rosadas.
O rei bateu na porta e, quando o homem atendeu, levou um susto ao ver o rei do seu país parado à sua frente.
Imediatamente, o rei perguntou ao homem o que ele fazia para que sua esposa fosse tão linda e saudável, assim gordinha de bochechas rosadas.
O homem imediatamente disse:
– Isso é carne de língua!
O rei voltou correndo para o palácio e mandou o cozinheiro real preparar uma grande sopa de carne de língua para a rainha.
O cozinheiro prontamente separou a língua de todos os animais que ele podia e fez uma grande sopa. A rainha tomou a sopa, mas não melhorou. Ela continuava emagrecendo.
Então, o rei teve uma ideia, levou a rainha para a casa do camponês e levou a camponesa para o palácio.
Em pouco tempo a rainha ficou gordinha e corada, já a camponesa adoeceu e começou a emagrecer.
O rei voltou para a casa do camponês intrigado com a situação, querendo entender o que estava acontecendo.
Então o camponês explicou:
– Quando falei de carne de língua, não quis dizer que ela deveria comer carne de língua. Eu estava falando das histórias que eu conto para ela todos os dias.
O rei levou a rainha para o palácio e passou a lhe contar histórias todos os dias, ela se recuperou totalmente e nunca mais ficou doente.
É por isso que na África todos dizem que ouvir histórias faz bem para a saúde de qualquer pessoa.


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