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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026



A MOURA TORTA


Uma vez havia um pai que tinha três filhos, e, não tendo outra coIsa que lhes dar, deu a cada um uma melancia, quando eles quizeram sair de casa para ganhar a sua vida. O pai lhes tinha recomendado que não abrissem as frutas a não ser em um lugar onde houvesse água. O mais velho quando foi ver o que dava a sua sina, estando ainda perto da casa, não se conteve e abriu a sua melancia. Pulou de dentro uma moça muito bonita dizendo: «Dai-me agua, ou dai-me leite.» O rapaz não achava nem uma coisa nem outra, a moça caiu para traz e morreu.
O irmão do meio, quando chegou a sua vez, se achando não muito longe de casa, abriu tambem a sua melancia, e sahiu de dentro uma moça ainda mais bonita do que a outra; pediu agua ou leite, e o rapaz não achando nem uma cousa nem outra, ella caiu para traz e morreu.
Quando o caçula partiu para ganhar a sua vida foi mais esperto e só abriu a sua melancia perto de uma fonte. No abri-la pulou de dentro uma moça ainda mais bonita do que as duas primeiras, e foi dizendo: «Quero água ou leite.» O moço foi á fonte, trouxe agua e ella bebeu a se fartar. Mas a moça eslava nua, e então o rapaz disse a ela que subisse n'um pé de arvore que havia alli perto da fonte, em quanto elle ia buscar a roupa para ella. A moça subiu e se escondeu nas ramagens. Veio uma moura torta buscar agua, e, vendo na agua o retrato de uma moça tão bonita, pensou que fosse o seu e pôz-se a dizer: «Que desaforo! pois eu sendo uma moça tão bonita, andar carregando agua!…»
Atirou com o pote no chão e arrebentou-o. Chegando em casa sem agua e nem pote levou um repellão muito forte, e a senhora mandou-a buscar agua outra vez; mas na fonte fez o mesmo, e quebrou o outro pote. Terceira vez fez o mesmo, e a moça não se podendo conter deu uma gargalhada.
A moura torta, espantada, olhou para cima e disse: «Ah! é você, minha netinha!… Deixe eu lhe catar um piolho.» E foi logo trepando pela arvore arriba, e foi catar a cabeça da moça. Infincou-lhe um alfinete, e a moça virou n'uma pombinha e avoou! A moura torta então ficou no logar d'ella. O moço, quando chegou, achou aquella mudança tamanha e estranhou; mas a moura torta lhe disse: «O que quer? foi o sol que me queimou!… Você custou tanto a vir me buscar!»
Partiram para o palacio, aonde se casou. A pombinha então costumava a voar por perto do palacio, e se punha no jardim a dizer: «Jardineiro, jardineiro, como vae rei, meu senhor, com a sua moura torta?» E fugia. Até que o jardineiro contou ao rei, que, meio desconfiado, mandou armar um laço de diamante para prendel-a, mas a pombinha não cahiu. Mandou armar um de ouro, e nada; um de prata, e nada; afinal um de visco, e ella cahiu. Foram leval-a que muito a apreciou. Passados tempos, a moura torta fingiu-se pejada e pôz mattos abaixo para comer a pombinha. No dia em que deviam botal-a na panella, o rei, com pena, se pôz a catal-a, e encontrou-lhe aquelle carocinho na cabecinha, e pensando ser uma pulga, foi puxando e sahiu o alfinete e pulou lá aquella moça linda como os amores. O rei conheceu a sua bella princeza. Casaram-se, e a moura torta morreu amarrada nos rabos de dous burros bravos, lascada pelo meio.











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CARNE DE LÍNGUA - conto africano



CARNE DE LÍNGUA
Certa vez, na África havia um reino muito próspero. Lá, todos eram felizes e amavam o rei e a rainha, que era gordinha, de bochechas rosadas e riso gostoso.
Um dia, sem nenhuma explicação a rainha começou a ficar doente, dia a dia ela foi emagrecendo e ficando com a pele opaca e sem brilho.
O rei buscou todos os curandeiros do reino, porém, ninguém encontrou a resposta para o que estava acontecendo a ela. 
Determinado, o rei resolveu, ele mesmo procurar a cura para a sua esposa.
Ele saiu pelo reino e um dia, quando passava por um campo, ouviu uma risada gostosa, o que o lembrou da sua esposa. Ele foi até à casa e olhando pela janela viu uma mulher sentada com seu esposo, os dois estavam rindo e viu também que ela era gordinha e de bochechas rosadas.
O rei bateu na porta e, quando o homem atendeu, levou um susto ao ver o rei do seu país parado à sua frente.
Imediatamente, o rei perguntou ao homem o que ele fazia para que sua esposa fosse tão linda e saudável, assim gordinha de bochechas rosadas.
O homem imediatamente disse:
– Isso é carne de língua!
O rei voltou correndo para o palácio e mandou o cozinheiro real preparar uma grande sopa de carne de língua para a rainha.
O cozinheiro prontamente separou a língua de todos os animais que ele podia e fez uma grande sopa. A rainha tomou a sopa, mas não melhorou. Ela continuava emagrecendo.
Então, o rei teve uma ideia, levou a rainha para a casa do camponês e levou a camponesa para o palácio.
Em pouco tempo a rainha ficou gordinha e corada, já a camponesa adoeceu e começou a emagrecer.
O rei voltou para a casa do camponês intrigado com a situação, querendo entender o que estava acontecendo.
Então o camponês explicou:
– Quando falei de carne de língua, não quis dizer que ela deveria comer carne de língua. Eu estava falando das histórias que eu conto para ela todos os dias.
O rei levou a rainha para o palácio e passou a lhe contar histórias todos os dias, ela se recuperou totalmente e nunca mais ficou doente.
É por isso que na África todos dizem que ouvir histórias faz bem para a saúde de qualquer pessoa.










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O LADRÃO MESTRE - Irmãos Grimm (conto)



O LADRÃO MESTRE

Certo dia, estavam sentados, em frente de pobre casinha, um homem e sua esposa, descansando do trabalho. Nisto chegou uma bela carruagem, atrelada com quatro cavalos pretos, e dela apeou um senhor luxuosamente vestido. O campônio levantou-se e foi ao encontro do senhor, perguntando o que desejava e em que podia servi-lo. O desconhecido apertou-lhe a mão e disse: - Desejo, apenas, saborear um prato dessa boa comida do campo. Preparai algumas batatas à vossa maneira, sentar-me-ei à mesa convosco e as comerei com imenso prazer.
O campônio sorriu e disse:
- Vós sois, sem dúvida, conde ou príncipe, talvez mesmo duque; os grandes fidalgos costumam ter desses desejos! E o vosso será satisfeito.
A mulher foi para a cozinha e começou a lavar e descascar as batatas, querendo fazer um bom prato de "nhoques," desses que os camponeses tanto apreciam. Enquanto ela cuidava dessa tarefa, o campônio disse ao desconhecido:
- Enquanto esperamos, vinde comigo até à horta; ainda tenho de terminar um pequeno serviço lá.
Na horta, ele havia aberto algumas covas onde pretendia plantar mudas de árvores.
- Não tendes nenhum filho que vos possa ajudar? - perguntou o desconhecido.
- Não, - respondeu o campônio, e acrescentou: - Na verdade tive um mas, há muito tempo ele nos deixou para correr mundo. Era um rapaz viciado, inteligente e malicioso, mas não tinha vontade de aprender coisa alguma; só sabia pregar-me as piores peças. Um dia, fugiu de casa e nunca mais tive notícias dele.
Assim dizendo, o campônio colocou uma muda dentro da cova o enfiou uma estaca ao lado; depois de socar bem a terra em volta, amarrou a haste ao pau, embaixo, no meio e no alto, com um cipòzinho.
- Dizei-me uma coisa, - disse o desconhecido, - por que não amarrastes uma estaca também àquela árvore torta ali do canto, àquela contorcida e nodosa que está vergada quase até ao chão?
O velho sorriu e disse:
- Senhor, falais como todos os que não entendem do assunto; bem se vê que nunca lidastes com uma horta. Aquela árvore contorcida já está velha e ninguém poderá mais endireitá-la. As árvores devem ser endireitadas quando são novinhas.
- Tal como o vosso filho! - disse o desconhecido; - se o tivésseis educado quando era pequenino, não teria fugido de casa. Agora ele, também, se terá endurecido e contorcido.
- Naturalmente! - respondeu o campônio. - Já faz tanto tempo que se foi, deve estar bem mudado!
- Se ele se apresentasse agora, ainda o reconheceríeis? - perguntou o desconhecido.
- Pela cara, dificilmente! - respondeu o campônio, - mas o reconheceria por um sinal em forma de feijão que tem no ombro.
Quando ele disse isto, o desconhecido despiu o paletó, descobriu o ombro e mostrou o sinal em forma de feijão.
- Senhor Deus meu! - exclamou o velho: - então és o meu filho!
E o amor paterno agitou-lhe o coração; mas acrescentou:
- Como é possível que sejas meu filho, se és fidalgo e vives na opulência e na fartura? Por quê caminho chegaste a tal altura?
- Ah, meu, pai! - respondeu o filho, a arvorezinha tenra não foi amarrada à estaca, no tempo devido, e cresceu torta! Agora está velha e não endireita mais. Como ganhei tudo isto? Tornei-me ladrão. Oh não te assustes, eu sou um mestre ladrão! Para mim, não existem fechaduras ou ferrolhos que resistam; quando quero alguma coisa, tomo-a. Não creias, porém, que me reduzi a roubar como gatuno vulgar; eu apodero-me, somente, do supérfluo dos ricos; os pobres podem ficar descansados, a eles prefiro dar do que tomar. Assim como não me interessa o que me possa vir ás mãos sem trabalho, astúcia ou habilidade.
- Ah, meu filho, - disse tristemente o pai, - de qualquer maneira teu ofício não me agrada; ladrão é e será sempre ladrão, e nunca acaba bem, digo-te eu!
Conduziu-o à presença de sua mãe e, quando esta soube que ele era seu filho, chorou de alegria; e quando ficou sabendo que ele era ladrão mestre, as lágrimas corriam-lhe das faces como caudais. Entretanto, assim que conseguiu falar, disse:
- Mesmo que se tenha tornado ladrão, é sempre meu filho, e meu olhos tiveram a graça de vê-lo ainda uma vez!
Depois, foram para a mesa e ele comeu em companhia dos pais a modesta comida caseira, que há tanto tempo não comia. O pai lembrou:
- Se nosso amo, o conde lá do castelo, souber quem és e o que fazes, creio que não te pegará no colo e não te ninará como quando te levou à pia batismal; acho que te mandará balouçar na ponta da corda de uma forca.
- Não te preocupes, meu pai; ele não me fará nada; pois sei bem como são as coisas. Hoje mesmo irei visitá-lo.
Ao cair da tarde, o ladrão subiu na carruagem e foi ao castelo. O conde recebeu-o amavelmente, julgando que fosse um grande fidalgo. Mas, assim que ele se deu a conhecer, o conde empalideceu e, durante alguns minutos, perdeu a fala. Depois disse:
- Tu és meu afilhado, por isso serei clemente e te tratarei com toda a indulgência. Como, porém, te gabas de ser ladrão mestre, quero pôr à prova tua habilidade.
Mas, se fizeres fiasco, eu te mandarei dançar na ponta da corda pelo espaço e, como música de acompanhamento, terás o doce crocitar dos corvos.
- Senhor conde, - respondeu o ladrão, - inventai três empreendimentos difíceis quanto quiserdes, se eu não os levar a cabo, fazei de mim o que vos aprouver.
O conde pensou durante alguns minutos e depois disse:
- Está bem! Em primeiro lugar, deves roubar da cavalariça meu cavalo predileto; em segundo lugar, quando minha mulher e eu estivermos dormindo, tens de tirar o lençol que temos debaixo do corpo sem que possamos perceber; também tens de tirar a aliança que minha mulher traz no dedo; por fim, tens que raptar da igreja o padre e o sacristão. Toma nota de tudo direito, porque é a tua vida que está em jogo.
O mestre ladrão despediu-se e foi à cidade vizinha. Lá adquiriu a roupa de uma velha campònia e vestiu-se. Pintou o rosto de cor bronzeada, desenhando algumas rugas. de maneira a ficar irreconhecível; em seguida, comprou um barrilete de velho vinho da Hungria, misturando-lhe forte narcótico. Meteu o barrilete num cesto. que pôs às costas e, com passos trôpegos e arrastados, voltou ao castelo do conde.
Quando chegou lá, já era escuro. Sentou-se numa pedra que havia no terreiro, pôs-se a tossir como uma velha asmática e a esfregar as mãos como se estivesse morrendo de frio.
Em frente à cavalariça, havia um grupo de soldados, deitados ao pé de uma fogueira; um deles, vendo aquela velha a tossir, gritou-lhe:
- Ei, avozinha, chega aqui perto, vem aquecer-te conosco. Cama para dormir não tens mesmo e deves aceitar o que te oferecem, vem pois aquecer-te aqui!
A velha aproximou-se com passinhos miúdos e pediu que lhe tirassem o cesto das costas; depois sentou-se junto deles ao pé do fogo.
- Que tens aí nesse barrilzinho, velha bruxa? - perguntou um dos soldados.
- Tenho um dedo de excelente vinho, - respondeu ela; - preciso vender alguma coisa, se quero viver! Dinheiro e boas palavras, com isso poderás ter um copo.
- Vamos lá, dá-me um copo, então! - exclamou o soldado e, depois de provar o vinho, disse: - quando o vinho é bom, gosto de beber mais de um copo! - e pediu mais. Os outros seguiram-lhe o exemplo.
- Olá, camaradas! - gritou um deles aos que estavam dentro da cocheira. - Está aqui a vovozinha oferecendo um vinho tão velho quanto ela mesma; tomai um copo que isso vos aquecerá o estômago melhor que o fogo.
A velha levou o barrilete dentro da cachoeira. Um dos soldados estava montado no cavalo predileto do conde; outro o estava segurando pelo freio, e o terceiro pelo rabo. A velha pôs-se a distribuir o excelente vinho tanto quanto lho pediam e, assim, foi até esvaziar o barrilete.
Não demorou muito, o soldado que segurava o freio largou-o e rolou pelo chão, onde se pôs a roncar deliciosamente; o outro largou o rabo, caiu deitado e roncou mais alto ainda; o que estava montado, permaneceu na sela, mas pendeu o corpo para a frente até tocar com a cabeça no pescoço do cavalo; ferrou no sono e assoprava como um velho fole.
Lá fora, os demais dormiam há muito, deitados no chão e imóveis como se fossem de pedra.
O ladrão, ao ver que tudo lhe saíra às mil maravilhas, colocou uma corda na mão daquele que segurava o freio; ao que segurava o rabo, pós-lhe na mão um punhado de palha; mas que devia fazer com o que estava montado no cavalo? Não queria botá-lo para baixo com receio que despertasse e fizesse um escarcéu. Finalmente, descobriu um expediente: desafivelou a correia que prendia a sela, passou umas cordas nas argolas que havia nas traves, prendeu a sela com o cavaleiro montado e sus- pendeu-a, depois amarrou firmemente as cordas num pau. Feito isto, foi facílimo subtrair o cavalo; mas para sair montado, o barulho das ferraduras poderia chamar a atenção, então enrolou alguns trapos nos cascos do cavalo, levou-o para fora da cocheira e, montando nele, disparou a todo galope.
Na manhã do dia seguinte, o ladrão dirigiu-se a rédeas soltas para o castelo, todo pimpão no cavalo roubado. O conde acabava de levantar-se e estava à janela.
- Muito bom dia! - gritou de baixo o ladrão. - Eis aqui o cavalo, que tirei com a maior facilidade da cavalariça. Ide ver como dormem os vossos soldadas, como bem-aventurados estão lá deitados no chão, e podeis ver, também, na cavalariça como se acomodaram os vossos guardas!
O conde não pôde conter-se e, dando uma risada, disse:
- Da primeira vez te saíste bem, mas na segunda não te será tão fácil. A divirto-te, entretanto, que, se te apanho como um ladrão qualquer, trato-te como tal.
A noite, quando marido e mulher foram deitar-se, a condessa fechou a mão bem apertada, segurando firmemente a aliança, e o conde disse-lhe:
- As portas estão todas trancadas; eu ficarei acordado e, se o ladrão tentar entrar pela janela, dou-lhe um tiro.
Entretanto, em meio às trevas da noite, o ladrão foi ao local das forcas, cortou a corda de um pobre enforcado e carregou-o às costas até ao castelo. Em seguida, colocou uma escada sob a janela do quarto e, com o morto sentado sobre os ombros, foi subindo. Ao chegar à altura em que a cabeça do morto aparecia na janela, parou. O conde, que da cama estava espreitando, apertou o gatilho e deu-lhe um tiro; o ladrão soltou, imediatamente, o defunto, pulou da escada e correu a esconder-se num canto. A noite estava tão claramente iluminada pelo luar que o mestre pôde ver, perfeitamente, o conde saindo pela janela; depois desceu pela escada e levou o morto até ao jardim. Uma vez lá, deu-se ao trabalho de abrir uma cova para o enterrar.
- Agora é o momento azado! - disse de si para si o ladrão.
Deslizou, mais que depressa, do esconderijo, trepou pela escada e foi direitinho ao quarto da condessa.
- Minha cara mulher, - disse ele imitando a voz do conde: - O ladrão está morto, mas de qualquer maneira era meu afilhado, mais velhaco do que malvado. Portanto, não quero expô-lo à vergonha pública, mesmo porque tenho pena daqueles pobres pais; vou enterrá-lo, eu mesmo, no jardim, antes que amanheça, para que ninguém venha a saber de coisa alguma. Dá-me o lençol para amortalhá-lo, assim não será enterrado como um cão.
A condessa entregou-lhe o lençol.
- E, sabes? - prosseguiu o ladrão - terei para com ele um rasgo de generosidade; dá-me, também, tua aliança, afinal de contas esse infeliz arriscou a vida por causa dela; que a leve consigo para a sepultura.
A condessa, embora a contragosto, não quis opor-se à vontade do conde e, tirando o anel do dedo, entregou-lho. O ladrão, tendo em poder as duas coisas, tornou a sair pela janela e chegou a casa sem inconvenientes, antes que o conde tivesse terminado o trabalho de coveiro no jardim.
Imagine-se, agora, que cara fez o conde na manhã seguinte, quando o mestre ladrão apareceu levando-lhe o lençol e a aliança!
- Possuis acaso a varinha mágica? - perguntou-lhe; - quem te desenterrou da cova onde com minhas próprias mãos te coloquei? Quem foi que te ressuscitou?
Rindo-se, o ladrão respondeu:
- Não foi a mim que enterraste! Foi àquele infeliz que estava na forca. E narrou, detalhadamente, como se passaram as coisas. O conde teve que admitir que era um ladrão hábil e inteligente.
- Mas não terminaste ainda, - disse-lhe; - falta levares a cabo o terceiro empreendimento; se nesse não tiveres êxito, tudo o mais não te valerá de nada.
O ladrão sorriu e não respondeu nada.
Quando caiu a noite, dirigiu-se à igreja da aldeia, levando um comprido saco nas costas, um embrulho debaixo do braço e uma lanterna na mão. Dentro do saco havia uma porção de caranguejos e, no embrulho, outras tantas velinhas de cera. Penetrou no cemitério junto à igreja, sentou-se no chão, pegou um caranguejo e gradou-lhe uma velinha nas costas; acendeu-a e soltou o bichinho. Fez o mesmo com outros e continuou assim até acabar com todos os que estavam no saco. Em seguida, vestiu uma túnica preta, parecida com burel de frade, grudou longa barba branca no queixo e ficou completamente irreconhecível. Depois, pegou o saco no qual trouxera os caranguejos, encaminhou-se para a igreja e subiu no púlpito. O relógio da torre acabava justamente de bater o último toque das doze horas; então ele gritou com voz tronitroante:
- Ouvi-me, pecadores! Chegou o fim de todas as coisas; o dia do Juízo está próximo! Ouvi! Ouvi! Quem quiser subir comigo para o céu, entre neste saco! Eu sou São Pedro, o que abre e fecha as portas do céu; olhai lá fora, no cemitério, os mortos já estão recolhendo seus ossos. Vinde! Vinde depressa! Entrai neste saco! Chegou o fim do mundo!
Aqueles brados repercutiram por toda a aldeia. O padre e o sacristão, que moravam mais perto da igreja, foram os primeiros a ouvir o estranho apelo; e, quando viram todas aquelas luzinhas caminhando pelo cemitério, convenceram-se de que algo de extraordinário estava sucedendo e foram correndo para a igreja. Durante alguns momentos, ficaram escutando o sermão, depois o sacristão deu uma cotovelada no padre o disse:
- Não seria nada mau se aproveitássemos a oportunidade e juntos fôssemos, confortavelmente, para o céu, antes que chegue o dia do Juízo!
- Naturalmente, - respondeu o padre, - também penso assim; se estás disposto, ponhamo-nos a caminho.
- Sim, - disse o sacristão, - mas vós, reverendo, tendes direito de precedência; eu vos seguirei.
Assim o padre foi o primeiro a subir até ao púlpito, onde o ladrão o acondicionou dentro do saco; em seguida foi a vez do sacristão. O mestre, mais que depressa, amarrou fortemente a boca do saco e arrastou-o pela escada do púlpito abaixo; cada vez que as cabeças dos dois malucos batiam nos degraus, ele gritava:
- Agora estamos atravessando as montanhas.
Dessa maneira levou-os através da aldeia e, quando
passavam dentro de alguma poça d'água, ele gritava:
- Agora atravessamos as nuvens molhadas.
Finalmente, quando iam subindo a escadaria do castelo, dizia:
- Agora estamos subindo as escadas do Céu, em breve chegaremos ao vestíbulo.
Chegando lá em cima, ele empurrou o saco para dentro do pombal e, quando as pombas assustadas começaram a bater as asas, disse:
- Estais ouvindo como os anjos se alegram e batem as asas de contentamento?
Então, puxou o trinco da porta e foi-se embora.
Na manhã seguinte, apresentou-se ao conde e comunicou-lhe que se havia desincumbido, também, do terceiro empreendimento e rapatara da igreja o padre com o sacristão.
- Onde os puseste? - perguntou meio incrédulo o conde.
- Estão dentro de um saco, lá no pombal, e julgam que estão no céu!
O conde, foi pessoalmente, verificar e convenceu-se de que o outro dissera a verdade. Libertou o padre e o sacristão e depois disse ao mestre:
- Tu és um super-ladrão e ganhaste a tua causa. Por esta vez, escapas com a pele inteira, mas trata de sumir das minhas terras; e, se te mostrares outras vez por aqui, podes contar que serás dependurado na forca.
O mestre ladrão, foi despedir-se dos pais e voltou a correr mundo; nunca mais ouviu-se falar nele.

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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

UMA COISA PELA OUTRA - Idres Shah (conto extraido do livro AS GAIATICES DO INCRÍVEL MULÁ NASRUDIN)




UMA COISA PELA OUTRA

Nasrudin entrou em uma loja para comprar um par de calças. Então, mudou de ideia e, em vez disso, escolheu um casaco pelo mesmo preço. Pegou o casaco e foi saindo da loja. 
“Você não pagou!”, gritou o comerciante. 
“Eu deixei as calças que tinham o mesmo valor do casaco.” 
“Mas você também não pagou pelas calças.” 
“É claro que não”, retrucou o Mulá, “por que eu pagaria por algo que não quis comprar?”


Idres Shah (AS GAIATICES DO INCRÍVEL MULÁ NASRUDIN ed. Tabla)



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COLHEITA ALTERNADA - Idres Shah (conto extraido do livro AS GAIATICES DO INCRÍVEL MULÁ NASRUDIN)









COLHEITA ALTERNADA 


O Mulá foi ao barbeiro, que fez sua barba com uma lâmina cega e uma mão desastrada. Toda vez que tirava sangue, o barbeiro grudava um tufo de algodão no corte para estancar o sangramento. Isso se repetiu por algum tempo, até que um lado do rosto de Nasrudin ficou todo salpicado de algodão. Quando o barbeiro estava prestes a raspar a outra face, o Mulá se viu de relance no espelho e levantou-se num pulo. “Basta, obrigado, irmão! Decidi cultivar algodão em um lado e cevada no outro!”

Idres Shah (AS GAIATICES DO INCRÍVEL MULÁ NASRUDIN ed. Tabla)



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APENAS SUPONHA… - Idres Shah (conto extraido do livroAS GAIATICES DO INCRÍVEL MULÁ NASRUDIN




APENAS SUPONHA…


 O Mulá estava andando pelas ruas do vilarejo, absorto em pensamentos, quando alguns pivetes começaram a jogar pedras nele. Nasrudin foi pego de surpresa e, além disso, ele não era um homem grande. 
“Parem com isso e eu contarei algo do seu interesse.” 
“Está bem, o que é? Mas nada de filosofia.” 
“O emir está oferecendo um banquete a todos que aparecerem por lá.” 
As crianças correram em direção à casa do emir, e Nasrudin foi se empolgando com o tema, as iguarias e as delícias do evento… Levantando a cabeça, viu as crianças desaparecendo à distância. Subitamente, ele ergueu seu manto e disparou atrás delas. 
“É melhor eu ir conferir”, disse, ofegante, para si mesmo, “afinal de contas, pode ser verdade.” 

Idres Shah (AS GAIATICES DO INCRÍVEL MULÁ NASRUDIN ed. Tabla)

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SUPOSIÇÕES - Idres Shah (conto extraido do livro AS GAIATICES DO INCRÍVEL MULÁ NASRUDIN)





SUPOSIÇÕES


 “Qual é o significado de destino, Mulá?” 
“Suposições.” 
“Em que sentido?” 
“Você supõe que as coisas vão dar certo, mas não dão; você chama isso de azar. Você supõe que as coisas vão acabar mal, e elas não acabam; você chama isso de sorte. Você supõe que algumas coisas vão acontecer ou que não vão acontecer, e carece de intuição a tal ponto, que você não sabe o que vai acontecer. Você supõe que o futuro é desconhecido. Quando é surpreendido, chama isso de destino.”

Idres Shah (AS GAIATICES DO INCRÍVEL MULÁ NASRUDIN)



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PRUDÊNCIA - Idres Shah (conto extraido do livro AS GAIATICES DO INCRÍVEL MULÁ NASRUDIN)




PRUDÊNCIA

O Mulá foi convidado para um banquete de casamento. Na última vez que estivera naquela casa, alguém havia levado embora suas sandálias. Dessa vez, para não deixá-las na porta, ele enfio -as no bolso interno do casaco. 
“Que livro é esse no seu bolso?”, perguntou o anfitrião. 
“Ele pode estar querendo os meus sapatos”, pensou Nasrudin, “além disso, tenho uma reputação de homem versado a zelar.” 
Então, respondeu em voz alta: 
“O tema do volume que você está vendo é ‘Prudência’”. 
“Que interessante! Em qual livraria você o comprou?” 
“Para falar a verdade, eu o comprei de um sapateiro.”


Idres Shah (AS GAIATICES DO INCRÍVEL MULÁ NASRUDIN)


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POR QUE NÃO? - Idres Shah (conto extraido do livro AS GAIATICES DO INCRÍVEL MULÁ NASRUDIN)






POR QUE NÃO? 


Nasrudin foi à loja de um homem que armazenava todo tipo de miudezas. 
“Você tem pregos?” 
“Sim.” 
“E couro, um bom couro?” 
“Sim.” 
“E cadarço?” 
“Sim.” 
“E tintura?” 
“Sim.” 
“Então, pelo amor de Deus, por que não faz um par de botas?”

Idres Shah (AS GAIATICES DO INCRÍVEL MULÁ NASRUDIN ed. Tabla)



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O USO DE UMA LAMPARINA - Idres Shah (conto extraido do livro AS GAIATICES DO INCRÍVEL MULÁ NASRUDIN)






O USO DE UMA LAMPARINA


 “Posso enxergar no escuro”, gabou-se Nasrudin, certo dia, na casa de chá. 
“Se é assim, por que às vezes vemos você carregando uma lamparina pelas ruas?” 
“Apenas para evitar que as outras pessoas esbarrem em mim.”


Idres Shah (AS GAIATICES DO INCRÍVEL MULÁ NASRUDIN ed. Tabla)


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COMENDO SEU DINHEIRO - Idres Shah (conto extraido do livro AS GAIATICES DO INCRÍVEL MULÁ NASRUDIN)






COMENDO SEU DINHEIRO


O Mulá Nasrudin, como todos sabem, vem de um país onde fruta é fruta e carne é carne, e nunca se come curry. Certo dia, ele ia se arrastando por uma empoeirada estrada indiana, logo depois de descer das altas montanhas do Kafiristão, quando uma sede enorme tomou conta dele. 
“Em breve”, pensou consigo mesmo, “devo encontrar algum lugar com boas frutas.” 
Antes mesmo dessas palavras tomarem forma em sua mente, ele fez uma curva e avistou um homem de aparência benevolente sentado à sombra de uma árvore, com um cesto diante de si. Amontoadas no cesto, havia grandes frutas, brilhantes e vermelhas. 
“É disso que eu preciso”, disse Nasrudin. 
Tirou do nó na ponta do seu turbante duas pequenas moedas de cobre, e deu-as ao vendedor de frutas. Sem dizer uma só palavra, o homem entregou todo o cesto, pois esse tipo de fruta é barata na Índia, e as pessoas costumam comprá-las em pequenas quantidades. Nasrudin se sentou no lugar vago deixado pelo comerciante e começou a mastigar as frutas. Em poucos segundos, sua boca estava queimando. Lágrimas rolavam pela sua face, havia fogo em sua garganta. O Mulá continuou comendo. Uma hora ou duas haviam se passado, até que um montesino afegão se aproximou. Nasrudin o saudou: 
“Irmão, estas frutas infiéis devem vir da própria boca de Shaitan!”. 
“Tolo!”, exclamou o montesino. “Nunca ouviu falar das pimentas do Hindustão? Pare agora de comê-las, ou a morte certamente fará uma vítima antes do sol se pôr.” 
“Não posso sair daqui”, arfou o Mulá, “enquanto não terminar o cesto todo.”
“Louco! Essas frutas vão no curry! Jogue-as fora imediatamente.” 
“Já não estou comendo as frutas”, resmungou Nasrudin, “estou comendo o meu dinheiro.”


Idres Shah (AS GAIATICES DO INCRÍVEL MULÁ NASRUDIN)

Médico Escolar Dr. José Carlos Machado www.mediconaescola.com - Acompanhe também nosso canal no You Tube - https://www.youtube.com/user/medicinaescolar e no instagram @antroposofiaemdia