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domingo, 1 de março de 2026

SE EU TIVESSE PERNAS, EU TE CHUTARIA - resenha de filme






SE EU TIVESSE PERNAS, EU TE CHUTARIA


Título original - If I Had Legs I'd Kick You
Direção - Mary Bronstein
Roteiro - Mary Bronstein
Elenco: Rose Byrne, Helen Hong, Josh Pais, Mary Bronstein, Christian Slater, Conan O'Brien, A$AP Rocky, Delaney Quinn
Drama
2026
01h:53m

Linda (Rose Byrne) é uma mãe à beira de um colapso. Praticamente mãe solo de uma menina doente, a psicóloga Linda é obrigada a navegar uma crise atrás da outra quando cai o teto do seu apartamento,  graças a um vazamento enorme de água no andar superior. Com a vida desmoronando (literal e metaforicamente), ela busca socorro de todos os lados, mas ninguém parece estar realmente interessado ou ser capaz de ajudá-la. Agora, morando num motel com sua filha, enquanto aguarda o conserto de sua casa, precisa encontrar um jeito de resolver o buraco em seu telhado, a doença misteriosa da sua criança (ligado a um raro transtorno alimentar), o arranjo de estacionamento irritante da escola da filha  e um paciente desaparecido.

Durante as quase 2h de duração de Se Eu Tivesse Pernas, Eu te Chutaria, dificilmente a câmera da diretora se afasta muito do rosto de sua protagonista que recebeu o prêmio de melhor atriz (Globo de Ouro, 2026) por sua brilhante interpretação.

A médica que acompanha a filha, Dra. Spring (personagem vivido pela própria diretora do filme) não poupa Linda com cobranças e recriminações.

O pior é que ninguém parece realmente disposto a ajudá-la, muito menos os homens ao seu redor. O marido (Christian Slater), pai da criança, só ouvimos ao telefone - ele trabalha em um cruzeiro e não está presente no dia-a-dia da família, além das cobranças domésticas; seu terapeuta, outro psiquiatra vivido por (um excelente) Conan O’Brien, desde o início não acolhe suas angústias, ao contrário tenta se afastar da personagem que solicita sua ajuda.

Acontece que eles, como outras figuras masculinas na vida de Linda (um novo vizinho interpretado por A$AP Rocky entra rapidamente nesse rol), também gostam do sentimento de satisfação que vem de posar como o “resolvedor de problemas” na vida dessa mulher com uma dinâmica muito complicada. O que fazem, para isso, é entrar em cena quando a situação já passou do ponto do desespero e agir como se cada mero movimento que fazem na direção da conveniência de Linda fosse um grande ato de altruísmo. E ela entra nesse jogo repetidamente, diante da corrida de obstáculos hostil e solitária em que se transformou sua vida. Parece que Linda vai entrar em colapso a qualquer instante e assim Bronstein estabelece a sua abordagem claustrofóbica, focada em colocar o espectador na ótica de uma mulher no seu limite que a cada cena parece que irá desmoronar, apresentando um retrato impiedoso do isolamento e da volatilidade do ser mãe, das pressões sociais que, por sua vez, criam ansiedades e medos. A aparição do rosto criança não é revelada até a última cena, somente sua voz, um recurso adicional para que a mãe seja o personagem principal.

Um filme sensível e delicado que retrata o sofrimento e a batalha de uma mãe que tenta resolver seus muitos problemas e conflitos absolutamente sozinha.

scapar, pela boca amarga de quem está os reprimindo, esses medos são seguidos por olhares de desaprovação, movimentos de desvencilhamento, e portanto ainda mais isolamento. É um ciclo vicioso que vai girando e girando na direção de um desastre anunciado, mas nem por isso noMédico Escolar Dr. José Carlos Machado www.mediconaescola.com - Acompanhe também nosso canal no You Tube - https://www.youtube.com/user/medicinaescolar e no instagram @antroposofiaemdia

O FILHO DE MIL HOMENS - filme (resenha)











O FILHO DE MIL HOMENS

Diretor - Daniel Rezende
Roteiro - Valter Hugo Mãe e Duda Casoni
Elenco:
Rodrigo Santono, Miguel Martines, Johnny Massaro, Rebeca Jamir, Ignez Viana
Duração - 02h:06m
2025


Crisóstomo (Rodrigo Santoro) é um pescador solitário que tem o sonho de ter um filho, carrega dentro de si a culpa de aos 40 anos ainda não ter conseguido realizar esse sonho. Sua vida muda quando ele encontra Camilo (Miguel Martines), um menino órfão de 12 anos de idade que decide acolher. Logo eles iniciam uma jornada em formar uma família nada convencional quando uma mulher cruza o caminho dos dois, Isaura (Rebeca Jamir) tentando fugir de sua própria dor encontrando amparo e ternura naquela casa, em seguida, Antonino (Johnny Massaro), um jovem incompreendido, também se conecta com eles. Juntos, os quatro aprendem o significado de família e o propósito de compartilhar a vida.
Muitas vezes a obra literária não tem o mesmo impacto quando surge sua versão nas telas, nesse caso o filme manteve o lirismo e a força dos personagens, cujos atores interpretaram de maneira sensível e delicada a trama dessa história belíssima que merece ser assistida.
Leia também nesse blog a resenha desse livro escrito por Valter Hugo Mãe quem também colaborou com o roteiro do filme.




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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A MOURA TORTA - Luís da Câmara Cascudo (conto folclórico)





A MOURA TORTA

Uma vez havia um rei que estava envelhecendo e que tinha três filhos, ficava preocupado em escolher um herdeiro que fosse capaz de assumir o seu lugar então deu a cada um deles uma melancia, quando eles quizeram sair de casa para ganhar a sua vida e provar o seu valor. O pai lhes tinha recomendado que não abrissem as frutas a não ser em um lugar onde houvesse água. O mais velho quando foi ver o que dava a sua sina, estando ainda perto da casa, não se conteve e abriu a sua melancia. Pulou de dentro uma moça muito bonita dizendo: 
- Me dê agua, ou me dê leite. 
O rapaz não achava nem uma coisa nem outra, a moça caiu para traz e morreu.
O irmão do meio, quando chegou a sua vez, se achando não muito longe de casa, abriu também a sua melancia, e saiu de dentro uma moça ainda mais bonita do que a outra; pediu água ou leite, e o rapaz não achando nem uma coisa nem outra, ela caiu para traz e morreu.
Quando o caçula partiu para ganhar a sua vida foi mais esperto e só abriu a sua melancia perto de uma fonte. Quando abriu sua melancia pulou de dentro uma moça ainda mais bonita do que as duas primeiras, e foi dizendo: 
- Quero água ou leite. 
O moço foi à fonte, trouxe água e ela bebeu até se fartar. Mas a moça estava nua, e então o rapaz disse a ela que subisse em uma árvore que havia ali perto da fonte, em quanto ele iria buscar alguma roupa para ela vestir. A moça subiu e se escondeu nas ramagens. Veio uma moura torta buscar água, e, vendo na água o reflexo de uma moça tão bonita, pensou que fosse a sua própria imagem e se falou: 
- Que desaforo! Pois eu sendo uma moça tão bonita, ter de andar carregando água!…
Atirou com o pote no chão e arrebentou-o. Chegando em casa sem água e nem pote levou uma descompostura muito forte, e a senhora mandou-a buscar água outra vez; mas ao chegar na fonte, aconteceu o mesmo e, novamente quebrou o outro pote. Foi pela terceira vez  e como das outras vezes, ficava muito revoltada e quebrava o pote. A moça que estava encima da árvore não se podendo conter deu uma gargalhada.
A moura torta, espantada, olhou para cima e disse: 
- Ah! é você, minha netinha!… Deixe eu lhe pentear seu cabelo. 
E foi logo subindo pela árvore e foi mexendo na cabeça da moça e fincou-lhe um alfinete, e a moça se transformou em uma pombinha e voou. A moura torta então ficou no lugar dela. O moço, quando chegou, achou aquela mudança tamanha e estranhou; mas a moura torta lhe disse: 
- O que você queria? Foi o sol que me queimou!… Você demorou tanto a vir me buscar!
Partiram para o palácio, onde se casaram. A pombinha então costumava a voar por perto do palácio, e se punha no jardim a dizer: 
- Jardineiro, jardineiro, como vai o rei, meu senhor, com a sua moura torta? E voava para longe dali.
 Até que o jardineiro contou ao rei, que, meio desconfiado, mandou armar um laço de diamante para prende-la, mas a pombinha não caiu nessa armadilha. Mandou armar um de ouro, e nada; um de prata, e nada; afinal fizeram um laço simples de visco, e ela caiu. Foram leva-la para dentro do palácio e a pombinha ficou muito feliz. Passado algum tempo, a moura torta fingiu estar grávida e colocou mato para a pombinha comer. No dia em que deviam coloca-la na panela, o rei, com pena da pobre pombinha, pegou-a e começou a acariciar sua cabecinha e encontrou aquele carocinho na cabecinha, e pensando ser uma pulga, foi puxando e retirou o alfinete e surgiu aquela moça linda de antes. O rei conheceu a sua bela princeza. Casaram-se, e a moura torta morreu amarrada nos rabos de dois burros bravos que a arrastaram pela estrada afora.


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CARNE DE LÍNGUA - conto africano





CARNE DE LÍNGUA

Certa vez, na África havia um reino muito próspero. Lá, todos eram felizes e amavam o rei e a rainha, que era gordinha, de bochechas rosadas e riso gostoso. 
Um dia, sem nenhuma explicação a rainha começou a ficar doente, dia a dia ela foi emagrecendo e ficando com a pele opaca e sem brilho.
O rei buscou todos os curandeiros do reino, porém, ninguém encontrou a resposta para o que estava acontecendo a ela. 
Determinado, o rei resolveu, ele mesmo procurar a cura para a sua esposa.
Ele saiu pelo reino e um dia, quando passava por um campo, ouviu uma risada gostosa, o que o lembrou da sua esposa. Ele foi até à casa e olhando pela janela viu uma mulher sentada com seu esposo, os dois estavam rindo e viu também que ela era gordinha e de bochechas rosadas.
O rei bateu na porta e, quando o homem atendeu, levou um susto ao ver o rei do seu país parado à sua frente.
Imediatamente, o rei perguntou ao homem o que ele fazia para que sua esposa fosse tão linda e saudável, assim gordinha de bochechas rosadas.
O homem imediatamente disse:
– Isso é carne de língua!
O rei voltou correndo para o palácio e mandou o cozinheiro real preparar uma grande sopa de carne de língua para a rainha.
O cozinheiro prontamente separou a língua de todos os animais que ele podia e fez uma grande sopa. A rainha tomou a sopa, mas não melhorou. Ela continuava emagrecendo.
Então, o rei teve uma ideia, levou a rainha para a casa do camponês e levou a camponesa para o palácio.
Em pouco tempo a rainha ficou gordinha e corada, já a camponesa adoeceu e começou a emagrecer.
O rei voltou para a casa do camponês intrigado com a situação, querendo entender o que estava acontecendo.
Então o camponês explicou:
– Quando falei de carne de língua, não quis dizer que ela deveria comer carne de língua. Eu estava falando das histórias que eu conto para ela todos os dias.
O rei levou a rainha para o palácio e passou a lhe contar histórias todos os dias, ela se recuperou totalmente e nunca mais ficou doente.
É por isso que na África todos dizem que ouvir histórias faz bem para a saúde de qualquer pessoa.


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O LADRÃO MESTRE - Irmãos Grimm (conto)





O LADRÃO MESTRE

Certo dia, estavam sentados, em frente de pobre casinha, um homem e sua esposa, descansando do trabalho. Nisto chegou uma bela carruagem, atrelada com quatro cavalos pretos, e dela apeou um senhor luxuosamente vestido. O campônio levantou-se e foi ao encontro do senhor, perguntando o que desejava e em que podia servi-lo. O desconhecido apertou-lhe a mão e disse: - Desejo, apenas, saborear um prato dessa boa comida do campo. Preparai algumas batatas à vossa maneira, sentar-me-ei à mesa convosco e as comerei com imenso prazer.
O campônio sorriu e disse:
- Vós sois, sem dúvida, conde ou príncipe, talvez mesmo duque; os grandes fidalgos costumam ter desses desejos! E o vosso será satisfeito.
A mulher foi para a cozinha e começou a lavar e descascar as batatas, querendo fazer um bom prato de "nhoques," desses que os camponeses tanto apreciam. Enquanto ela cuidava dessa tarefa, o campônio disse ao desconhecido:
- Enquanto esperamos, vinde comigo até à horta; ainda tenho de terminar um pequeno serviço lá.
Na horta, ele havia aberto algumas covas onde pretendia plantar mudas de árvores.
- Não tendes nenhum filho que vos possa ajudar? - perguntou o desconhecido.
- Não, - respondeu o campônio, e acrescentou: - Na verdade tive um mas, há muito tempo ele nos deixou para correr mundo. Era um rapaz viciado, inteligente e malicioso, mas não tinha vontade de aprender coisa alguma; só sabia pregar-me as piores peças. Um dia, fugiu de casa e nunca mais tive notícias dele.
Assim dizendo, o campônio colocou uma muda dentro da cova o enfiou uma estaca ao lado; depois de socar bem a terra em volta, amarrou a haste ao pau, embaixo, no meio e no alto, com um cipòzinho.
- Dizei-me uma coisa, - disse o desconhecido, - por que não amarrastes uma estaca também àquela árvore torta ali do canto, àquela contorcida e nodosa que está vergada quase até ao chão?
O velho sorriu e disse:
- Senhor, falais como todos os que não entendem do assunto; bem se vê que nunca lidastes com uma horta. Aquela árvore contorcida já está velha e ninguém poderá mais endireitá-la. As árvores devem ser endireitadas quando são novinhas.
- Tal como o vosso filho! - disse o desconhecido; - se o tivésseis educado quando era pequenino, não teria fugido de casa. Agora ele, também, se terá endurecido e contorcido.
- Naturalmente! - respondeu o campônio. - Já faz tanto tempo que se foi, deve estar bem mudado!
- Se ele se apresentasse agora, ainda o reconheceríeis? - perguntou o desconhecido.
- Pela cara, dificilmente! - respondeu o campônio, - mas o reconheceria por um sinal em forma de feijão que tem no ombro.
Quando ele disse isto, o desconhecido despiu o paletó, descobriu o ombro e mostrou o sinal em forma de feijão.
- Senhor Deus meu! - exclamou o velho: - então és o meu filho!
E o amor paterno agitou-lhe o coração; mas acrescentou:
- Como é possível que sejas meu filho, se és fidalgo e vives na opulência e na fartura? Por quê caminho chegaste a tal altura?
- Ah, meu, pai! - respondeu o filho, a arvorezinha tenra não foi amarrada à estaca, no tempo devido, e cresceu torta! Agora está velha e não endireita mais. Como ganhei tudo isto? Tornei-me ladrão. Oh não te assustes, eu sou um mestre ladrão! Para mim, não existem fechaduras ou ferrolhos que resistam; quando quero alguma coisa, tomo-a. Não creias, porém, que me reduzi a roubar como gatuno vulgar; eu apodero-me, somente, do supérfluo dos ricos; os pobres podem ficar descansados, a eles prefiro dar do que tomar. Assim como não me interessa o que me possa vir ás mãos sem trabalho, astúcia ou habilidade.
- Ah, meu filho, - disse tristemente o pai, - de qualquer maneira teu ofício não me agrada; ladrão é e será sempre ladrão, e nunca acaba bem, digo-te eu!
Conduziu-o à presença de sua mãe e, quando esta soube que ele era seu filho, chorou de alegria; e quando ficou sabendo que ele era ladrão mestre, as lágrimas corriam-lhe das faces como caudais. Entretanto, assim que conseguiu falar, disse:
- Mesmo que se tenha tornado ladrão, é sempre meu filho, e meu olhos tiveram a graça de vê-lo ainda uma vez!
Depois, foram para a mesa e ele comeu em companhia dos pais a modesta comida caseira, que há tanto tempo não comia. O pai lembrou:
- Se nosso amo, o conde lá do castelo, souber quem és e o que fazes, creio que não te pegará no colo e não te ninará como quando te levou à pia batismal; acho que te mandará balouçar na ponta da corda de uma forca.
- Não te preocupes, meu pai; ele não me fará nada; pois sei bem como são as coisas. Hoje mesmo irei visitá-lo.
Ao cair da tarde, o ladrão subiu na carruagem e foi ao castelo. O conde recebeu-o amavelmente, julgando que fosse um grande fidalgo. Mas, assim que ele se deu a conhecer, o conde empalideceu e, durante alguns minutos, perdeu a fala. Depois disse:
- Tu és meu afilhado, por isso serei clemente e te tratarei com toda a indulgência. Como, porém, te gabas de ser ladrão mestre, quero pôr à prova tua habilidade.
Mas, se fizeres fiasco, eu te mandarei dançar na ponta da corda pelo espaço e, como música de acompanhamento, terás o doce crocitar dos corvos.
- Senhor conde, - respondeu o ladrão, - inventai três empreendimentos difíceis quanto quiserdes, se eu não os levar a cabo, fazei de mim o que vos aprouver.
O conde pensou durante alguns minutos e depois disse:
- Está bem! Em primeiro lugar, deves roubar da cavalariça meu cavalo predileto; em segundo lugar, quando minha mulher e eu estivermos dormindo, tens de tirar o lençol que temos debaixo do corpo sem que possamos perceber; também tens de tirar a aliança que minha mulher traz no dedo; por fim, tens que raptar da igreja o padre e o sacristão. Toma nota de tudo direito, porque é a tua vida que está em jogo.
O mestre ladrão despediu-se e foi à cidade vizinha. Lá adquiriu a roupa de uma velha campònia e vestiu-se. Pintou o rosto de cor bronzeada, desenhando algumas rugas. de maneira a ficar irreconhecível; em seguida, comprou um barrilete de velho vinho da Hungria, misturando-lhe forte narcótico. Meteu o barrilete num cesto. que pôs às costas e, com passos trôpegos e arrastados, voltou ao castelo do conde.
Quando chegou lá, já era escuro. Sentou-se numa pedra que havia no terreiro, pôs-se a tossir como uma velha asmática e a esfregar as mãos como se estivesse morrendo de frio.
Em frente à cavalariça, havia um grupo de soldados, deitados ao pé de uma fogueira; um deles, vendo aquela velha a tossir, gritou-lhe:
- Ei, avozinha, chega aqui perto, vem aquecer-te conosco. Cama para dormir não tens mesmo e deves aceitar o que te oferecem, vem pois aquecer-te aqui!
A velha aproximou-se com passinhos miúdos e pediu que lhe tirassem o cesto das costas; depois sentou-se junto deles ao pé do fogo.
- Que tens aí nesse barrilzinho, velha bruxa? - perguntou um dos soldados.
- Tenho um dedo de excelente vinho, - respondeu ela; - preciso vender alguma coisa, se quero viver! Dinheiro e boas palavras, com isso poderás ter um copo.
- Vamos lá, dá-me um copo, então! - exclamou o soldado e, depois de provar o vinho, disse: - quando o vinho é bom, gosto de beber mais de um copo! - e pediu mais. Os outros seguiram-lhe o exemplo.
- Olá, camaradas! - gritou um deles aos que estavam dentro da cocheira. - Está aqui a vovozinha oferecendo um vinho tão velho quanto ela mesma; tomai um copo que isso vos aquecerá o estômago melhor que o fogo.
A velha levou o barrilete dentro da cachoeira. Um dos soldados estava montado no cavalo predileto do conde; outro o estava segurando pelo freio, e o terceiro pelo rabo. A velha pôs-se a distribuir o excelente vinho tanto quanto lho pediam e, assim, foi até esvaziar o barrilete.
Não demorou muito, o soldado que segurava o freio largou-o e rolou pelo chão, onde se pôs a roncar deliciosamente; o outro largou o rabo, caiu deitado e roncou mais alto ainda; o que estava montado, permaneceu na sela, mas pendeu o corpo para a frente até tocar com a cabeça no pescoço do cavalo; ferrou no sono e assoprava como um velho fole.
Lá fora, os demais dormiam há muito, deitados no chão e imóveis como se fossem de pedra.
O ladrão, ao ver que tudo lhe saíra às mil maravilhas, colocou uma corda na mão daquele que segurava o freio; ao que segurava o rabo, pós-lhe na mão um punhado de palha; mas que devia fazer com o que estava montado no cavalo? Não queria botá-lo para baixo com receio que despertasse e fizesse um escarcéu. Finalmente, descobriu um expediente: desafivelou a correia que prendia a sela, passou umas cordas nas argolas que havia nas traves, prendeu a sela com o cavaleiro montado e sus- pendeu-a, depois amarrou firmemente as cordas num pau. Feito isto, foi facílimo subtrair o cavalo; mas para sair montado, o barulho das ferraduras poderia chamar a atenção, então enrolou alguns trapos nos cascos do cavalo, levou-o para fora da cocheira e, montando nele, disparou a todo galope.
Na manhã do dia seguinte, o ladrão dirigiu-se a rédeas soltas para o castelo, todo pimpão no cavalo roubado. O conde acabava de levantar-se e estava à janela.
- Muito bom dia! - gritou de baixo o ladrão. - Eis aqui o cavalo, que tirei com a maior facilidade da cavalariça. Ide ver como dormem os vossos soldadas, como bem-aventurados estão lá deitados no chão, e podeis ver, também, na cavalariça como se acomodaram os vossos guardas!
O conde não pôde conter-se e, dando uma risada, disse:
- Da primeira vez te saíste bem, mas na segunda não te será tão fácil. A divirto-te, entretanto, que, se te apanho como um ladrão qualquer, trato-te como tal.
A noite, quando marido e mulher foram deitar-se, a condessa fechou a mão bem apertada, segurando firmemente a aliança, e o conde disse-lhe:
- As portas estão todas trancadas; eu ficarei acordado e, se o ladrão tentar entrar pela janela, dou-lhe um tiro.
Entretanto, em meio às trevas da noite, o ladrão foi ao local das forcas, cortou a corda de um pobre enforcado e carregou-o às costas até ao castelo. Em seguida, colocou uma escada sob a janela do quarto e, com o morto sentado sobre os ombros, foi subindo. Ao chegar à altura em que a cabeça do morto aparecia na janela, parou. O conde, que da cama estava espreitando, apertou o gatilho e deu-lhe um tiro; o ladrão soltou, imediatamente, o defunto, pulou da escada e correu a esconder-se num canto. A noite estava tão claramente iluminada pelo luar que o mestre pôde ver, perfeitamente, o conde saindo pela janela; depois desceu pela escada e levou o morto até ao jardim. Uma vez lá, deu-se ao trabalho de abrir uma cova para o enterrar.
- Agora é o momento azado! - disse de si para si o ladrão.
Deslizou, mais que depressa, do esconderijo, trepou pela escada e foi direitinho ao quarto da condessa.
- Minha cara mulher, - disse ele imitando a voz do conde: - O ladrão está morto, mas de qualquer maneira era meu afilhado, mais velhaco do que malvado. Portanto, não quero expô-lo à vergonha pública, mesmo porque tenho pena daqueles pobres pais; vou enterrá-lo, eu mesmo, no jardim, antes que amanheça, para que ninguém venha a saber de coisa alguma. Dá-me o lençol para amortalhá-lo, assim não será enterrado como um cão.
A condessa entregou-lhe o lençol.
- E, sabes? - prosseguiu o ladrão - terei para com ele um rasgo de generosidade; dá-me, também, tua aliança, afinal de contas esse infeliz arriscou a vida por causa dela; que a leve consigo para a sepultura.
A condessa, embora a contragosto, não quis opor-se à vontade do conde e, tirando o anel do dedo, entregou-lho. O ladrão, tendo em poder as duas coisas, tornou a sair pela janela e chegou a casa sem inconvenientes, antes que o conde tivesse terminado o trabalho de coveiro no jardim.
Imagine-se, agora, que cara fez o conde na manhã seguinte, quando o mestre ladrão apareceu levando-lhe o lençol e a aliança!
- Possuis acaso a varinha mágica? - perguntou-lhe; - quem te desenterrou da cova onde com minhas próprias mãos te coloquei? Quem foi que te ressuscitou?
Rindo-se, o ladrão respondeu:
- Não foi a mim que enterraste! Foi àquele infeliz que estava na forca. E narrou, detalhadamente, como se passaram as coisas. O conde teve que admitir que era um ladrão hábil e inteligente.
- Mas não terminaste ainda, - disse-lhe; - falta levares a cabo o terceiro empreendimento; se nesse não tiveres êxito, tudo o mais não te valerá de nada.
O ladrão sorriu e não respondeu nada.
Quando caiu a noite, dirigiu-se à igreja da aldeia, levando um comprido saco nas costas, um embrulho debaixo do braço e uma lanterna na mão. Dentro do saco havia uma porção de caranguejos e, no embrulho, outras tantas velinhas de cera. Penetrou no cemitério junto à igreja, sentou-se no chão, pegou um caranguejo e gradou-lhe uma velinha nas costas; acendeu-a e soltou o bichinho. Fez o mesmo com outros e continuou assim até acabar com todos os que estavam no saco. Em seguida, vestiu uma túnica preta, parecida com burel de frade, grudou longa barba branca no queixo e ficou completamente irreconhecível. Depois, pegou o saco no qual trouxera os caranguejos, encaminhou-se para a igreja e subiu no púlpito. O relógio da torre acabava justamente de bater o último toque das doze horas; então ele gritou com voz tronitroante:
- Ouvi-me, pecadores! Chegou o fim de todas as coisas; o dia do Juízo está próximo! Ouvi! Ouvi! Quem quiser subir comigo para o céu, entre neste saco! Eu sou São Pedro, o que abre e fecha as portas do céu; olhai lá fora, no cemitério, os mortos já estão recolhendo seus ossos. Vinde! Vinde depressa! Entrai neste saco! Chegou o fim do mundo!
Aqueles brados repercutiram por toda a aldeia. O padre e o sacristão, que moravam mais perto da igreja, foram os primeiros a ouvir o estranho apelo; e, quando viram todas aquelas luzinhas caminhando pelo cemitério, convenceram-se de que algo de extraordinário estava sucedendo e foram correndo para a igreja. Durante alguns momentos, ficaram escutando o sermão, depois o sacristão deu uma cotovelada no padre o disse:
- Não seria nada mau se aproveitássemos a oportunidade e juntos fôssemos, confortavelmente, para o céu, antes que chegue o dia do Juízo!
- Naturalmente, - respondeu o padre, - também penso assim; se estás disposto, ponhamo-nos a caminho.
- Sim, - disse o sacristão, - mas vós, reverendo, tendes direito de precedência; eu vos seguirei.
Assim o padre foi o primeiro a subir até ao púlpito, onde o ladrão o acondicionou dentro do saco; em seguida foi a vez do sacristão. O mestre, mais que depressa, amarrou fortemente a boca do saco e arrastou-o pela escada do púlpito abaixo; cada vez que as cabeças dos dois malucos batiam nos degraus, ele gritava:
- Agora estamos atravessando as montanhas.
Dessa maneira levou-os através da aldeia e, quando
passavam dentro de alguma poça d'água, ele gritava:
- Agora atravessamos as nuvens molhadas.
Finalmente, quando iam subindo a escadaria do castelo, dizia:
- Agora estamos subindo as escadas do Céu, em breve chegaremos ao vestíbulo.
Chegando lá em cima, ele empurrou o saco para dentro do pombal e, quando as pombas assustadas começaram a bater as asas, disse:
- Estais ouvindo como os anjos se alegram e batem as asas de contentamento?
Então, puxou o trinco da porta e foi-se embora.
Na manhã seguinte, apresentou-se ao conde e comunicou-lhe que se havia desincumbido, também, do terceiro empreendimento e rapatara da igreja o padre com o sacristão.
- Onde os puseste? - perguntou meio incrédulo o conde.
- Estão dentro de um saco, lá no pombal, e julgam que estão no céu!
O conde, foi pessoalmente, verificar e convenceu-se de que o outro dissera a verdade. Libertou o padre e o sacristão e depois disse ao mestre:
- Tu és um super-ladrão e ganhaste a tua causa. Por esta vez, escapas com a pele inteira, mas trata de sumir das minhas terras; e, se te mostrares outras vez por aqui, podes contar que serás dependurado na forca.
O mestre ladrão, foi despedir-se dos pais e voltou a correr mundo; nunca mais ouviu-se falar nele.

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