Durante as quase 2h de duração de Se Eu Tivesse Pernas, Eu te Chutaria, dificilmente a câmera da diretora se afasta muito do rosto de sua protagonista que recebeu o prêmio de melhor atriz (Globo de Ouro, 2026) por sua brilhante interpretação.
A médica que acompanha a filha, Dra. Spring (personagem vivido pela própria diretora do filme) não poupa Linda com cobranças e recriminações.
O pior é que ninguém parece realmente disposto a ajudá-la, muito menos os homens ao seu redor. O marido (Christian Slater), pai da criança, só ouvimos ao telefone - ele trabalha em um cruzeiro e não está presente no dia-a-dia da família, além das cobranças domésticas; seu terapeuta, outro psiquiatra vivido por (um excelente) Conan O’Brien, desde o início não acolhe suas angústias, ao contrário tenta se afastar da personagem que solicita sua ajuda.
Acontece que eles, como outras figuras masculinas na vida de Linda (um novo vizinho interpretado por A$AP Rocky entra rapidamente nesse rol), também gostam do sentimento de satisfação que vem de posar como o “resolvedor de problemas” na vida dessa mulher com uma dinâmica muito complicada. O que fazem, para isso, é entrar em cena quando a situação já passou do ponto do desespero e agir como se cada mero movimento que fazem na direção da conveniência de Linda fosse um grande ato de altruísmo. E ela entra nesse jogo repetidamente, diante da corrida de obstáculos hostil e solitária em que se transformou sua vida. Parece que Linda vai entrar em colapso a qualquer instante e assim Bronstein estabelece a sua abordagem claustrofóbica, focada em colocar o espectador na ótica de uma mulher no seu limite que a cada cena parece que irá desmoronar, apresentando um retrato impiedoso do isolamento e da volatilidade do ser mãe, das pressões sociais que, por sua vez, criam ansiedades e medos. A aparição do rosto criança não é revelada até a última cena, somente sua voz, um recurso adicional para que a mãe seja o personagem principal.
Um filme sensível e delicado que retrata o sofrimento e a batalha de uma mãe que tenta resolver seus muitos problemas e conflitos absolutamente sozinha.

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Dr José Carlos Machado
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