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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

AHRAR E O CASAL RICO - Idres Shah (conto extraido do livro A sabedoria dos idiotas)







AHRAR E O CASAL RICO



 Emirudin Arosi, que vinha de uma família conhecida por sua adesão às crenças de uma seita de entusiastas, encontrou um sábio e disse a ele: “Minha mulher e eu temos tentado, por muitos anos, com determinação, seguir o caminho dervixe. Cientes de que sabíamos menos do que muitos outros, durante bastante tempo nos contentamos em empregar nossa riqueza na causa da verdade. Seguimos pessoas que tomaram para si a responsabilidade de ensinar, das quais agora duvidamos. Nós nos lamentamos; não por aquilo que perdemos em doações materiais, desperdiçadas em transações comerciais inúteis feitas por nossos antigos mentores em nome do Trabalho, mas sim pelo desperdício de tempo e esforço, e pelas pessoas que ainda se encontram em um estado de submissão a mestres iludidos e autonomeados. São pessoas que habitam negligentemente uma casa gerida por dois falsos sufis, em uma atmosfera de anormalidade”.
O sábio, que a tradição chama de Khwaja Ahrar, o Senhor dos Livres, respondeu: “Vocês se arrependeram do apego a ‘mestres’ imitadores, mas ainda não se arrependeram da própria autoestima, que os faz acreditar que têm uma responsabilidade com os prisioneiros do falso. Muitos deles ainda estão presos em uma rede de enganos, porque também não se arrependeram do engano e desejam o conhecimento fácil”. 
“O que devemos fazer?”, perguntou Emirudin Arosi. 
“Venham a mim com o coração aberto e sem impor quaisquer condições, mesmo se essas condições forem o serviço à humanidade, ou eu lhes parecer sensato”, disse o mestre, “pois a libertação dos seus companheiros é uma questão para especialistas, não para vocês. Até a sua capacidade de formar uma opinião a meu respeito é debilitada, e eu me recuso a confiar nela.” 
Mas, naturalmente, com medo de estarem cometendo outro erro, Arosi e sua mulher continuaram procurando por outro homem: alguém que pudesse confortá-los. E encontraram. Só que esse homem, como costuma acontecer, era apenas outra fraude. 
Mais uma vez, anos se passaram, e o casal retornou à casa de Khwaja Ahrar. “Viemos, em total submissão”, disseram ao guardião do portão, “para nos colocarmos nas mãos do Senhor dos Livres, como corpos nas mãos do lavador de mortos.” 
“Pessoas de bem”, respondeu o guardião, “sua determinação parece excelente, e muito se assemelha à determinação daqueles que o Senhor dos Livres aceitaria como discípulos. Porém, não há uma segunda chance para vocês nesta vida, pois Khwaja Ahrar está morto.”

Idres Shah (A sabedoria dos idiotas ed. Tabla)




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