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domingo, 15 de fevereiro de 2026

ALIMENTAÇÃO COMO ATO EDUCATIVO (capítulo de livro)






                          ALIMENTAÇÃO COMO ATO EDUCATIVO 


INTRODUÇÃO
COMER JUNTO
PREPARANDO O PRÓPRIO ALIMENTO
SIMPLES ASSIM
COMPARTILHANDO O PÃO
OS CEREAIS E OS DIAS DA SEMANA
ALIMENTOS E TEMPERAMENTOS
DIETAS INFANTIS
LEITE, CARNE E MEL
JOGANDO CONVERSA DENTRO
BIBLIOGRAFIA
 
 
INTRODUÇÃO
A ideia de escrever esse livro surgiu justamente em torno de uma mesa, em uma conversa onde alguns de nós perguntava: Por que era tão complicado fazer com que as crianças experimentassem os alimentos e adquirissem um paladar mais variado, ao invés de selecionarem tudo e preferirem tantas bobagens? Essa parecia ser uma preocupação comum a todos nós e cada um com sua experiência começou a buscar justamente na infância a resposta àquela pergunta. Uma coisa leva à outra e me veio à lembrança as minhas refeições quando criança sentado à mesa com meu pai, como ele valorizava esses encontros, essas reuniões familiares em torno de pratos e de histórias da família, cada um de nós tem registrado em algum lugar algo semelhante, essas memórias fazem parte de nossa natureza humana, mas parece que atualmente temos uma dificuldade em optar pelas tarefas mais simples e propor que uma trivial refeição em família tenha um grau de importância, ainda mais realçando esse gesto como algo educativo e de grande valor terapêutico, podendo até ser considerado um exagero para muitos, mas é exatamente essa a proposta desse livro e a propósito não é exagerado afirmar que uma refeição em família permite que uma referência e a própria estrutura psíquica de equilíbrio seja confirmada, aliás comer junto é algo absolutamente humano, pois somente o homem compartilha, os animais se alimentam em bando.
Falar sobre alimentos ou mesmo comentar sobre as diversas contribuições que uma alimentação sadia teria a oferecer a quem a usufrui não é realmente uma novidade, sobre isso existe uma variada lista de bons títulos disponíveis, mas considero pertinente que após mais de vinte anos orientando dietas e trabalhando com a angústia materna de seus filhos inapetentes (e mais recentemente constatando um grande número de crianças vorazes e obesas), permiti dirigir meu foco ao ato educativo que a alimentação possui em sua essência, na reunião familiar onde o pai, sentado à cabeceira possa relatar à família reunida em torno da mesa todos os castelos que conquistou e as batalhas que enfrentou naquele dia, a mãe possa fazer o mesmo e quem sabe também contar as novidades e suas observações e comentários, os filhos ouvindo e participando dessas conversas sentem-se encorajados para falarem de seus desejos e dos desafios enfrentados na escola, relatando seus progressos e suas dificuldades, os menores começam a fazer parte dessas reuniões, prestam atenção e terão a oportunidade de ao seu tempo também poderem participar. Ali em torno da mesa, compartilhando o mesmo pão acontece a comunhão, os elos se reforçam nesses encontros, os vínculos se estreitam ainda mais, todos comem juntos, esse pequeno e valioso ritual alicerça a nossa esperança e, verdadeiramente nos reconforta e alimenta não somente o corpo mas também a alma.
COMER JUNTO
A civilização grega criou o conceito que dieta, saúde, exercício físico e higiene constituíam a base do equilíbrio humano. Sua perfeição essencial para manter o corpo saudável e livre de doenças dependeria de uma alimentação capaz de corrigir os excessos e suprir as faltas deste ou daquele elemento, a dieta do mundo antigo era baseada, sobretudo como um meio de prevenir e curar doenças que podem atuar no homem. A visão de que o corpo humano era composto de quatro humores, cada um com seus atributos e características próprias, exercia uma crença na qual o desequilíbrio de um desses componentes poderia adoecer o seu portador. O homem possui quatro humores ou temperamentos: sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra. O primeiro (sangue) teria a característica de ser quente e seco; a fleuma apresentando frio e secura como atributos; quente e úmido como característico da bílis amarelo e frio e umidade, por sua vez, como componentes da bílis negra. Todos os alimentos possuem uma ou outra característica e sua dieta teria uma relação direta com a saúde de quem a utilizasse. No entanto, o desequilíbrio e o surgimento das doenças também variavam com a idade e as estações do ano, sabia-se que homens idosos deviam evitar comer amido, queijo ou ovos cozidos e as comidas consumidas no inverno deveriam ser mais quentes, fortes e secas se comparadas com aquelas consumidas no verão. Esses conceitos foram incorporados e chegaram até a Idade Média onde Galeno, médico da corte de Marco Aurélio, desenvolveu diversos trabalhos em que demonstravam que higiene e dieta especificavam exatamente o que cada pessoa deveria se alimentar segundo a sua disposição humoral.( pg. 18 ).
Na Grécia Antiga comer e beber em conjunto eram expressões de igualdade, que significava que seus componentes pertenciam a um grupo distinto que compartilhava os mesmos valores e também o seu poder político. Esses banquetes cívicos exerciam uma forte expressão comunitária entre os cidadãos da pólis. Nessas ocasiões, animais eram sacrificados em homenagem aos deuses, mas a carne era dividida igualmente entre os cidadãos, que após cozida era consumida em conjunto. Acontecimentos assim eram vistos como uma necessidade, um meio de sustentação da ordem política da cidade-estado. (pg.20)
Os romanos, assim como os gregos, também associavam determinados alimentos aos humores e ainda acreditavam que apenas os alimentos frescos eram absolutamente puros e incorruptos. Por exemplo, as partes mais macias da carne, que exigiam menos cozimento eram preferíveis que aquelas com cartilagens, que exigia de um processo mais elaborado, ou seja, outro passo no caminho da podridão, como causa de mau hálito, vômitos e disenteria. pg.25)
Cícero acreditava que as cenas (jantares) eram o coração da vida civilizada romana e dizia “Foi uma boa ideia de nossos ancestrais a presença de convidados numa mesa de jantar, pois isto implicava uma comunidade de prazeres, de convivium (viver em conjunto)”.(pg.28)
No convivium romano, ao contrário do grego, as mulheres podiam participar e usufruir tratava-se de uma excelente oportunidade em que o homem privado poderia exibir dentro do cenário de sua casa e de sua família suas realizações e conquistas, esses encontros sociais ao redor das mesas chegaram até a Inglaterra vitoriana na figura de seus jantares de gala, ainda com o mesmo propósito e importância como mecanismo social.
Na Antiguidade a refeição tinha um significado especial, não era apenas o alimento no sentido físico, mas sob o aspecto espiritual, algo de sagrado permeava esses encontros. Na Roma Antiga os banquetes sob a égide das divindades eram verdadeiros tributos aos deuses. Baco ou Dionísio, deus do vinho das era cultuado e em sua homenagem o vinho era utilizado nesses encontros, um presente divino, uma verdadeira benção que tinha a propriedade de mitigar as dores, provocar o sono e esquecer as mágoas, mas existia o preceito de que seu consumo deveria ser equilibrado, não era consumido sem adicionar água, essa era uma característica e distinguia o homem civilizado do bárbaro que o consumia em estado puro sem essa mistura. Essas festas, conhecidas como symposium se consumiam bebidas, mas não eram orgias.
Os alimentos também eram divididos entre aqueles provenientes do solo (vegetais, legumes e cereais) e as comidas derivadas dos animais, muitas vezes relacionadas ao sacrifício ritual. Gregos e romanos utilizavam bois, carneiros e porcos em sacrifícios públicos, por sua vez ovelhas e frangos eram abatidos e ofertados em cerimônias privadas. O consumo da carne do animal sacrificado possuía, portanto, um caráter espiritual e identificava os membros civilizados de uma comunidade. As tribos mais primitivas (germânicas), cuja dieta era feita predominantemente por carne de qualquer tipo, eram consideradas extremamente bárbaras pelos cidadãos romanos que realçavam o valor dos alimentos e seu preparo como vivências espirituais.
Na Idade Média reis e rainhas recebiam os cavaleiros e os viajantes convidando-os a participar das refeições e quando ali se reuniam em torno das távolas, divulgavam notícias de outros lugares, era a oportunidade de relatarem façanhas e aventuras, alianças e acordos passaram a ser decididos nesses encontros. O salão de festas onde isso acontecia passou a ser o local onde se celebravam as vitórias e os laços sociais eram consolidados. Mas a partir de agora nem o pão, nem qualquer tipo de alimento constituía o principal item das festas, o propósito principal passou a ser a bebida, portanto, a embriaguez era uma constante nesses encontros, o dever fundamental dos anfitriões era fornecer muita bebida aos seus convidados. A farta distribuição de bebidas, presentes e compromissos forjavam os vínculos sociais.
O cristianismo afetou a mesa profana de outra maneira. Nas escrituras da Bíblia encontram-se vários relatos em que comer em conjunto constitui uma profunda expressão de amor, comunhão e companheirismo. Assim como o sexo, a comida tornou-se sujeita a regras determinadas por Deus e, portanto, uma questão de conduta ética. (pg. 53)
Atualmente os horários das refeições foram adaptados aos novos horários de trabalho ou da televisão, que insiste em participar cada vez mais dos locais onde anteriormente a família fazia sossegadamente suas refeições. Muitos restaurantes também incorporaram esse ingrediente em seu cardápio e não somente o barulho, mas as imagens e as emoções se somam àquilo que se está comendo. Na verdade existe aqui uma atitude completamente antifisiológica que precisa ser observada com muito critério, principalmente se os espectadores são crianças que comem na frente da TV e nem se dão conta do que estão comendo (ou engolindo), tal o hipnotismo que se estabelece.
O café da manhã em família é algo que as rotinas sobrecarregadas acabaram por excluir do cotidiano das pessoas, todos têm seus horários e compromissos e ainda sonolentos e inapetentes cada um ao seu modo, vai cumprir sua tarefa e, novamente, uma grande oportunidade de encontro é desperdiçada. Durante o dia também não sobra muito tempo, uma parcela significativa da população urbana não tem o hábito de ir almoçar em casa, as opções mais óbvias são os fast-foods ou os restaurantes que vendem comida por quilo, as crianças também acompanham essa rotina e muitas delas comem nas cantinas das escolas, que nem por causa dessa localização deixam de oferecer as tradicionais bobagens que agradam e facilita o consumo de seus clientes. Passa-se o dia e à noite é preciso ter disposição para enfrentar a cozinha que passa a ser um local já pouco valorizado na maioria das casas, um lanche rápido ou uma comida congelada passa a ser uma boa opção depois de um dia exaustivo, de preferência assistindo à novela, ou a frente do computador. Esse hábito vai então se perpetuando e as pessoas acabam se acostumando a ter seus próprios ritmos e o ritmo familiar acaba não acontecendo.
As cozinhas modernas dispõem de diversos aparelhos que auxiliam muito a vida da dona de casa ou daquela que cumpre esse papel e prepara os alimentos para a família, enquanto a patroa trabalha fora, uma grande aquisição sem dúvida é o forno de micro ondas que, graças aos seus recursos tecnológicos, permite que os alimentos sejam rapidamente descongelados e preparados, aquecendo qualquer prato pronto que estiver à mão, sua praticidade permite por exemplo que diferentes pratos possam ser oferecidos sem demora e sem a necessidade de que todos precisem compartilhar da mesma opção do cardápio, trata-se em outras palavras de uma verdadeira democracia culinária, o pai pode comer uma lasanha, a mãe experimentar um risoto e o filho se deliciar com um espaguete, todos ficam satisfeitos pois experimentam exatamente aquilo que escolheram, não há surpresas, mas também não dividem, nem trocam a valiosa experiência de comerem todos o mesmo alimento.  Existe uma sutil armadilha nessa situação, essa facilidade inofensiva e muito útil isenta a desagradável tarefa de alguém ter de escolher aquilo que será servido, não se corre o risco de que alguém não fique satisfeito com a escolha do menu, cada um come o que gosta, como em um restaurante os pedidos são feitos e não compartilhados, ninguém na família precisará “dobrar-se” à tirania da mãe ou do pai como antes acontecia e que, simplesmente decidiam aquilo que a família iria comer, ou seja, um prato único para todos poderem sentir o mesmo gosto. Nos países mais avançados tecnologicamente e nessa fase mercadológica propicia que estamos vivendo no Brasil, é absolutamente possível a aquisição de um potente forno desse tipo ou mesmo um processador de alimentos, incluindo um grande objeto de desejo de muitas casas que é a fabulosa máquina de fazer pão, a facilidade de manuseio e praticidade desses aliados solucionam um grande problema do homem moderno, sua falta de tempo e como são muito eficazes trituram, processam, aquecem e preparam os alimentos com grande rapidez, economizam o tempo e as pessoas podem contar então justamente com mais tempo para fazerem, absolutamente nada com isso e o mais interessante é que para algumas desses privilegiados não seria sequer imaginável a vida sem um ajudante como esse em sua cozinha.   Não se trata de abandonar o avanço tecnológico que oferece tantos recursos e possibilidades, mas utilizá-los de uma maneira adequada. Quando se institui uma rotina alimentar desse tipo invertemos a revolução culinária que transformou a alimentação em um hábito sociável e ameaça nos fazer retroceder para uma fase de evolução pré-social.
Se a possibilidade de não contar com esses itens faz com que algumas pessoas sofram por antecipação, ironicamente uma grande parte da população não experimentou o benefício de seu auxílio quando crianças, mas sobreviveram sem isso, sociologicamente o perfil dos lares brasileiros também se modificou, a posição econômica do trabalhador felizmente também evoluiu sendo justo e digno que possa adquirir aquilo que bem entenda e suprir sua casa de tudo que o mercado oferece a ideia não é de nadar contra a corrente no sentido de desvalorizar os avanços obtidos e propor um retorno ao passado cozinhando a comida nos fogões de lenha e triturar os grãos no pilão, mas o que me parece contraproducente nessa aparente conquista é a escravização que isso nos condiciona, direcionando a todos nós a um caminho cada vez mais antinatural. Processar alimentos ou mesmo utilizar o forno para aquecê-los é sem dúvida algo extremamente prático e condizente com nossa pressa justificada, mas o aroma do pão assando no forno, o cheiro da comida envolvendo a cozinha estimulando nosso apetite e nos convidando a experimentar a comida adivinhando o que teremos na refeição, é subtraído através desse preparo, talvez absolutamente necessário nos dias de hoje, mas realmente desproporcional.
As crianças não brincam mais de casinha, fazendo “comidinhas” para suas bonecas e bichos de pelúcia, as ofertas também se modificaram, fogões e panelinhas de brinquedo são difíceis de encontrar, foram substituídos por foguetes, armas a laser, jogos eletrônicos e super-heróis.
Luís da Câmara Cascudo, fala sobre isso em seu livro História da Alimentação no Brasil “o ensino da Arte de Cozinha reduz-se à cozinha “artística” e essencialmente à doçaria. O trivial básico foi abandonado pela curiosidade das “fila-famílias” de alta e mediana sociedade. Aprender a cozinhar é dever das moças humildes e pobres, compelidas a papel de auxiliares maternas. A menina que cursa o ginásio liberta-se da penitência compulsória. Está estudando, e não cabe mais na cozinha doméstica. A rainha Vitória completou a educação das filhas fazendo-as aprender todos os pratos tradicionais da Inglaterra. A filha única do último imperador da Alemanha era cozinheira exímia. Cem por cento das donas e donzelas eram doceiras e não se atrapalhavam na improvisação de um almoço. Para a maioria presente fazer um café constitui problema, coá-lo certo, negro, perfumado, restaurador. Almoço de lata é comida e não refeição. Quando uma nossa senhorita faz curso culinário sabemos que o Brasil cotidiano está ausente da aprendizagem. Pratos russos, alemães, ingleses, suecos, são as constantes”. (pg.355)
OS CEREAIS E OS DIAS DA SEMANA
 
Todo metabolismo é incentivado pelos grãos de cereais. Para cada dia da semana um cereal específico deveria ser privilegiado, pois nesse dia determinada forças cósmicas e influências planetárias privilegiam que na ingestão desse cereal possamos também nos alimentar dessas forças nos beneficiando com isso.
TRIGO – domingo (sunday) – SOL – zona temperada.
ARROZ – segunda-feira (lunes, monday, lundi) – LUA – povo asiático – água – fleumático.
CEVADA – terça-feira (martes, tuesday, mardi) – MARTE – zona temperada.
PAINÇO – quarta-feira (miércoles, wednesday, mercredi) – MERCÚRIO – povo africano – ar – sanguíneo.
CENTEIO – quinta-feira (jueves, thursday, jeudi)  – JÚPITER – zona temperada.
AVEIA – sexta-feira (viernes, fryday, vendredi) – VÊNUS – povo europeu – fogo – colérico.
MILHO – sábado (saturday, samedi) – SATURNO – povo indígena – terra – melancólico.
  
COMPOSIÇÃO DOS CEREAIS
TRIGO (Triticum vulgare)
Para amadurecer necessita de luz e calor. Seu principal componente é o cálcio.
Composição: 100 gramas – 75% hidrato de carbono, 1% gordura, 10% proteína.
ARROZ (Oryza sativa)
A água permeia essa planta mais do que qualquer outro cereal. Não contém glúten.
Composição: 100 gramas – 75 a 80% hidrato de carbono, 1,5% gordura, 7 a 8% proteína.
CEVADA (Hordeum vulgare)
Este cereal tem baixo teor de proteínas, alto teor de amido e com intenso processo de silícea.
Composição: 100 gramas – 69% hidrato de carbono, 3% gordura, 12% proteína.
PAINÇO (Paniculum miliaceum)
Também chamado de “pequeno milho”, é um cereal rico em silícea e flúor, sendo útil na prevenção de cáries. Indicado em doenças da pele e dos olhos, fortifica também cabelos e unhas.
Composição: 100 gramas – 60% hidrato de carbono, 5% gordura, 10% proteína.
CENTEIO (Secale cereale)
Mais pesado e mais indigesto que o trigo, podendo ser amenizado com cominho, anis e sementes de coentro.
Composição: 100 gramas – 70% hidrato de carbono, 2% gordura, 11% proteína.
AVEIA (Avena sativa)
Cereal rico em hidratos de carbono e pobre em proteínas podendo ser complementada com leite, ajuda na desintoxicação acolhendo as toxinas do organismo. Seu principal componente é o magnésio.
Composição: 100 gramas – 67% hidrato de carbono, 6 a 7% gordura, 13% proteína.
MILHO (Zea mais)
É o mais terrestre dos cereais, seus produtos alimentares são pesados e endurecedores. Com uma menor porcentagem de proteínas a combinação com leite é ideal complementando a taxa proteica.
Composição: 100 gramas – 63% hidrato de carbono, 3,2% gordura, 8% proteína.

COMPARTILHANDO O PÃO

Em torno da mesa, toda família sentada, compartilhando e experimentando o mesmo prato pode cada um do seu modo, valorizar o prato servido (que cheiro bom, que gostoso que ficou...) ou até criticar (ficou muito salgado, o arroz está um pouco empapado...), em todo caso é preciso que todos provem do mesmo prato para poderem compartilhar a experiência de comer juntos, ou seja, de comungar. Esse ato primário e absolutamente humano é algo que deveríamos valorizar e estimular sempre que possível. Esse é o presente diário que podemos dar à criança que aprende uma série de lições nesse ato tão simples. Sentados à mesa, cada um em seu lugar, todos esperam para ser servidos e então passam a compartilhar do mesmo prato, experimentam o tempero, a apresentação dos pratos, quem sabe o cozinheiro possa contar algum segredo ou alguma história sobre aquela refeição (foi a vovó quem me ensinou a fazer essa comida, comia muito esse prato quando era criança...), é um bom momento para que a família possa colocar a conversa em dia, o pai fala sobre o seu dia, a mãe também relata as novidades, os irmãos contam sobre a escola e o que aprenderam e as crianças menores ouvem e “se alimentam” dessas histórias que nutrem a alma e o corpo. Mas e quando todos saem cedo para trabalhar? As crianças ficam na escola, ninguém tem tempo para preparar as refeições e acabam se alimentando de pratos congelados e lanches? Então é hora de mudar. Embora não seja fácil é simples assim, pelo menos deveria ser dessa forma encarado, algo precisa ser modificado. Hábitos vão sendo formados, ritmos vão sendo incorporados e o nosso corpo físico vai se adaptando. Quando a pressa diária vai impondo um descaso com a alimentação seria saudável que esse tempo dedicado às refeições fosse protegido, o que pode ser absolutamente viável, desde que os adultos se comprometam a respeitá-lo e as crianças seguindo esse exemplo também se beneficiam.
A ideia de que os vínculos são fortalecidos em torno da mesa, demonstra como esse encontro é necessário para as necessidades básicas influenciando decisivamente a nossa vida, enaltecendo o conceito que vincular significa antes de tudo relacionar-se, comer junto, portanto, é possibilitar a preservação desse elo. A criança sentada à mesa, próxima da família, começa a participar de seu convívio, ouve os relatos do dia-a-dia dos pais e dos irmãos, participa do mesmo gosto e sabor dos alimentos, vivencia junto com seus semelhantes à comunhão do mesmo pão. A imagem desse momento deveria também ser compartilhada e estimulada pelos adultos, afinal ao longo de seu desenvolvimento a criança aprende com seus cuidadores uma série de recursos cada vez mais elaborados, mas também regras simples de convívio e de grande valor pedagógico que farão parte de sua vida. Esperar até que todos sejam servidos, repartir o que foi oferecido, abrir mão do último pedaço para o outro que se encontra sentado ao seu lado, tem um valor inquestionável e que através de atos simples e rotineiros como as refeições em família poderiam estimular.
Sabe-se que nossa memória olfativa encontra-se associada a sensações agradáveis ou não pelo que passamos, existindo realmente uma relação que chegamos a experimentar quando reconhecemos um cheiro ou um gosto familiar que deflagra uma série de recordações. Como se ativássemos um lugar onde poderíamos nos refugiar no caso, uma espécie de porto seguro, quando experimentamos uma sensação agradável, por exemplo, ao se deparar com o cheiro de um bolo de fubá igual ao que era servido na nossa infância ou a xícara de chocolate ou café com leite que o nosso pai nos trazia todas às tardes, todos nós temos nossa rede de conexões e vinculadas à memória olfativa possibilitam um reencontro com algo que influencia inclusive o nosso humor. Mas essa rede também precisa ser criada, vinculando as emoções àquilo que é oferecido à criança. Experimentando as diversas variedades de comidas, repartindo com a criança aquilo que evoca em nossa alma determinados sabores ajuda a construir nela uma referência saudável com a comida, que não é apenas algo que precisa ser ingerido, mas, sobretudo que possa ser apreciado e ainda mais que isso, reverenciado.
Novamente é Câmara Cascudo quem profetiza “para mim um dos fatores negativos é a decadência nacional da refeição doméstica, o abandono dos pratos tradicionais no cardápio de certos grupos sociais mais fornecedores de rapazes e moças às universidades. Não é o alimento em si, na potência intrínseca de sua substância, a fonte isolada da força vital. São os elementos psicológicos decorrentes da refeição. Cada vez a menos refeição e cada vez mais comidas fáceis, encontráveis, vendidas nos botequins elegantes ou nas cantinas universitárias”. (pg. 350). E complementa “a função educadora do jantar é tão insubstituível quanto o poder modelador do ambiente familiar, sadio e normal. Se entenderem moderador, também está certo. As aulas divergem do horário caseiro e aos domingos há programas intransferíveis, incoincidentes com o almoço materno. Acaba-se perdendo a personalidade do paladar, sua fisionomia, exigências, predileções, simpatias. Habituam-se no nível vulgar da comida vulgar e venal, rápida, atendendo aos reclamos imediatos do estômago. Falta à mesa, à sacra mesa, como diziam os romanos, a ação catalítica daquela cerimônia tranquila que é uma refeição”. (pg.350)
 Sabe-se que o chocolate tem influência no humor porque o organismo carece de aminoácidos essenciais, que produzem neurotransmissores (anandamida, feniletilamina e triptofano), que possuem um efeito positivo no estado de humor, como acontece com o triptofano cuja ação serve como produto de base da serotonina, conhecido como “hormônio da felicidade”, a falta dessa molécula ou sua baixa produção tem sido associado a estados de depressão e quadros de ansiedade. Muitos estudos apontam para o fato de que quando comemos um pedaço de chocolate provocamos uma intensa sensação de bem-estar que influencia diretamente na esfera do humor, com uma sensação de prazer e com liberação de serotonina que é produzida no aparelho digestivo e cuja ação é rapidamente observada através da diminuição do stress e da própria expressão do rosto que se relaxa e acalma.
                    
 
 
PREPARANDO O PRÓPRIO ALIMENTO
 
Muitas pessoas falam, até com certo orgulho que “não tem a mínima vocação para a cozinha”, delegando essa tarefa a outra pessoa e talvez, aí vem o ponto em questão, dando a sensação que o preparo desse alimento é algo trivial que pode ser dispensado de maiores preocupações, mas isso é um engano. A autonomia do ser humano também deveria se ancorar na preparação daquilo com que se alimenta certamente que a rotina da vida cotidiana, sobretudo nos grandes centros impossibilita muita coisa, as refeições fora de casa nos “fast-foods e nas comidas vendidas a quilo” fazem parte de um considerável contingente de pessoas espalhadas pelas grandes cidades e chega a ser considerado um luxo aqueles que ainda se propõem a fazerem suas refeições em casa. Não se trata de contestar as atribulações da vida moderna e suas mazelas, mas de questionar a acomodação e a submissão que essa opção proporciona. Pensando nas crianças que saem de casa pela manhã e que, como todos, precisam almoçar quem prepara as suas refeições? Muitas mães hoje trabalham fora de casa, são profissionais capacitadas que tem seus empregos e seus compromissos, muitas vezes não disponibilizam de tempo para sentarem com seus filhos à mesa e participarem dessa refeição, delegam a tarefa a alguma colaboradora que exerce essa maternagem, que senão ideal ao menos possibilita a oportunidade da criança sentar à mesa de sua casa e comer uma comida preparada e oferecida por alguém que ela conhece, diferente do que acontece quando frequenta as praças de alimentação e as lanchonetes, no entanto, sempre que possível os pais deveriam se esforçar mais a compartilharem com os filhos esse momento precioso e não somente pelas crianças, mas por eles próprios, seria um extraordinário gesto salutogênico (promotor de saúde).
Nos finais de semana onde deveríamos nos dedicar mais às tarefas caseiras, arrumamos uma série de coisas para fazer e esse tempo precioso e aguardado parece escapar com os afazeres da casa, para os casais que trabalham fora esse merecido descanso pode ser muito curto, mas quem tem filhos, sobretudo crianças pequenas é uma excelente oportunidade para que se dediquem a observar justamente essas pequenas coisas que se privaram de ver durante a correria da semana. Com esse objetivo ir para a cozinha e preparar as refeições junto com os filhos é uma dessas tarefas que podem ser verdadeiros programas de família, desde que sejam voltados para essa função e com todo grau de paciência que isso exija. Pequenos gestos como esse fazem toda diferença é como que de certa forma ajudassem a colocar novamente “ordem na casa”. Ao preparar o café da manhã, deixar que a criança se arrisque em fazer alguma coisa gostosa para a mamãe ou para o papai, mostrar a ela como isso pode ser prazeroso, incentivar para que descubra os sabores e os aromas que os alimentos revelam é algo que não deveria ser desperdiçado. Isso precisa ser estimulado para que aconteça, a criança faz parte da família desde o início e crescendo seus vínculos nessa estrutura ficam cada vez mais fortes, portanto, sua participação como membro familiar começa com pequenos gestos e atitudes que os adultos lhe contemplam, por exemplo, na ajuda em arrumar a mesa, servir a comida e também no preparo dos alimentos. Saber que a irmã gosta de tomates e que o pai não dispensa o café após as refeições possibilita a essa criança a associação necessária e saudável dessas preferências com aqueles a quem ama e essas conexões e experiências começam a fazer parte de sua vida. Vamos construindo paulatinamente desde a infância a nossa rede vincular, experimentando o novo, nos acercando que estamos protegidos e ousadamente descobrindo novas sensações temos assegurado uma retaguarda familiar que nos oferece proteção e estimula nossa confiança. Comer juntos, em família é uma dessas práticas que precisam ser exercitadas e defendidas para nossa própria saúde mental.
 
SIMPLES ASSIM
Uma queixa bastante frequente das mães é sobre a inapetência de seus filhos, a criança não aceita as refeições que lhe são oferecidas para desespero das mães que, muitas vezes recorrem a todas as opções que dispõem geralmente ineficazes. Uma situação bastante comum é observar que em alguns desses casos o desenvolvimento pondero-estatural das crianças nem chega a ser tão grave, mas a relação da mãe com a criança está sim se encontra bem comprometida, principalmente no horário das refeições que se transforma em verdadeiro “campo de batalha”. Se não em todas as situações, mas certamente na sua imensa maioria o problema desse desajuste é que aquela mesma criança que quando bebê aceitava o leite da mãe e experimentava tudo que lhe era oferecido vem agora rejeitando a comida e ficando cada vez mais sem apetite gerando uma grande preocupação, sobretudo materna, que reclama, observando que o filho: está perdendo peso e ficando simplesmente “pele e osso”. A fome é um atributo inato dos animais e o ser humano também não é exceção, comemos para sobreviver, instintivamente procuramos comida para nos fortalecer, mas diferente dos animais o homem fica sem comer ou come demais e esse mecanismo natural de feedback (realimentação) acaba  adoecendo. O bebê que desde o início aprende a mamar em intervalos regulares, ou seja, o estomago esvazia e ele avisa a mãe através do choro que está com fome e esta lhe dá de mamar para saciar sua necessidade básica de sobrevivência, vai aos poucos tolerando mais a imediata prontidão com que esse alimento lhe é servido e crescendo vai experimentando outros sabores (frutas, legumes, hortaliças, cereais, outras fontes lácteas). São introduzidas as refeições pastosas, alimentos mais sólidos, o ritmo das refeições é instituído e a criança, quando tudo dá certo, experimenta a rotina da família e começa a fazer parte da mesa, compartilhando as refeições com todos de casa.
Uma tarefa simples, nem sempre é fácil de realizar. Para quem está de fora pode parecer óbvio que uma criança inapetente ou uma muito voraz encontra no seu ritmo desordenado a causa de seus problemas alimentares, mas e a família, como lida com esses desajustes? A mãe, geralmente tem uma preocupação muito diferente do pai em relação ao apetite das crianças, mais ligada a essa função mantenedora e com um olhar mais global, observa arestas que o olhar masculino do pai deixa escapar, ou então, chama para si a responsabilidade do apetite do filho, principalmente se for inapetente, sentindo-se geralmente culpada por essa situação e isso demanda uma nova abordagem, pois é preciso que essa família toda passe a comer bem, nem sempre sem dificuldades e com grandes desafios, mas dentro dessa premissa de que o problema deve ser enfrentado de uma maneira direta e que simplesmente algo precisa ser feito afim de que alguma coisa se modifique. Esse é o desafio.
 
  
JOGANDO CONVERSA DENTRO
 
Em torno da mesa, no meio dos amigos e familiares encontra-se o ambiente ideal para que possamos ficar à vontade e sem preocupações “jogar conversa fora”, mas evitando o desperdício, podemos pensar que essas conversas podem ter um significado muito mais interessante, alimentando mais do que somente o nosso corpo.
 
                                                                   BIBLIOGRAFIA

Burkhard K. G. in Novos Caminhos de Alimentação – quatro volumes – terceira edição – CLR Balieiro – São Paulo, 1984.
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 Strong R. in Banquete – uma história ilustrada da culinária, dos costumes e da fartura à mesa – tradução Sérgio Góes de Paula e Viviane DeLamare – Jorge Zahar Editor – Rio de janeiro, 2004.
Hirsch S. in Sem açúcar com afeto – como evitar um vício doce e mortal – segunda edição – Editora Rocco – Rio de Janeiro, 1984.
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Lobo R. in Panelinha: receitas que funcionam – quarta edição – Editora SENAC São Paulo, 2010.
Oliver J. in Jamie em casa – Cozinhe para ter uma vida melhor – tradução Leonardo Antunes – Editora Globo – São Paulo, 2008.
Oliver J. in Revolução na cozinha – Qualquer um pode aprender a cozinhar em 24 horas – tradução Leonardo Antunes – São Paulo, 2009.
Marcondes E. / coordenador in Crescimento Normal e Deficiente – Monografias Médicas: série Pediatria – volume I – segunda edição – Editora Sarvier – São Paulo, 1978.
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Marcondes E. e Lima N. I. / coordenadores in Dietas em Pediatria Clínica – Monografias Médicas: série Pediatria – volume XIII – Editora Sarvier – São Paulo, 1980.
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Pernetta C. in Alimentação da Criança – sétima edição – Fundo Editorial Byk-Procienx – São Paulo, 1979.
Steiner R.  in Temperamentos e Alimentação – Indicações médico-pedagógicas e aspectos gerais – Duas Conferências – Textos Escolhidos – tradução Bruno Callegaro e Jacira Cardoso – Editora Antroposófica – São Paulo, 1993.
Dr. José Carlos Neves Machado.
CRM/SP - 49481     
Pediatra
Formação em Homeopatia
Formação em Medicina Chinesa e Acupuntura
Formação em Antroposofia
Pós-graduação em Psicanálise da Criança (Instituto Sedes Sapientiae/SP)
Médico Escolar pela Seção Medica do Goetheannum (2013)
Vice-presidente da ABMA Nacional (1906/1910)
Presidente da ABMA regional São Paulo (1910/1912)
Médico Escolar Colégio Waldorf Micael – São Paulo/SP (1999/2009)
Palestrante em temas ligados à Antroposofia/Pedagogia/Desenvolvimento infantil/Parentalidade/Família em várias escolas e grupos de estudo no Brasil
Coordenador do curso de formação em Medicina Pedagógica do Brasil
Atendimento como médico escolar e consultor em escolas de SP/MT e BA.
Atendimento em consultório particular (pediatria e clínica médica) - Av. José Giorgi, 2401 – Granja Vianna – Cotia/SP.
Aprendiz de cozinheiro e apreciador de uma boa mesa reunindo os amigos e jogando conversa "pra dentro.
@antroposofiaemdia
BLOG – mediconaescola.blogspot.com.br
telefone – (11) 989270689.                                                                      
 
 
 
 
 
 
 
 
 






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