Pesquisar este blog

domingo, 15 de fevereiro de 2026

INCLUSÃO - Desafios da Contemporaneidade (artigo)





INCLUSÃO – Desafios da Contemporaneidade

 

Se determinados assuntos nos convocam a uma tomada de posição, a contemporaneidade nos oferece uma série de situações absolutamente inadiáveis e no ambiente escolar muitas delas surgem e querem respostas, exigindo posicionamentos  e, se na maioria delas, não atendemos a contento, pois também são novidade para nós, a grande demanda dessas questões decreta uma postura pedagógica terapêutica  que se torna cada vez mais imprescindível e nos convoca a refletirmos sobre situações que antes não seriam tema de conversa, mas que no entanto, atualmente, não devemos adiar e abrir espaço para perguntas que pais e alunos querem saber torna-se indispensável.

Se no início dessa trajetória (23 de abril de 1919, Stuttgard), a primeira escola Waldorf criada por Rudolf Steiner trazia em sua base algo que que ainda não existia naquela época, mas que era uma exigência daquele tempo: uma escola única de 12 séries, para todas as classes sociais, para crianças de ambos os sexos, que fosse acessível a qualquer pessoa, independente de classe social, ensino por épocas, apoio no dia-a-dia escolar e principalmente uma pedagogia não limitada por aspectos religiosos ou nacionais ou comprometida com eles, após 104 anos de seu início, o tempo e as exigências também se modificaram e novas inclusões se fazem necessárias.

Uma característica das escolas que promovem essa pedagogia é a inclusão. Portanto, o destino de muitas crianças com as mais diversas dificuldades, tanto de ordem física como cognitiva foram e continuam sendo acolhidas em nossas escolas que seguindo os preceitos de seu fundador auxilia a que essas possíveis limitações não venham a ser impeditivas a ponto de estigmatiza-las, ao contrário, sua tarefa é promover e ajuda-las a superarem essas limitações e que através de esforço e empenho consigam supera-las, atingindo suas metas possíveis, transformando destinos aparentemente frágeis em destinos reais e dignos.

Mas a inclusão não se restringe somente a esse acolhimento voltado àquelas que necessitam de cuidados especiais, com dificuldades de locomoção ou agravantes físicos, vai muito mais além e para que isso aconteça de fato, essa pedagogia, criteriosa e repleta de possibilidades, talvez possa ser atualizada justamente devido às novas demandas e poder responder satisfatoriamente aos novos desafios de nosso tempo. Não se trata de reinventar algo que já foi criado e que funciona muito bem, mas trazer novos ajustes que surgem e que não existiam anteriormente.

Como médico escolar trabalho em escola há mais de 25 anos e na minha experiência e de muitos professores que conheço, as dinâmicas familiares, os conflitos e os distúrbios comportamentais cresceram e muito. Para começar, os aparelhos eletrônicos (dentro e fora da escola) fazem parte da vida das crianças desde muito cedo, assim como os hábitos familiares, as relações homoafetivas, os ritmos, valores, posturas e posicionamentos dos pais que promovem e referendam atitudes de confronto e empoderamento. Situações que até recentemente eram mais raras, mas que hoje fazem parte da rotina dos professores e outras tantas que antes de causarem constrangimento ou alienação deveriam nos estimular a procurar respostas ou provocar discussões e debates. Desse modo o papel pedagógico terapêutico poderá efetivamente se atualizar.

Claro que a pedagogia oferece recursos para muitos casos, embora considere importante que tenhamos em mente que o volume desses problemas vem crescendo vertiginosamente e associado a isso outras crises que muitos sequer imaginavam hoje nos confrontam, fazendo parte de nossas escolas. Casos de suicídio entre jovens, quadros depressivos graves, distúrbios alimentares (bulimia, anorexia), questionamentos sobre sexualidade, racismo e intolerância religiosa e social, aumentam as estatísticas e se encontram presentes em quase toda escola, independente da pedagogia adotada, São questões estão no mundo e nossa tarefa também é ajudar as crianças a agirem e estarem preparadas para esse mundo que vivemos, cabe a nós, professores, médicos, terapeutas e pais, incluir esses conflitos em nossa lista de desafios e isso a meu ver se torna cada vez mais premente e necessário.

Não se trata aqui de invalidar o que a pedagogia oferece como elemento curativo, mas sim de trazer a incomoda e inadiável sensação de que esse manto protetor que julgávamos impenetrável precisa ser revisto.

Inclusão quer dizer também acolhimento, aceitação. Se não temos dúvidas a respeito de incluir, por exemplo, uma criança pertencente ao espectro autista, ou um cadeirante, facilitando seu entrosamento dentro da classe, acolhendo e ajudando a que supere suas limitações, essa mesma compaixão também deve acontecer ao incluir outras diversidades e termos, verdadeiramente, a mesma dignidade em receber um aluno que se revela inconformado com sua sexualidade ou com sua cor de pele, identidade social, etc. alegando discriminação e preconceito por parte dos colegas e outras pessoas dentro da escola. Assim como muitos pais que chegam até nós sem conhecer a metodologia, mas ficam encantados com os espaços e as salas de aula e projetam ali a escola que eles próprios gostariam de ter e julgam que seus filhos terão a mesma opinião. Precisamos ter um olhar de acolhimento para eles, incluindo-os também na dinâmica e naquilo que uma escola associativa e humanística propõe, para que suas expectativas não sejam totalmente desfeitas no futuro. Isso é inclusão. Incluir não é o mesmo que tolerar.

 Incluir esse sujeito diferente de nós, refere acima de tudo aceitar, ou pelo menos, não rechaçar que suas opiniões, hábitos e posturas sejam erradas, mesmo quando são completamente díspares à nossa forma de pensar. O desenvolvimento está justamente na constatação de como precisamos pensar mais a respeito daquilo que é antagônico e porque razão aquilo que esse sujeito apresenta agride e promove em nós tanto preconceito e raiva.

 Enquanto não trabalharmos dentro de nós esse posicionamento, o sentido de acolhimento através do qual o eu alheio tem o mesmo valor que o nosso próprio eu, a inclusão não terá a verdadeira resolução, será mais uma palavra isenta de conteúdo, vazia de significado. Incluir, antes de mais nada é aceitar o outro como ele é e tentar disponibilizar atitudes, escuta e ajuda para garantir minimamente, um espaço digno dessa pessoa no meio de nós.

Agindo dessa maneira o maior beneficio será que poderemos nos tornar mais humanos e essa qualidade parece ser o ponto de partida para os novos desafios que a atualidade nos revela: todos nós temos o nosso lugar nesse mundo, independente de credo, cor da pele, opção sexual, posicionamento político ou filosófico.

 

Dr. José Carlos Neves Machado

Médico Escolar






Médico na Escola Dr José Carlos Machado www.mediconaescola.com Acompanhe também nosso canal no You Tube! https://www.youtube.com/user/medicinaescolar e no instagram: @antroposofiaemdia

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Médico na Escola
Dr José Carlos Machado
www.mediconaescola.com

Acompanhe tampem nosso canal no You Tube! https://www.youtube.com/user/medicinaescolar