INCLUSÃO – Desafios da
Contemporaneidade
Se
determinados assuntos nos convocam a uma tomada de posição, a contemporaneidade
nos oferece uma série de situações absolutamente inadiáveis e no ambiente
escolar muitas delas surgem e querem respostas, exigindo posicionamentos e, se na maioria delas, não atendemos a
contento, pois também são novidade para nós, a grande demanda dessas questões decreta
uma postura pedagógica terapêutica que
se torna cada vez mais imprescindível e nos convoca a refletirmos sobre
situações que antes não seriam tema de conversa, mas que no entanto, atualmente,
não devemos adiar e abrir espaço para perguntas que pais e alunos querem saber
torna-se indispensável.
Se no início
dessa trajetória (23 de abril de 1919, Stuttgard), a primeira escola Waldorf
criada por Rudolf Steiner trazia em sua base algo que que ainda não existia
naquela época, mas que era uma exigência daquele tempo: uma escola única de 12
séries, para todas as classes sociais, para crianças de ambos os sexos, que
fosse acessível a qualquer pessoa, independente de classe social, ensino por
épocas, apoio no dia-a-dia escolar e principalmente uma pedagogia não limitada
por aspectos religiosos ou nacionais ou comprometida com eles, após 104 anos de
seu início, o tempo e as exigências também se modificaram e novas inclusões se
fazem necessárias.
Uma
característica das escolas que promovem essa pedagogia é a inclusão. Portanto,
o destino de muitas crianças com as mais diversas dificuldades, tanto de ordem
física como cognitiva foram e continuam sendo acolhidas em nossas escolas que
seguindo os preceitos de seu fundador auxilia a que essas possíveis limitações
não venham a ser impeditivas a ponto de estigmatiza-las, ao contrário, sua
tarefa é promover e ajuda-las a superarem essas limitações e que através de
esforço e empenho consigam supera-las, atingindo suas metas possíveis,
transformando destinos aparentemente frágeis em destinos reais e dignos.
Mas a inclusão
não se restringe somente a esse acolhimento voltado àquelas que necessitam de
cuidados especiais, com dificuldades de locomoção ou agravantes físicos, vai
muito mais além e para que isso aconteça de fato, essa pedagogia, criteriosa e repleta
de possibilidades, talvez possa ser atualizada justamente devido às novas
demandas e poder responder satisfatoriamente aos novos desafios de nosso tempo.
Não se trata de reinventar algo que já foi criado e que funciona muito bem, mas
trazer novos ajustes que surgem e que não existiam anteriormente.
Como médico
escolar trabalho em escola há mais de 25 anos e na minha experiência e de
muitos professores que conheço, as dinâmicas familiares, os conflitos e os
distúrbios comportamentais cresceram e muito. Para começar, os aparelhos
eletrônicos (dentro e fora da escola) fazem parte da vida das crianças desde
muito cedo, assim como os hábitos familiares, as relações homoafetivas, os
ritmos, valores, posturas e posicionamentos dos pais que promovem e referendam
atitudes de confronto e empoderamento. Situações que até recentemente eram mais
raras, mas que hoje fazem parte da rotina dos professores e outras tantas que
antes de causarem constrangimento ou alienação deveriam nos estimular a
procurar respostas ou provocar discussões e debates. Desse modo o papel
pedagógico terapêutico poderá efetivamente se atualizar.
Claro que a
pedagogia oferece recursos para muitos casos, embora considere importante que
tenhamos em mente que o volume desses problemas vem crescendo vertiginosamente
e associado a isso outras crises que muitos sequer imaginavam hoje nos confrontam,
fazendo parte de nossas escolas. Casos de suicídio entre jovens, quadros
depressivos graves, distúrbios alimentares (bulimia, anorexia), questionamentos
sobre sexualidade, racismo e intolerância religiosa e social, aumentam as
estatísticas e se encontram presentes em quase toda escola, independente da
pedagogia adotada, São questões estão no mundo e nossa tarefa também é ajudar
as crianças a agirem e estarem preparadas para esse mundo que vivemos, cabe a
nós, professores, médicos, terapeutas e pais, incluir esses conflitos em nossa
lista de desafios e isso a meu ver se torna cada vez mais premente e
necessário.
Não se trata
aqui de invalidar o que a pedagogia oferece como elemento curativo, mas sim de
trazer a incomoda e inadiável sensação de que esse manto protetor que
julgávamos impenetrável precisa ser revisto.
Inclusão quer
dizer também acolhimento, aceitação. Se não temos dúvidas a respeito de incluir,
por exemplo, uma criança pertencente ao espectro autista, ou um cadeirante, facilitando
seu entrosamento dentro da classe, acolhendo e ajudando a que supere suas
limitações, essa mesma compaixão também deve acontecer ao incluir outras
diversidades e termos, verdadeiramente, a mesma dignidade em receber um aluno
que se revela inconformado com sua sexualidade ou com sua cor de pele,
identidade social, etc. alegando discriminação e preconceito por parte dos
colegas e outras pessoas dentro da escola. Assim como muitos pais que chegam até
nós sem conhecer a metodologia, mas ficam encantados com os espaços e as salas
de aula e projetam ali a escola que eles próprios gostariam de ter e julgam que
seus filhos terão a mesma opinião. Precisamos ter um olhar de acolhimento para
eles, incluindo-os também na dinâmica e naquilo que uma escola associativa e
humanística propõe, para que suas expectativas não sejam totalmente desfeitas
no futuro. Isso é inclusão. Incluir não é o mesmo que tolerar.
Incluir esse sujeito diferente de nós, refere
acima de tudo aceitar, ou pelo menos, não rechaçar que suas opiniões, hábitos e
posturas sejam erradas, mesmo quando são completamente díspares à nossa forma
de pensar. O desenvolvimento está justamente na constatação de como precisamos
pensar mais a respeito daquilo que é antagônico e porque razão aquilo que esse
sujeito apresenta agride e promove em nós tanto preconceito e raiva.
Enquanto não trabalharmos dentro de nós esse
posicionamento, o sentido de acolhimento através do qual o eu alheio tem o
mesmo valor que o nosso próprio eu, a inclusão não terá a verdadeira resolução,
será mais uma palavra isenta de conteúdo, vazia de significado. Incluir, antes
de mais nada é aceitar o outro como ele é e tentar disponibilizar atitudes,
escuta e ajuda para garantir minimamente, um espaço digno dessa pessoa no meio
de nós.
Agindo dessa
maneira o maior beneficio será que poderemos nos tornar mais humanos e essa
qualidade parece ser o ponto de partida para os novos desafios que a atualidade
nos revela: todos nós temos o nosso lugar nesse mundo, independente de credo,
cor da pele, opção sexual, posicionamento político ou filosófico.
Dr.
José Carlos Neves Machado
Médico
Escolar


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Médico na Escola
Dr José Carlos Machado
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