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segunda-feira, 19 de agosto de 2013

OS MÚSICOS DE BREMEN - conto infantil

 
 
OS MÚSICOS DE BREMEN
Irmãos Grimm.


Era uma vez um burro que tinha trabalhado durante muitos anos para o seu dono, acartando sacos de milho. Com o tempo, foi perdendo as forças e acabou por não conseguir trabalhar como antigamente. ...
Então, o dono resolveu cortar-lhe a ração. Vendo que dessa decisão não viria nada de bom para si, o Burro fugiu e pôs-se a caminho da cidade de Bremen.
- Em Bremen posso tornar-me músico – pensava ele enquanto caminhava.
Ainda mal tinha começado a jornada quando encontrou, à beira da estrada, um cão de caça que respirava sem fôlego como se tivesse acabado de correr muito.
- Por que respiras assim com tanta dificuldade? – Perguntou o Burro.
- Ah, sabes lá! Como estou velho e cada dia que passa me sinto mais fraco, já não posso caçar. O meu dono queria matar-me, mas eu fugi a sete pés. Mas, agora, o que vai ser de mim? – Queixou-se o Cão.
- Por que não vens comigo para Bremen? – Perguntou o Burro. - Vou tornar-me músico da cidade e tocar alaúde. Tu podias tocar tambor…
O Cão concordou e meteram-se ambos ao caminho.
Andaram algum tempo até que encontraram um Gato que estava muito, muito triste.
- O que te aconteceu, meu caça-ratos? – Perguntou o Burro.
- Quem é que se pode sentir feliz quando tem a vida em risco? – Queixou-se o Gato –
Como estou velho e prefiro enroscar-me à lareira em vez de caçar ratos como antigamente, a minha dona quis afogar-me e eu fugi. Mas, agora, o que será de mim?
- Vem conosco para Bremen – convidou o Burro. – Podes ser um músico como nós e tocar nos concertos noturnos.
O Gato concordou e foi com eles.
Pelo caminho passaram por uma quinta e viram um Galo empoleirado na cancela.
Cantava a plenos pulmões.
- Por que te esganiças tanto? – Quis saber o Burro.
- Amanhã é Domingo - explicou o Galo - e a minha dona tem convidados. Mandou a cozinheira cortar-me o pescoço logo à noite e meter-me na panela. Por isso, canto enquanto posso.
- É melhor vires conosco, Galo vaidoso - convidou o Burro - tens uma bela voz e juntos faremos um belo quarteto.
O Galo concordou e partiu com os outros.
Como não podiam chegar a Bremen nesse dia, resolveram passar a noite numa floresta.
O Burro e o Cão deitaram-se debaixo de uma árvore e o Gato e o Galo aninharam-se nos seus ramos. O Galo escolheu um dos ramos do topo da árvore porque aí se sentia mais seguro. Antes de adormecer, olhou em volta e viu ao longe uma luz a brilhar na escuridão. Chamou os colegas e disse-lhes que, naquela direção, havia com certeza uma casa.
- Vamos até lá – propôs o Burro. – Aqui não estamos lá muito bem instalados.
Todos concordaram e puseram-se a caminho. Acabaram por chegar a uma velha casa de onde saía uma luz muito viva.
Como o Burro era o mais alto, foi ele quem espreitou primeiro.
- O que vês? – Perguntou o Cão.
- Vejo uma mesa repleta de iguarias e quatro salteadores que se estão a banquetear à farta – respondeu o Burro.
- Essa comida é que vinha mesmo a calhar – disse o Galo.
- Ah, se ao menos pudéssemos lá entrar… - acrescentou o Burro, cheio de fome.
Conversaram durante algum tempo e, por fim, os quatro amigos tiveram uma ideia para expulsar os salteadores.
O Burro apoiou as patas dianteiras no parapeito da janela, o Cão saltou para cima dele, o Gato saltou para cima do Cão e o Galo voou para cima do Gato. Depois, começaram a fazer barulho, cada um à sua maneira: o Burro zurrou, o Cão ladrou, o Gato miou e o Galo cantou. Enquanto faziam este concerto, saltaram através da janela, partindo os vidros em mil bocados. Os salteadores pensaram que se tratava de um fantasma horrível
e fugiram a sete pés, rumo à floresta.
Muito satisfeitos, os quatro amigos sentaram-se à mesa e comeram tranquilamente até se fartarem. Depois, apagaram as velas e prepararam-se para dormir. O Burro deitou-se num fardo de palha que havia no pátio, o cão deitou-se atrás da porta das traseiras, o Gato enroscou-se junto das brasas da lareira e o Galo empoleirou-se numa das traves do teto da casa. Como estavam muito cansados adormeceram num instante.
Por volta da meia-noite os salteadores voltaram. Estava tudo às escuras e não se ouvia barulho nenhum.
- Não nos devíamos ter assustado tanto – disse o chefe.
E mandou um dos seus homens à frente para examinar a casa.
O bandido entrou e dirigiu-se à lareira para acender uma vela. Os olhos do Gato luziam no escuro e o bandido pensou que eram duas brasas. Aproximou um fósforo do focinho do Gato para o acender. O Gato não gostou da brincadeira e saltou-lhe para a cara, arranhando-a muito, enquanto miava e soprava. O bandido ficou aterrorizado! Quis fugir pela porta das traseiras, mas o Cão atirou-se a ele e ferrou-lhe uma valente dentada na perna. Cada vez mais aterrorizado, o homem lançou-se a correr pelo pátio, passando perto do Burro que lhe deu dois valentes coices. Nisto, o Galo acordou em sobressalto e pôs-se a cantar:
- Có-có-ró-có-có! Có-có-ró-có-có!
O bandido fugiu o mais depressa que pode. Quando chegou perto dos outros, gritou apavorado:
- Estamos perdidos! Está uma bruxa horrorosa sentada à lareira. Cuspiu-me e arranhou-me a cara com as suas unhas enormes. Junto à porta está um homem que me esfaqueou a perna. No pátio está um monstro que me bateu com um cacete. Em cima do telhado está o chefe deles todos que gritou: "Corre senão comes! Corre senão comes!" Foi o que fiz, para não apanhar mais.
Os salteadores nunca mais se atreveram a voltar àquela casa.
Quanto aos quatro músicos de Bremen, sentiram-se tão bem por lá que resolveram nunca mais sair… e, quanto a mim, ainda lá devem estar!
 
 
 
 
 
 
 
 

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

A PRINCESA E A ERVILHA - conto infantil




A PRINCESA E A ERVILHA
Hans Christian Andersen

Era uma vez um príncipe que queria desposar uma princesa, mas ele estava em busca de uma princesa verdadeira. Assim, deu a volta ao mundo na esperança de encontrar uma, e, na realidade, não faltavam princesas, muitas ele encontrou em sua jornada: o que ele nunca podia assegurar era que se tratasse de verdadeiras princesas; havia sempre algo nelas que lhe parecia suspeito. Por consequência, regressou, muito deprimido, por não ter encontrado aquilo que desejava.
Uma noite, fazia um tempo horrível, os raios entrecruzavam-se no céu escuro, o trovão ribombava, chovia a cântaros, uma noite assustadora. No meio desse temporal, alguém bateu à porta do palácio e o velho rei apressou-se a mandar abrir.
Era uma moça pedindo guarida e dizendo-se ser uma princesa que foi surpreendida com aquele temporal enquanto voltava ao castelo de seu pai, mas, santo Deus, em que estado a chuva e a tempestade a haviam posto! A água escorria dos seus cabelos e das suas roupas, entrava-lhe pela biqueira dos sapatos e voltava a sair pelos saltos. Todavia, afirmou ser uma verdadeira princesa.
- Isso é o que iremos ver!- pensou a velha rainha, permitindo que passasse a noite no palácio. enquanto providenciou roupas secas para a moça, depois, sem dizer nada, entrou no quarto de dormir, tirou os lençóis e os colchões e colocou no fundo da cama um grão de ervilha. Em seguida, pegou vinte colchões de penas de ganso e estendeu-os sobre a ervilha e sobre os quais empilhou ainda vinte cobertas.
Era realmente a cama destinada à uma verdadeira princesa. No dia seguinte, pela manhã a rainha perguntou-lhe como passara ela aquela noite.
- Muito mal!- respondeu a moça abatida. – Mal consegui fechar os olhos durante toda a noite! Deus sabe o que tinha na cama; era algo muito duro que me pôs a pele toda roxa e não me deixou dormir. Que suplício!
A esta resposta, todos reconheceram que se tratava de uma verdadeira princesa, pois sentira uma ervilha através de vinte colchões e de vinte cobertas. Que mulher, a não ser uma princesa, poderia ter uma pele assim tão delicada?
O príncipe, completamente convencido de que aquela moça era de fato uma verdadeira princesa, tomou-a como esposa e a ervilha foi posta no museu, onde deve encontrar-se ainda por lá, a não ser que um colecionador a tenha roubado.
E aqui está uma história tão verdadeira como a princesa!

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

O SOLDADINHO DE CHUMBO - conto










                                          



O SOLDADINHO DE CHUMBO
Hans Christian Andersen


Em uma loja de brinquedos havia uma caixa de papelão com vinte e cinco soldadinhos de chumbo, todos iguaizinhos, pois haviam sido feitos com o mesmo molde e do mesmo material. Apenas um deles tinha um defeito, pois tinha uma perna só, já que fora o último a ser fundido, faltou chumbo para completar a sua outra perna, mas o soldadinho perneta logo aprendeu a ficar de pé sobre sua única perna e não fazia feio ao lado dos irmãos, mantendo a mesma postura ereta e garbosa.
Esses soldadinhos de chumbo eram muito bonitos e elegantes, cada qual com seu fuzil ao ombro, a túnica escarlate, calça azul e uma bela pluma no chapéu. Além disso, tinham feições de soldados corajosos e cumpridores do dever.
Os valorosos soldadinhos de chumbo aguardavam o momento em que passariam a pertencer a algum menino, esse era o sonho de todo brinquedo e esperavam ansiosos por isso.
Chegou o dia em que a caixa foi dada de presente de aniversário a um garoto. Foi o presente de que ele mais gostou: 
— Que lindos soldadinhos! — exclamou maravilhado. 
E os colocou enfileirados sobre a mesa, ao lado dos outros brinquedos. O soldadinho de uma perna só era o último da fileira, mas não deixava de demonstrar toda sua valentia ao lado dos irmãos de farda. 
Ao lado do pelotão de chumbo se erguia um lindo castelo de papelão, um bosque de árvores verdinhas e, em frente, havia um pequeno lago feito de um pedaço de espelho. 

A maior beleza, porém, era uma jovem que estava em pé na porta do castelo. Ela também era de papel, mas vestia uma saia de tule bem franzida e uma blusa bem justa. Seu lindo rostinho era emoldurado por longos cabelos negros, presos por uma tiara enfeitada com uma pequenina pedra azul. 
A atraente jovem era uma bailarina, por isso mantinha os braços erguidos em arco sobre a cabeça. Com uma das pernas dobrada para trás, tão dobrada, mas tão dobrada, que acabava escondida pela saia de tule. 
O soldadinho a olhou longamente e logo se apaixonou, e pensando que, tal como ele, aquela jovem tão linda tivesse uma perna só. 
“Mas é claro que ela não vai me querer para marido”, pensou entristecido o soldadinho, suspirando. 
“Tão elegante, tão bonita… Deve ser uma princesa. E eu? Nem cabo sou, vivo numa caixa de papelão, junto com meus vinte e quatro irmãos e além de tudo sou perneta”. 
À noite, antes de deitar, o menino guardou os soldadinhos na caixa, mas não percebeu que aquele de uma perna só caíra atrás de uma grande cigarreira. 
Quando os ponteiros do relógio marcaram meia-noite, todos os brinquedos se animaram e começaram a aprontar mil e uma. Uma enorme bagunça! 

As bonecas organizaram um baile, enquanto o giz da lousa desenhava bonequinhos nas paredes. Os soldadinhos de chumbo, fechados na caixa, golpeavam a tampa para sair e participar da festa, mas continuavam prisioneiros. 

Mas o soldadinho de uma perna só e a bailarina não saíram do lugar em que haviam sido colocados. 
Ele não conseguia parar de olhar aquela maravilhosa criatura. Queria ao menos tentar conhecê-la, para ficarem amigos. 
De repente, se ergueu da cigarreira um homenzinho muito mal-encarado. Era um gênio ruim, que só vivia pensando em maldades. 
Assim que ele apareceu, todos os brinquedos pararam amedrontados, pois já sabiam de quem se tratava. 
O gênio malvado olhou a sua volta e viu o soldadinho, deitado atrás da cigarreira. 
— Ei, você aí, por que não está na caixa, com seus irmãos? — gritou o monstrinho. 
Fingindo não escutar, o soldadinho continuou imóvel, sem desviar os olhos da bailarina. 



— Amanhã vou dar um jeito em você, você vai ver! - gritou o gênio enfezado. 

Depois disso, pulou de cabeça na cigarreira, levantando uma nuvem que fez todos espirrarem. 
Na manhã seguinte, o menino tirou os soldadinhos de chumbo da caixa, recolheu aquele de uma perna só, que estava caído atrás da cigarreira, e os arrumou perto da janela. 
O soldadinho de uma perna só, como de costume, era o último da fila. 
De repente, a janela se abriu, batendo fortemente as venezianas. Teria sido o vento, ou aquele malvado, havia colaborado com isso? 
E o pobre soldadinho caiu de cabeça na rua. 
O menino viu quando o brinquedo caiu pela janela e foi correndo procurá-lo na rua. Mas não o encontrou. Logo se consolou: afinal, tinha ainda os outros soldadinhos, e todos com duas pernas. 
Para piorar a situação, caiu um verdadeiro temporal. 
Quando a tempestade foi cessando, e o céu limpou um pouco, chegaram dois moleques. Eles se divertiam, pisando com os pés descalços nas poças de água. 
Um deles viu o soldadinho de chumbo e exclamou: 
— Olhe! Um soldadinho! Será que alguém jogou fora porque ele está quebrado? 
— É, está um pouco amassado. Deve ter vindo com a enxurrada. 
— Não, ele está só um pouco sujo. 
— O que nós vamos fazer com um soldadinho só? Precisaríamos pelo menos meia dúzia, para organizar uma batalha. 
— Sabe de uma coisa? — Disse o primeiro garoto. —Vamos colocá-lo num barco e mandá-lo dar a volta ao mundo. 
E assim foi. Construíram um barquinho com uma folha de jornal, colocaram o soldadinho dentro dele e soltaram o barco para navegar na água que corria pela sarjeta. 
Apoiado em sua única perna, com o fuzil ao ombro, o soldadinho de chumbo procurava manter o equilíbrio. 
O barquinho dava saltos e esbarrões na água lamacenta, acompanhado pelos olhares dos dois moleques que, entusiasmados com a nova brincadeira, corriam pela calçada ao lado. 
Lá pelas tantas, o barquinho foi jogado para dentro de um bueiro e continuou seu caminho, agora subterrâneo, em uma imensa escuridão. Com o coração batendo fortemente, o soldadinho voltava todos seus pensamentos para a bailarina, que talvez nunca mais pudesse ver. 
De repente, viu chegar em sua direção um enorme rato de esgoto, olhos fosforescente e um horrível rabo fino e comprido, que foi logo perguntando: 
— Você tem autorização para navegar? Então? Ande, mostre-a logo, sem discutir. 
O soldadinho não respondeu, e o barquinho continuou seu incerto caminho, arrastado pela correnteza. Os gritos do rato do esgoto exigindo a autorização foram ficando cada vez mais distantes. 
Enfim, o soldadinho viu ao longe uma luz, e respirou aliviado; aquela viagem no escuro não o agradava nem um pouco. Mal sabia ele que, infelizmente, seus problemas não haviam acabado. 
A água do esgoto chegara a um rio, com um grande salto; rapidamente, as águas agitadas viraram o frágil barquinho de papel. 
O barquinho virou, e o soldadinho de chumbo afundou. 
Mal tinha chegado ao fundo, apareceu um enorme peixe que, abrindo a boca, engoliu-o. 
O soldadinho se viu novamente numa imensa escuridão, espremido no estômago do peixe. E não deixava de pensar em sua amada: “O que estará fazendo agora sua linda bailarina? Será que ainda se lembra de mim?”. 
E, se não fosse tão destemido, teria chorado lágrimas de chumbo, pois seu coração sofria de paixão. 
Passou-se muito tempo — quem poderia dizer quanto? 
E, de repente, a escuridão desapareceu e ele ouviu quando falavam: 
— Olhe! O soldadinho de chumbo que caiu da janela! 
Sabem o que aconteceu? O peixe havia sido fisgado por um pescador, levado ao mercado e vendido a uma cozinheira. E, por cúmulo da coincidência, não era qualquer cozinheira, mas sim a que trabalhava na casa do menino que ganhara o soldadinho no aniversário. 
Ao limpar o peixe, a cozinheira encontrara dentro dele o soldadinho, do qual se lembrava muito bem, por causa daquela única perna. 
Levou-o para o garotinho, que fez a maior festa ao revê-lo. Lavou-o com água e sabão, para tirar o fedor de peixe, e endireitou a ponta do fuzil, que amassara um pouco durante aquela aventura. 
Limpinho e lustroso, o soldadinho foi colocado sobre a mesma mesa em que estava antes de voar pela janela. Nada estava mudado. O castelo de papel, o pequeno bosque de árvores muito verdes, o lago reluzente feito de espelho. E, na porta do castelo, lá estava ela, a bailarina: sobre uma perna só, com os braços erguidos acima da cabeça, mais bela do que nunca. 
O soldadinho olhou para a bailarina, ainda mais apaixonado, ela olhou para ele, mas não trocaram palavra alguma. Ele desejava conversar, mas não ousava. Sentia-se feliz apenas por estar novamente perto dela e poder amá-la. 
Se pudesse, ele contaria toda sua aventura; com certeza a linda bailarina iria apreciar sua coragem. Quem sabe, até se casaria com ele…
Enquanto o soldadinho pensava em tudo isso, o garotinho brincava tranqüilo com o pião. 
De repente como foi, como não foi, isso não se sabe ao certo, talvez seja o caso de se pensar se o gênio ruim da cigarreira não tenha colaborado, metendo o seu nariz onde não fora convidado, mas aconteceu de que o garotinho agarrou o soldadinho de chumbo e atirou-o na lareira, onde o fogo ardia intensamente. 
O pobre soldadinho viu a luz intensa e sentiu um forte calor. A única perna estava amolecendo e a ponta do fuzil envergava para o lado. As belas cores do uniforme, o vermelho escarlate da túnica e o azul da calça perdiam suas tonalidades. 
O soldadinho lançou um último olhar para a bailarina, que retribuiu com silêncio e tristeza. Ele sentiu então que seu coração de chumbo começava a derreter — não só pelo calor, mas principalmente pelo amor que ardia nele. 
Naquele momento, a porta escancarou-se com violência, e uma rajada de vento fez voar a bailarina de papel diretamente para a lareira, bem junto ao soldadinho. Bastou uma labareda e ela desapareceu. O soldadinho também se dissolveu completamente. 
No dia seguinte. a arrumadeira, ao limpar a lareira, encontrou no meio das cinzas um pequenino coração de chumbo: era tudo que restara do soldadinho, fiel até o último instante ao seu grande amor pela bailarina. 
Da pequena bailarina de papel só restou a minúscula pedra azul da tiara, que antes brilhava em seus longos cabelos negros.


O PESCADOR E SUA MULHER - conto


O PESCADOR E SUA MULHER
Irmãos Grimm

Era uma vez um pescador que vivia com sua mulher em um barraco imundo perto do mar. Todos os dias o pescador ia pescar, e pescava, e pescava. Uma vez ele estava sentado pescando e olhando para as águas limpas. Então seu anzol foi até o fundo, bem fundo, e e quando ele o puxou e quando levantou a linha viu que tinha pescado um grande linguado.
Então o linguado falou a ele: - “Escute, pescador, eu imploro que me deixe viver. Eu não sou um linguado comum, mas sim um príncipe encantado. O que você irá ganhar me matando? Eu não tenho um gosto muito bom. Ponha-me de volta na água, e deixe-me nadar.”
- "Pois Bem,” disse o homem; - “Não precisa dizer mais nada. Eu certamente deixaria ir um peixe que sabe falar.”
Com isto ele colocou o peixe novamente na água, e o linguado desapareceu para o fundo, deixando uma longa trilha de sangue atrás dele e o pescador continuou lá pensando em tudo o que havia ocorrido, mas durante o resto do dia não conseguiu pescar mais nada, então ele se levantou e retornou para sua esposa em seu barraco imundo.
- “Homem” disse a mulher, - “Você não conseguiu pescar nada hoje?”
- “Não" disse o homem. - “Eu fisguei somente um linguado, mas ele me disse que era um príncipe encantado, então eu o deixei ir.”
- “E você não pediu nada para ele antes de soltá-lo?” perguntou a mulher.
- “Não” disse o homem. - “O que deveria ter pedido?”
- “Oh!” disse a mulher. -"Como pode ser tão tolo, é horrível viver neste barraco. Ele fede e é nojento. Você deveria ter pedido para ele nos dar uma casa melhor. Volte até lá e o chame novamente. Diga a ele que queremos ter uma pequena casa. Provavelmente ele nos dará.”
- “Mas não entendo” disse o homem.- “Por que deveria voltar lá?”
- “Preste bem atenção” disse a mulher; - "Você o pegou, e o deixou viver. Ele deve a sua vida à você. Provavelmente ele fará isto para nós. Vá agora e faça o que estou mandando”
O homem não queria ir, mas ele também não queria se opor à sua esposa, então ele voltou ao mar.
Quando ele chegou a água não estava mais limpa, mas sim verde e amarela. Ele parou na beirada e falou:

Linguado, linguado, no mar!
Príncipe dos peixes!
Minha esposa, minha mulher
Não quer, ela não quer, o que eu quero.

O linguado surgiu e falou: - “O que ela deseja?”
-“Oh! Príncipe encantado” falou o homem, -  "Eu o peguei, e minha esposa falou que eu deveria ter lhe pedido algo antes de tê-lo soltado. Ela não deseja mais viver num barraco imundo. Ela desejaria uma casa.”
- “Vá para casa!” disse o linguado. “Ela já a tem!”
O homem voltou para casa, pensando em tudo que ouvira do peixe e encontrou no lugar do barraco de outrora a sua esposa que lhe esperava na porta da nova casa, e disse a ele: - “Venha, entre e veja nossa nova casa, não é muito melhor?”
Havia um pequeno jardim, e um pequeno e bonito salão, e um quarto onde uma cama confortável estava cuidadosamente arrumada, e também uma cozinha e uma sala de jantar. A casa tinha belos móveis e seus utensílios domésticos eram feitos de lata e bronze, como deveria ser. E do lado de fora tinha uma pequeno terreiro com galinhas e patos e uma horta com vegetais e frutas.
- “Veja tudo isso!” disse a mulher. - “Não é lindo?”
- “Sim!” disse o homem. - “Isto é mais do que o suficiente. Podemos viver aqui muito bem até o fim dos nossos dias”,
- “Isso é muito tempo, mas vamos pensar nisso” disse a mulher.
Então eles comeram, pois a cozinha estava repleta de coisas gostosas e foram dormir.
Tudo ficou bem por uma ou duas semanas, a mulher encantada com a casa e o pescador continuando com sua pescaria, mas então um dia sua mulher falou: - “Escute, homem. Esta casa é muito pequena. O terreiro e a horta são muito pequenos. O linguado deveria nos ter dado uma casa maior. Eu quero viver num palácio de pedra. Volte até o linguado e peça a ele um palácio.”
- “Ai, ai, ai mulher..." falou o homem, - "Esta casa já é boa o suficiente para nós dois. Por que iríamos querer um palácio?”
- “Eu sei porque e isso basta!” disse a mulher. - “Agora vá! O linguado pode muito bem fazer isto.”
O homem ainda ponderou: -“Mulher, o linguado já nos deu a casa. Eu não quero ir lá de novo tão cedo. Isso pode deixá-lo zangado.”
- “Vá!” disse a mulher. - “Ele pode fazer isto, e ele não vai se importar de fazê-lo. Vai logo sem demora.”
O coração do homem estava pesado, e ele não queria ir. Ele dizia a si mesmo, “Isto não está certo...” mas ele foi assim mesmo com receio do mau humor de sua mulher.
Quando ele chegou ao mar a água estava púrpura, azulada, cinzenta e densa, e não mais verde e amarela. Ele parou na beirada e disse:

Linguado, linguado, no mar!
Príncipe dos peixes!
Minha esposa, minha mulher
Não quer, ela não quer, o que eu quero.

Então o peixe surgiu na beira da praia e perguntou ao pescador: - “O que ela deseja agora?” 
- “Oh senhor príncipe...” disse o homem de forma triste, - “Minha mulher quer viver agora em um palácio de pedra.”
- “Volte para casa. Ela está o esperando na porta” disse o linguado.
Então o homem retornou, pensando que ia encontrar sua casa, mas quando ele chegou viu em seu lugar um grande palácio de pedra. Sua esposa o esperava à porta com um grande sorisso de satisfação, dizendo: 
- “Venha para dentro ver como é grande nossa nova casa"
Ele entrou com ela dentro do palácio. Havia um grande salão de entrada com piso de mármore. Numerosos servos abriam as grandes portas para eles. As paredes eram brancas e cobertas com lindas tapeçarias. Nos quartos haviam mesas e cadeiras feitas de puro ouro. Lustres de cristal pendiam do teto. Todos os cômodos tinham tapetes. Comida e vinho da melhor qualidade inundavam as mesas ao ponto delas quase quebrarem. Fora da casa havia um grande pátio com as melhores carruagens e estábulos para cavalos e vacas. Além disso havia um magnífico jardim com as mais belas flores e as mais finas árvores frutíferas e um bosque que tinha por volta de meia milha de comprimento, com cervos e outros animais de caça que se poderia desejar.
- “Agora sim” disse a mulher - “Isso sim é que é casa, não é lindo nosso castelo?”
- Oh, sim!” disse o homem. - “Isto é demais. Nós podemos viver neste lindo palácio muito bem”
- “Pensaremos nisto,” disse a mulher. - Agora vamos dormir.” E eles foram para a cama coberta de lençóis de cetim e travesseiros com plumas de ganso.
Na manhã seguinte a mulher acordou primeiro. O sol já tinha nascido, e de sua cama ela podia ver a magnífica paisagem. Seu marido estava começando a acordar depois de uma boa noite de sono, quando ela o cutucou com o braço e falou: - “Homem, levante-se e olhe pela janela. Veja, não poderíamos ser reis de toda esta terra?”
-“Oh, mulher,que bobagem está dizendo...” disse o homem e continuou: - “Para que iríamos ser reis? Eu não quero ser rei, gosto de ser o que sou.”
-“Bem” disse a mulher, -“Mesmo se você não quer ser rei, eu continuo querendo ser rainha, vá pedir isso ao peixe"
- “Oh, mulher” disse o homem - “Por que você quer ser rainha? Eu não quero pedir isto a ele, é capaz dele se zangar”
- “E porque ele negaria isso?” disse a mulher. -“Vá lá imediatamente. Eu devo ser rainha e o peixe deve esse favor a você”
Então o homem, triste porque sua mulher queria ser rainha, foi caminhando até a beira da praia, pensativo e cabisbaixo.
- “Isto não está certo, não está certo mesmo” pensava o homem. Ele não queria ir, mas foi assim mesmo contra sua vontade, para não contrariar a mulher.
Quando ele chegou no mar as águas estavam com uma cor cinza escura e revoltas, e tinham um cheiro ruim. Ele parou na beirada e disse:

Linguado, linguado, no mar!
Príncipe dos peixes!
Minha esposa, minha mulher
continua lhe pedindo coisas...
Não quer, ela não quer, o que eu quero.

- “E o que ela deseja agora?” o linguado perguntou ao pescador
- "Agora Vossa Alteza, ela quer ser rainha”, disse o pobre homem.
- “Pois bem, pode voltar ao castelo, ela já é rainha” , disse o linguado antes de retornar ao fundo do mar.
Então o homem voltou para casa, e quando chegou, o palácio tinha ficado muito maior, com uma torre alta e decorações magníficas. Sentinelas vigiavam os portões, e havia tantos soldados, tambores e trombetas que ele até se assustou. Quando ele entrou viu que tudo era feito do mais puro mármore e ouro, com capas de veludo e bordas douradas. Então as portas para o grande salão se abriram, e lá havia toda a corte real. Sua esposa estava sentada num trono alto feito de ouro e diamantes. Ela usava uma grande coroa dourada, e segurava um cetro feito de puro ouro e pedras preciosas. De seu lado havia uma fileira de serviçais, carregando bandejas com especiarias e pedras cintilantes. O pescador se surpreendeu e disse à mulher:
- “Oh minha querida, agora você é a rainha?”
- “Sim!” ela disse, -  “Agora eu sou a rainha!”
Ele parou por um momento e olhou para ela, e depois de algum tempo falou: - "Mulher, é muito bom que agora você seja a rainha. Agora não precisamos de mais nada e poderemos viver felizes para sempre neste palácio”
- “Não, homem, alguma coisa ainda me incomoda..”, disse ela, ficando agitada. “Por que ser apenas uma rainha? Eu não aguento mais. Cansei de ser rainha, agora eu devo ser Imperatriz.. Vá até o linguado e peça isso a ele”
- “Oh, mulher” disse o homem, - “Por que você nunca se satisfaz, por que quer ser agora uma Imperatriz?”
- “Homem,” disse ela, - “Vá até o linguado e peça isso a ele sem demora. Eu quero ser Imperatriz.”
- “Oh, mulher,” disse o homem, - “Ele não pode fazer de você imperatriz. Eu não posso pedir isto a ele. Só há um imperador neste reino. O linguado não pode fazê-la imperatriz. Ele não pode fazer isto.”
- “O quê você está me dizendo?” disse a mulher. - “Pois fique sabendo que eu sou a rainha, e você é meu marido e você vai fazer exatamente aquilo que estou mandando que faça. Portanto, vá imediatamente à beira do mar e chame o linguado e faça o pedido. Se ele pode me fazer rainha então ele pode me fazer também uma imperatriz. Eu quero, mereço e devo ser imperatriz. Vá até lá imediatamente, antes que eu me aborreça contigo”.
E então mais uma vez o pescador foi até à beira do mar. No caminho este homem assustado pensava consigo, “Isto não vai terminar bem. Desejar ser Imperatriz é vergonhoso. O linguado irá ficar revoltado com isto e pode nos castigar".
Assim ele chegou ao mar. A água estava toda preta, densa e efervescente como ele jamais tinha visto. Um vento forte passou e respingou água sobre ele. Ele parou na beira da praia e gritou:

Linguado, linguado, no mar!
Príncipe dos peixes!
Minha esposa, minha mulher, a rainha
Não quer, ela não quer, o que eu quero.

- “O que ela deseja agora?” o linguado perguntou com impaciência.
- “Oh, senhor linguado...” ele disse receoso, - “Minha mulher quer ser agora transformada em Imperatriz.”
- “Volte para casa,” disse o linguado.-  “Ela já se tornou Imperatriz.” E desapareceu no meio da escuridão das águas.
Então o homem voltou para casa, abatido, refletindo no que se transformara a sua vida de pois que havia fisgado aquele peixe e quando chegou, o palácio inteiro era feito de mármore polido com estátuas de alabastro e decorações douradas. Soldados marchavam fora dos portões, tocando trombetas e tambores. Dentro da casa, barões, condes e duques andavam ao redor feito servos. Eles abriam as portas que eram feitas de puro ouro, para o pescador passar. Ele entrou onde sua esposa estava, em um salão imenso, adornado de tapeçarias e lindas esculturas de bronze, ela estava sentada num trono feito de um pedaço inteiro de ouro, e usava uma grande coroa dourada, toda cravejadas de diamantes e rubis. Em uma mão ela tinha um cetro, e na outra o globo imperial. Guarda costas estavam enfileirados em duas colunas ao lado dela, servindo-lhe bebidas e comidas saborosas. Muitos príncipes e duques estavam perante ela, aguardando a sua vez de poderem dirigir-lhe a palavra.
O homem atravessou todo o salão e aproximando-se dela  disse: - “Mulher, você conseguiu o que queria, agora você é Imperatriz?”
- “Sim!” ela disse, - “Agora eu sou a Imperatriz.”
Ele ficou olhando para ela, e sorriu, depois de algum tempo lhe falou: - “Mulher, é muito bom ver que você é agora Imperatriz.”
“Homem,” ela disse muito compenetrada: - “Porque você está parado aí? Agora que que sou Imperatriz, eu quero me tornar papa.”
- “Ai, ai ai, ai mulher!” disse o homem. - “Isso já é demais. O que você não quer? Só há um papa em toda a cristandade. Ele não pode lhe fazer papa.”
- “Homem,” ela disse: - “Eu quero ser papa e pronto! Vá até lá imediatamente, chame o peixe e faça o pedido. Eu quero me tornar papa ainda hoje.”
- “Não, mulher! ” ele falou, - “Eu não posso pedir isto a ele. Isto não é nada bom. Isto é muita coisa. O linguado não pode lhe transformar em papa”
- “Homem, quanta bobagem!” disse a mulher. - “Se ele pode me tornar imperatriz, ele pode muito bem me tornar papa. Vá imediatamente. Eu sou imperatriz, e você é meu marido, tem de me obedecer. Vá logo e não demore”.
Então o homem foi, assustado pelo que ouvira da mulher e preocupado com a reação do peixe. Ele se sentia mal, e suas pernas tremiam. O vento soprava forte pela terra, e as nuvens estava escuras. As folhas caíram das árvores e as águas estavam cada vez mais agitadas. Ao longe ele podia ver navios, pedindo por socorro e sendo revirados pelas ondas. Só havia um ponto azul no céu, mas o resto dele estava vermelho com uma terrível tempestade de relâmpagos e trovões. Desesperado, ele parou na beira da praia e disse:

Linguado, linguado, no mar!
Príncipe dos peixes!
Minha esposa, minha mulher, a Imperatriz,
Não quer, ela não quer mais, o que eu quero.

- “O que ela deseja agora?” o linguado perguntou.
- “Oh,” disse o homem, - “Agora ela quer ser papisa!”
- “Então vá para casa...,” disse o linguado. - “Ela já é papisa.”
Então ele voltou para casa. Chegando, havia uma grande igreja cercada por palácios. Ele teve que forçar sua passagem entre a multidão. Dentro tudo estava iluminado com milhares e milhares de luzes, e sua esposa estava vestida em puro ouro e sentada em um trono ainda maior. Ela estava usando três grandes coroas douradas. Ela estava cercada pelo esplendor da igreja, e ao seu lado havia duas fileiras de velas. A maior delas ela grossa e alta como a mais alta torre e a menor era do tamanho de uma vela comum. E todos os reis e imperadores se ajoelhavam perante ela, beijando  seus pés.
“Mulher,” disse o homem, olhando bem para ela, “você é papisa agora?”
“Sim,” ela disse. - "Eu sou papisa!”
Então ele ficou olhando para ela, e era como se ele estivesse olhando diretamente para o sol. Depois de algum tempo olhando para ela ele disse, -“Mulher, é muito bom que você seja papa!, afinal era tudo que você queria”
E ela ficou imóvel feito uma árvore, sem demonstrar emoções.
Então ele disse: - “Mulher, fique satisfeita agora que é papisa. Não há nada mais que você possa ser.”
- “Pensarei sobre isto!” disse a mulher.
Então eles foram dormir, mas ela não estava satisfeita. A sua ambição não a deixava dormir. Ela ficava pensado o que ela queria ser agora.
O homem dormiu muito bem, já que ele teve que correr muito durante o dia, mas a mulher não conseguia dormir, e ficou revirando na cama a noite toda, sempre pensando o que ela poderia ser agora, mas ela não conseguia pensar em nada.
Então o sol estava para nascer, e quando ela viu a primeira luz do amanhecer ela sentou na cama e viu pela janela o sol nascer.
- “Ah! Descobri” ela pensou. - “Porque não posso controlar quando o sol e a lua nascem?”
- “Homem,” ela disse, cutucando-o com seu cotovelo, - “Acorde já e vá falar com o linguado. Eu quero ser como Deus.”
O homem, que ainda estava acordando, ficou tão assustado que caiu da cama. Ele pensou que tinha entendido errado, então coçando os olhos falou à ela: - “Mulher, o que foi que você disse?”
- “Homem,” ela gritou, - "Eu não posso tolerar ver o sol e a lua nascendo e eu não poder controlar isto. Eu não terei sossego até que consiga poder controlar isto.”
Ela olhou para ele de uma forma tão horripilante que ele estremeceu.
- “Vá lá imediatamente. Eu quero ser como Deus, peça isso imediatamente aquele peixe".
- “Oh, mulher,” disse o homem, caindo de joelhos perante ela, - “O linguado já teve muita paciência conosco, mas não pode fazer isto. Ele te fez rainha, imperatriz e agora até em papisa ele te transformou, atendeu a todos os teus caprichos e desejos, mas eu imploro, fique satisfeita por ser papisa e se dê muito feliz por isso tudo que conseguiu.”
A fúria se abateu sobre ela. Seu cabelo se arrepiou de uma forma selvagem. Rasgando suas roupas ela o chutou e gritou, - “Eu não tolero isso! Eu não tolero mais isso! Não admito ser contrariada! Vá lá imediatamente!”
Ele colocou suas calças e partiu em seguida, correndo igual a um louco em direção à beira do mar onde havia pescado o linguado.
Lá fora havia uma tempestade tão forte que ele mal conseguia ficar de pé. Casas e árvores estavam voando com o vento. As montanhas estremeciam, e pedras estavam rolando dos penhascos para dentro do mar. O céu estava negro como breu. Havia raios e trovões. No mar havia grandes ondas negras mais altas que torres de igreja e montanhas, todas elas com grandes coroas de espuma branca, o cenário era assustador e ele ainda teve coragem de gritar:

Linguado, linguado, no mar!
Príncipe dos peixes!
Minha esposa, minha mulher a papisa
Não quer, ela não quer, o que eu quero.

- “O que ela deseja dessa vez?” o linguado perguntou.
-  “Oh,” ele disse, “Agora ela quer ser como Deus.”
- “Volte agora para casa. Ela está de volta ao seu barraco imundo.”
E assim eles estão vivendo até hoje.



JOÃO FELIZARDO - conto





JOÃO FELIZARDO
Irmãos Grimm



João trabalhou duro durante sete anos, mas desejava voltar a ver a sua pobre mãe. Foi pedir as contas ao patrão que havia se afeiçoado ao rapaz pelo seu jeito alegre e descontraído e lhe pagou com uma pepita de ouro do tamanho de sua cabeça, recomendando ao rapaz que tivesse juízo, pois aquela pepita lhe traria muitas alegrias na vida. João partiu em viagem, a pé, mas logo ficou cansado por carregar aquela pedra tão pesada. Ele viu um cavaleiro montado em seu cavalo e vendo a facilidade com que marchava no cavalo, ele ofereceu ao cavaleiro para trocar o seu ouro pelo cavalo. O cavaleiro mais que depressa aceitou e João ficou muito feliz em se livrar daquele peso, o homem deu-lhe o cavalo e João seguiu adiante. João acelerou o cavalo e foi jogado para fora do animal não conseguindo mais montar no animal levava-o, puxando pelas rédeas, embaixo do sol forte, foi então que ele encontrou um pastor que tinha uma vaca magricela e conversando com João o convenceu a trocar seu cavalo por sua vaca, argumentando que uma vaca poderia fornecer leite, queijo e manteiga, além de marchar mais vagarosamente. João aceitou a oferta e levou a vaca, deixando o cavalo com o pastor que ficara muito contente com a troca, continuando a sua jornada,sentiu sede e resolveu ordenhar a vaca, mas descobriu que a vaca estava seca e não produzia mais leite, como ele havia pensado; descontente com a vaca continuou sua jornada. João encontrou um açougueiro que tinha um porco e interessado pela vaca que o rapaz carregava, ofereceu o porco em troca dizendo as vantagens do animal que além de tudo poderia fornecer linguiças e carne saborosa. Os olhos do rapaz brilharam de satisfação lembrando da comida deliciosa que sua mãe preparava e de como ficaria contente quando visse aquele belo porquinho, resolveu então aceitar a troca com o açougueiro. João começou a correr novamente, na esperança de ter encontrado um companheiro de viagem ideal. Mais adiante, porém João encontrou um camponês que lhe informou que um porco como aquele que carregava, havia sido roubado do escudeiro e ele corria o risco de ser preso por estar com o porco. Sem saber o que fazer, o camponês ofereceu um ganso que tinha em troca do porco, João levou o ganso do camponês em troca de seu porco, feliz por ter se livrado da prisão, imaginando que bom assado aquele ganso poderia dar. Seguindo seu caminho, na próxima aldeia João viu um amolador de facas e tesouras e contou a sua história para ele. O amolador lhe ofereceu uma pedra sobressalente e já desgastada de amolar em troca de seu ganso argumentando que a pedra iria lhe proporcionar uma fonte de renda, pois todo mundo tem sempre uma faca para afiar. João trocou o ganso pelo rebolo e continuou o seu caminho, mas foi ficando cansado pelo peso da pedra e cada vez mais faminto, pois não tinha dinheiro para comprar comida. Quando João parou para beber água, nas margens de um rio, a pedra de amolar caiu em águas profundas se perdeu. João ficou feliz por se livrar da pesada pedra e de todos os problemas. Ele voltou para a casa de sua mãe, lhe contando o quanto tinha tido sorte. 

terça-feira, 13 de agosto de 2013

RUMPELSTILZCHEN - conto


                                                



RUMPELSTILZCHEN
 Irmãos Grimm

Para impressionar o Rei , com o objetivo de fazer o príncipe casar com a sua filha, um moleiro bastante pobre mente e diz que ela é capaz de fiar palha e transforma-la em ouro. O Rei fica interessado e se casa com a moça, acreditando na história que seu pai havia contado. Após as festas de casamento, chama a moça e fecha-a numa torre com palha e uma roda de fiar, e exige-lhe que transforme toda aquela palha em ouro, dando-lhe um prazo de três noites, ou seria executada. A moça se desespera e não sabe o que fazer, chorando desconsolada. Ela já tinha perdido toda a esperança, quando aparece um duende no quarto e promete ajudá-la em troca do seu anel, ela aceitou e ele rapidamente transformou uma grande quantidade de palha no mais puro ouro. Prometendo voltar, apareceu na noite seguinte e propôs nova ajuda em troca de seu colar, a moça aceitou e o pequeno duende trabalhou a noite toda transformando palha em ouro. Na manhã do dia seguinte foi embora e pela terceira vez apareceu novamente para ajudá-la, mas como a moça não tinha nada mais a oferecer o duende pediu a ela que lhe desse seu primeiro filho como pagamento pelo término do serviço e a moça desesperada aceitou a oferta, imaginando que isso não aconteceria e o duende acabou por transformar até a última palha em ouro, prometendo voltar após o nascimento de seu filho. 

O Rei fica tão impressionado com o que vê e julgando que foi a própria moça que havia transformado toda aquela palha em ouro decide se casar com ela, a moça havia se esquecido da promessa que tinha feito ao duende e depois de algum tempo nasce o filho do casal; quando o menino completa seu primeiro anol, o duende regressa para reclamar o seu pagamento: "Agora dá-me o que me prometeste!". A Rainha ficou assustada e ofereceu-lhe toda a sua riqueza, se este a deixasse ficar com a criança. O duende recusa, mas por fim aceita desistir da sua exigência, mas cria outra: se a Rainha conseguisse adivinhar o seu nome em três dias estaria salva. No primeiro dia, ela falhou, inventou vários nomes que o duende se divertia ao ouvi-los; no segundo dia o duende voltou e perguntou à Rainha: "Já sabe o meu nome?" e, novamente a mulher experimentava todos os nomes que conhecia que o duende, zombeteiro achava muita graça e avisou que no dia seguinte seria sua última chance de acertar seu nome, caso contrário levaria seu filho e nunca mais iria vê-lo. A Rainha ficou desesperada e não sabia mais o que fazer; acontece que seu mensageiro passeando pela floresta foi atraído pela chama de uma fogueira onde um duende saltava e cantava uma estranha canção:



Hoje eu frito, amanhã eu cozinho!
Depois de amanhã será o filho da rainha!
Coisa boa é ninguém saber...
Que o meu nome é Rumpelstilzchen!




O mensageiro saiu correndo e foi contar tudo o que viu à Rainha. Quando o duende foi encontrar com a Rainha, ela não cabia em si de contentamento, mas antes de falar o nome verdadeiro, ela inventa outros nomes até que, finalmente, revela o nome dele: Rumpelstilzchen! E ele, louco de raiva, começa a gritar: - Quem te disse isso foi o diabo! - Quem te disse isso foi o diabo - Quem te disse isso foi o diabo! e bate com o calcanhar no chão com tanta força que abre um enorme buraco e é engolido por ele.




domingo, 11 de agosto de 2013

A CAÇA - resenha de filme





A CAÇA
(The Hunt / Jagten)

direção - Thomas Vinterberg
roteiro - Tobias Lindholm
Dinamarca/2012
115 minutos
drama
elenco: Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, Annika Wedderkopp, Alexandra Rapaport


Em uma cidade pequena onde todos se conhecem um professor do jardim da infância (Lucas) é acusado de pedofilia após a filha (Klara) de cinco anos de idade de seu melhor amigo, mentir dizendo que o professor lhe havia mostrado suas partes íntimas. Como se isso já não bastasse, Lucas está tentando reconstruir sua vida após um divórcio complicado e separado de seu filho de quem perdeu a guarda e ainda outras crianças também declaram a seus pais que sofreram assédio sexual do professor.
Uma das questões que impulsiona esse drama dinamarquês, que concorreu a melhor filme estrangeiro no Festival de Cannes em 2012, é: - As crianças sempre dizem a verdade, ou mentem aos adultos para satisfazê-los? E: - Até onde as pessoas acreditam naquilo que querem acreditar passando por cima de suas próprias convicções de amizade, respeito, confiança e justiça?
Mikkelsen desenvolve com competência o professor afetivo e respeitoso com as crianças que vê sua vida se transformar quando toda a cidade e, inclusive seu melhor amigo, lhes dão às costas e passa a sofrer acusações e ameaças, a partir de um rumor que se desenvolve cada vez mais e que mesmo sem provas conclusivas, acaba sendo cada vez mais ameaçado e discriminado por todos.
O roteirista do filme, Tobias Lindholm, declarou em entrevista que existe um provérbio popular dinamarquês que diz que "apenas as crianças e os bêbados dizem a verdade", ironicamente trata-se de uma mentira, talvez seja difícil admitir que a criança nem sempre diz a verdade, podendo mentir, mesmo sabendo, conscientemente, que pode prejudicar alguém. Trazer essa reflexão ao abordar um tema tão delicado como esse envolvendo tantas emoções e repercussões sociais e profissionais é o grande mérito desse filme.