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terça-feira, 3 de setembro de 2013

UM OLHINHO, DOIS OLHINHOS E TRÊS OLHINHOS (conto)





UM OLHINHO, DOIS OLHINHOS E TRÊS OLHINHOS.
Irmãos Grimm

Era uma vez um homem que tinha três filhas. A primeira se chamava Um Olhinho, porque tinha um olho só, bem no meio da testa. A segunda era a Dois Olhinhos, porque tinha dois olhos, como todas as outras meninas. A mais moça era chamada de Três Olhinhos, porque tinha três olhos, um de cada lado e o terceiro no meio da testa. Como Dois Olhinhos não era diferente das outras pessoas, as irmãs e a mãe tinham ódio dela. E diziam:
- Você, com seus dois olhos, não passa de mais uma no rebanho! Não é uma de nós, não é diferente como nós.
E empurravam a irmã e a maltratavam, só davam trapos velhos para ela vestir, só deixavam as sobras para ela comer e faziam tudo o que podiam para infernizar a vida dela. Um dia, mandaram Dois Olhinhos ao campo tomar conta da cabra, mas ela ainda estava com muita fome porque as irmãs não tinham dado quase nada para ela comer. Ela se sentou junto de uma sebe e começou a chorar. Chorava tanto que dois riachos de lágrimas começaram a correr pelo seu rosto. De repente, num momento em que levantou a cabeça no meio de toda aquela tristeza, viu uma mulher parada a sua frente.
- Dois Olhinhos, por que é que você está chorando? - perguntou ela.
A menina respondeu:
- E como é que eu posso não chorar? Minha mãe e minhas irmãs não gostam de mim, só porque eu tenho dois olhos como todo mundo. Aí ficam me botando de castigo, só me vestem de farrapos e não me dão nada para comer, a não ser as sobras dos pratos delas. Hoje era tão pouquinho que eu estou morrendo de fome.
A mulher então lhe disse:
- Dois Olhinhos, enxugue as lágrimas. Vou lhe ensinar uma coisa que não vai deixar
você passar fome nunca mais. É só você dizer para a sua cabra: Linda cabrinha, põe a mesa bem bonitinha! Aí vai aparecer uma mesa posta, bem arrumada, com a melhor comida que houver e você vai poder comer tanto quanto quiser. Depois, quando você estiver satisfeita e não precisar mais da mesa, é só dizer: Linda cabrinha, leva a mesa bem bonitinha! E a mesa desaparecerá.
Dizendo isso, a mulher foi embora e Dois Olhinhos pensou: "Vou experimentar fazer isso agora mesmo para ver se é verdade, pois, que estou morrendo de fome." E disse como a mulher havia ensinado:
- Linda cabrinha, põe a mesa bem bonitinha!
Assim que acabou de falar, apareceu uma mesa toda arrumada, com uma toalha bem branca, um prato, talheres de prata e os pratos mais deliciosos no centro da mesa, bem quentinhos, como se tivessem acabado de vir direto da cozinha. Dois Olhinhos rezou a Ação de Graças mais curta que sabia:
- Deus querido, esteja sempre conosco. Amém!
E se atirou na comida. Saboreou cada bocadinho e, quando achou que já tinha comido o bastante, disse as palavras que a Mulher Sábia tinha ensinado:
- Linda cabrinha, leva a mesa bem bonitinha!
A mesa e tudo o que nela estava desapareceram instantaneamente e Dois Olhinhos ficou
muito feliz com esse presente e exclamou:
- Meu Deus! Que mesa maravilhosa!
De noite, quando voltou para casa, achou um resto de comida que as irmãs tinham deixado para ela numa tigela de barro. Mas nem tocou na comida, pois estava satisfeita com a boa comida que já havia saboreado. No dia seguinte, ela saiu de novo com a cabra e, na volta, outra vez nem tocou nas migalhas que as irmãs deixaram. Na primeira e na segunda vez elas nem prestaram atenção, porque, realmente, não se importavam com a irmã. Mas, quando isso começou a acontecer todo o dia, elas acabaram reparando e estranharam que a menina passava indiferente pelos restos de comida deixado por elas.
- Alguma coisa esquisita está acontecendo. - disseram.

- Dois Olhinhos costumava comer toda a comida que dávamos a ela e agora nem toca em nada. Deve ter descoberto outro jeito de comer.
Resolvidas a descobrir a verdade, decidiram que, quando Dois Olhinhos levasse a cabra para pastar, Um Olhinho ia seguir atrás para vigiar o que ela fazia e ver se alguém estava levando comida e bebida para ela. Quando Dois Olhinhos estava partindo, Um Olhinho foi até junto dela e disse:
- Acho que vou com você até o campo, para ter certeza de que a cabra está pastando direitinho e sendo bem cuidada.
Mas Dois Olhinhos sabia o que a irmã estava pensando e fingiu não se importar, foi com a cabra até o meio do capinzal alto e disse:
- Venha, Um Olhinho, vamos sentar que eu canto uma canção para você.
Um Olhinho sentou. Mas como não estava acostumada a andar e ficar no sol, naquele
calor, estava muito cansada. Dois Olhinhos ficou cantando e perguntou à menina:

- Um Olhinho, velas tu?
- Um Olhinho, dormes tu?
A menina cansada nem respondeu e Um Olhinho acabou fechando seu único olho e dormiu. Assim que Dois Olhinhos viu Um Olhinho dormindo sem poder ficar lhe espionando, disse:
- Linda cabrinha, põe a mesa bem bonitinha!
Sentou-se então junto à mesa posta e comeu e bebeu até se fartar e depois ordenou:
- Linda cabrinha, leva a mesa bem bonitinha!
E, num instante, tudo desapareceu. Em seguida, Dois Olhinhos acordou Um Olhinho e
disse:
- Um Olhinho, você ia tomar conta da cabra e veja o que aconteceu. Você dormiu. A
cabra podia ter saído correndo e sumido por aí. Venha, vamos voltar para casa.
E para casa foram. Mais uma vez, Dois Olhinhos não tocou na tigela de restos de comida, mas Um Olhinho não foi capaz de explicar à mãe e à Três Olhinhos por que é que a irmã não comia. Só conseguiu dar uma desculpa:
- Eu acabei dormindo por causa do sol...
No dia seguinte, a mãe disse a Três Olhinhos:
- Agora, desta vez, quero que você vá e vigie bem, para ver se alguém dá comida e
bebida a ela, porque ela deve estar comendo e bebendo escondido de nós.
Assim, Três Olhinhos foi até junto de Dois Olhinhos e disse:
- Acho que vou com você até o campo, para ver se a cabra está pastando direitinho e sendo bem cuidada. 
Mas Dois Olhinhos sabia o que andava pela cabeça dela. Levou a cabra até o capinzal
alto e disse:
- Venha, Três Olhinhos, vamos sentar que eu canto uma canção para você.
Três Olhinhos sentou. Mas, como não estava acostumada a andar e ficar no sol, naquele calor, estava muito cansada. Dois Olhinhos começou a cantar a mesma canção outra vez:
- Três Olhinhos velas tu?
Mas em vez de cantar: "Três Olhinhos, dormes tu?," como devia ter cantado, se distraiu e cantou:
- Dois Olhinhos, dormes tu?
Quer dizer, ficou cantando uma canção assim:
- Três Olhinhos, velas tu?
- Dois Olhinhos, dormes tu?
Então dois dos olhos de Três Olhinhos se fecharam e dormiram, mas o terceiro não, porque não foi mencionado na canção. Três Olhinhos fechou seu terceiro olho, como se ele também fosse dormir, mas era um truque, porque deixou uma fresta aberta e via tudo o que estava acontecendo. Quando Dois Olhinhos achou que Três Olhinhos já estava dormindo profundamente, disse seus versinhos mágicos:
- Linda cabrinha, põe a mesa bem bonitinha!
E depois de ter comido e bebido até se fartar, mandou a mesa embora de novo, dizendo:
- Linda cabrinha, leva a mesa bem bonitinha!
Mas Três Olhinhos tinha visto tudo. Depois Dois Olhinhos acordou a irmã e disse:
- Três Olhinhos, você não disse que ia tomar conta da cabra? Como foi então que você
dormiu? Vamos voltar para casa...
E para casa foram. Mais uma vez, Dois Olhinhos não comeu nada. Mas Três Olhinhos disse à mãe:
- Agora sei por que aquela peste não come nada. Ela diz à cabra: Linda cabrinha, põe a mesa bem bonitinha! E, num passe de mágica, aparece uma mesa posta com tudo o que precisa e a comida mais gostosa, muito melhor do que a que a gente tem aqui em casa e, depois que ela enche a barriga, diz: Linda cabrinha, leva a mesa bem bonitinha! E aí tudo desaparece. Eu vi tudo! Ela disse umas palavras mágicas e fez dois olhos meus dormirem, mas eu tive sorte e o do meio da testa ficou acordado e viu tudo.
Ouvindo isso, a mãe invejosa gritou para a filha:
- Que é isso? Você pensa que é melhor do que a gente? Mas não vai pensar muito
tempo...
Dizendo isso, pegou a faca da cozinha e enfiou no coração da cabrita, que caiu morta. Dois Olhinhos quase morreu de tristeza. Saiu para o campo, sentou no seu cantinho preferido e chorou lágrimas amargas. De repente, a Mulher Sábia estava de pé ao lado dela:
- Por que você está chorando, Dois Olhinhos? - perguntou ela.
- E a senhora não acha que não devo chorar? - perguntou a moça - Minha mãe matou a cabra que me trazia coisas tão boas para comer e agora vou ficar outra vez com fome e infeliz como sempre.
A Mulher Sábia disse:
- Dois Olhinhos, vou lhe dar um bom conselho. Peça a suas irmãs as tripas da cabra. Depois enterre as tripas no quintal, perto da porta da frente. Elas vão lhe dar sorte.
Dizendo isso, desapareceu. Dois Olhinhos foi para casa enxugando as lágrimas e pediu às irmãs:
- Queridas irmãs, será que eu não podia ficar com algum pedaço da minha cabra? Não estou pedindo os pedaços gostosos não. As tripas mesmo servem.
Elas riram e disseram:
- Se o que você quer são as tripas, pode ficar com elas.

E lhe jogaram as tripas da cabrinha morta. Dois Olhinhos pegou as tripas e, de noite, quando tudo estava sossegado, ela as enterrou perto da porta da frente, bem como a Mulher Sábia tinha aconselhado. Na manhã seguinte, quando todos acordaram e saíram, uma árvore maravilhosa tinha crescido no local. Tinha folhas de prata e frutas de ouro e nada no mundo poderia ser mais bonito ou mais esplêndido. Ninguém podia imaginar como é que uma árvore daquelas tinha brotado ali da noite para o dia. Só Dois Olhinhos é que sabia que ela tinha nascido das tripas da cabra, porque estava no lugar exato onde as tinha enterrado.
- Vamos filha, - disse a mãe a Um Olhinho quando acordou no dia seguinte e viu a maravilhosa árvore - suba nela e tire umas frutas para nós. 

Um Olhinho subiu na árvore, mas, quando tentou pegar uma maçã de ouro, o galho escorregou e saiu do seu alcance. E, toda a vez que ela tentava, acontecia isso. Por mais que ela se esforçasse, não conseguia pegar uma única maçã e acabou desistindo.
- Três Olhinhos, - disse a mãe - suba você agora. Na certa, com seus três olhos, vai conseguir enxergar muito melhor do que sua irmã.
Um Olhinho desceu da árvore e Três Olhinhos subiu. Mas não foi nem um pouco mais jeitosa do que a primeira e, apesar de toda a boa vista que tinha, as maçãs de ouro escaparam de suas mãos. Finalmente, a mãe perdeu a paciência e resolveu que ela mesma ia subir na árvore, mas não conseguiu também ser mais capaz do que Um Olhinho e Três Olhinhos e suas mãos só ficavam agarrando o ar em vez de colher as frutas. Depois de algum tempo, Dois Olhinhos, que assistia a tudo, perguntou:
- E se eu experimentasse? Talvez tenha mais sorte.
As irmãs gritaram:
- Você com seus dois olhos? Mas que bobagem!
Mas, apesar disso, Dois Olhinhos subiu na árvore e, em vez de fugir dela, as frutas vinham encontrá-la na metade do caminho. Pegou quantas quis e desceu com o avental cheio. A mãe pegou todas. Mas, em vez de tratá-la melhor por isso, ela e as irmãs ficaram com tanta inveja porque ela tinha conseguido colher as frutas, que passaram a ser ainda mais malvadas com ela do que de costume.
Acontece que, um dia, quando estavam todas juntas debaixo da árvore, aproximou-se
um jovem cavaleiro.
- Depressa! - gritaram as duas irmãs - Esconda-se, Dois Olhinhos, ou você vai fazer
nossa desgraça.
Rápidas como um raio, pegaram um barril vazio que estava ali por perto da árvore e jogaram por cima dela. Depois esconderam ali embaixo também algumas frutas de ouro que tinham acabado de colher. Quando o cavaleiro chegou mais perto, viram que ele era muito bonito. Ele parou para admirar a esplêndida árvore de ouro e prata e disse para as duas irmãs:
- De quem é essa árvore maravilhosa? Se alguém me desse um galho dela, eu daria
em troca qualquer coisa que essa pessoa quisesse.
Um Olhinho e Três Olhinhos disseram que a árvore era delas e tentaram tirar um galho para ele. Mas, por mais que fizessem força, não conseguiam, porque os galhos e as frutas se encolhiam e iam para longe delas quando se aproximavam. Finalmente, o cavaleiro disse:
- Se a árvore é de vocês, é muito esquisito que não consigam quebrar um pedaço dela. 

Mais uma vez elas disseram que a árvore era delas. Mas, enquanto falavam, Dois Olhinhos, que estava zangada com Um Olhinho e Três Olhinhos porque elas não estavam dizendo a verdade, empurrou algumas maçãs de ouro para fora do barril e elas rolaram para junto dos pés do cavaleiro. Ele ficou assombrado ao ver uma coisa daquelas e perguntou de onde vinham. Um Olhinho e Três Olhinhos explicaram que tinham outra irmã que não podia aparecer diante das pessoas porque só tinha dois olhos, como as pessoas comuns. Mas o cavaleiro insistiu em vê-la e acabou dizendo: 
- Dois-Olhinhos, apareça!
Confiante, Dois Olhinhos saiu debaixo do barril. O cavaleiro ficou maravilhado com a
beleza dela e disse:
- Tenho certeza de que você, Dois Olhinhos, vai poder tirar um galho da árvore para
mim.
- Acho que sim, - disse ela - porque a árvore é minha.
Subiu na árvore e não teve o menor problema para conseguir tirar um galho lindo, cheio de finas folhas de prata e frutas de ouro. Entregou-o ao cavaleiro e ele perguntou:
- O que é que você quer em troca, Dois Olhinhos?
- Meu Deus... - disse Dois Olhinhos - Tenho passado fome e sede, miséria e privações, desde que o dia amanhece até tarde da noite. Se o senhor puder me tirar daqui, me levar embora e me salvar disso tudo, ficarei muito feliz.
O cavaleiro levantou-a, montou-a em sua sela e a carregou para o castelo de seu pai, onde lhe deu roupas, comida e bebida, tanto quanto ela quisesse. E a amou tanto que se casou com ela, numa festa celebrada em meio a grande alegria.
Quando viram Dois Olhinhos partir com o cavaleiro, as duas irmãs a invejaram amargamente. "Mas, pelo menos," pensaram, "ainda temos a árvore maravilhosa. Mesmo que não consigamos colher as frutas, todo mundo vai parar para olhar, vai entrar para nos ver e vai elogiar suas maravilhas. Quem sabe a boa fortuna que isso não nos pode trazer?"
Mas, no dia seguinte, a árvore tinha desaparecido e suas esperanças se acabaram.
E, quando Dois Olhinhos olhava para fora de sua janela, tinha o grande prazer de ver a árvore diante de si, porque ela a tinha seguido até o castelo. Durante muito tempo, Dois Olhinhos viveu alegre e feliz.
Um dia, duas mendigas vieram pedir esmolas no castelo. Dois Olhinhos olhou para elas e reconheceu as irmãs, que tinham ficado tão pobres que iam de porta em porta mendigando pão. Dois Olhinhos que tinha bom coração lhes deu as boas-vindas, as recebeu com carinho e cuidou delas tão bem que elas se arrependeram sinceramente de todo o mal que tinham feito à sua irmã quando eram jovens.



domingo, 1 de setembro de 2013

A ROUPA NOVA DO REI (conto)


A ROUPA NOVA DO REI
Hans Christian Andersen

Era uma vez um imperador que viveu há muitos anos. Gostava tanto de roupas novas e bonitas que gastava todo o seu tempo e dinheiro a vestir-se. Não dava importância ao exército, não ia ao teatro, não andava de carruagem por entre o povo a não ser quando queria exibir uma roupa nova, enfim, não se interessava em nada que não fosse sua aparência. Tinha um casaco diferente para cada hora do dia; e, tal como se ouve dizer de outros soberanos quando se pergunta pelo rei: "Está em Conselho decidindo os problemas do reino!", no seu caso a resposta seria: "O imperador está no quarto de vestir experimentando roupas novas!"
A vida era bastante alegre na côrte onde em que ele vivia. Estavam sempre a chegar forasteiros e visitantes de outras terras, e um dia apareceram dois indivíduos com um ar suspeito que diziam ser tecelões muito especiais. Mas, segundo eles, isso era devido ao tecido que utilizavam, pois fabricavam um material que não só era extraordinariamente belo como também tinha ainda propriedades mágicas: mesmo quando transformado em peças de vestuário, mas tinha uma particularidade muito especial: era invisível para todas as pessoas que não desempenhassem bem as suas tarefas ou que fossem particularmente estúpidas. — Excelente! — pensou o imperador. "Que bela oportunidade para descobrir quais os homens do meu reino que não devem estar nos lugares que ocupam e quais são os espertos e os estúpidos! Pois é, aquele material tem de ser tecido e transformado em roupa imediatamente.
E deu aos dois malandros uma grande quantia de dinheiro para começarem a trabalhar. Assim, os dois patifes montaram dois teares e agiram como se estivessem a trabalhar arduamente, mas a verdade é que não havia nada nos teares. Pouco depois, estavam a pedir o melhor fio de seda e de ouro, que meteram nos seus próprios bolsos, continuando a mover os braços diante dos teares vazios pela noite dentro. Ao fim de algum tempo, o imperador ficou curioso e pensou: "Gostaria realmente de saber como vai aquilo!"
Mas, quando se lembrou de que o tecido não podia ser visto pelas pessoas estúpidas ou incompetentes no seu trabalho, sentiu-se um tanto embaraçado em ir ele próprio ver as roupas. Não que tivesse quaisquer dúvidas quanto às suas capacidades, é claro, mas achou que talvez fosse melhor mandar alguém primeiro, Afinal de contas, toda a gente na cidade sabia dos poderes especiais do tecido; toda a gente estava ansiosa por descobrir até que ponto o vizinho era estúpido ou incompetente.
— Já sei! Vou lá mandar o meu velho e honesto ministro! — decidiu. — É o homem indicado, o mais sensato possível, e ninguém pode queixar-se da maneira como desempenha as suas funções.
Então, o bom velho ministro foi à sala onde os dois malandros estavam a fingir que trabalhavam nos teares.
—"Que Deus me ajude!" pensou ele, abrindo os olhos cada vez mais. "Não consigo ver nada."
Mas guardou o pensamento só para si, pois não queria que desconfiassem dele.
Os dois vigaristas pediram-lhe que se aproximasse; perguntando ao pobre homem se não achava ele que os padrões eram lindos e as cores deliciosas? E gesticulavam diante dos teares vazios. Mas, embora o pobre velho ministro espreitasse e olhasse fixamente, continuava a não ver nada, pela simples razão de que não havia lá nada para ver.
"Céus!", pensou. "Serei mesmo estúpido? Nunca pensei que fosse, e o melhor é que ninguém o pense! Serei mesmo incompetente a desempenhar as minhas funções? Não, não posso dizer que não vejo o tecido."
— Então, não o acha admirável? — perguntou um dos falsos tecelões, continuando a mexer as mãos. — O senhor ainda não disse nada!
— Oh, é encantador, perfeitamente maravilhoso — disse o pobre velho ministro, olhando atentamente através dos óculos. — O padrão, as cores... sim, tenho de dizer ao imperador que os acho notáveis.
— Bem, isso é muito animador — disseram os dois tecelões, apontando-lhe os pormenores do padrão e as diferentes cores utilizadas.
O velho ministro ouviu atentamente, de modo a poder repetir tudo ao imperador. E foi o que fez.

Mais tarde, o imperador mandou outro honesto funcionário para ver o andamento do trabalho e saber se o tecido estaria pronto em breve. Aconteceu-lhe a mesma coisa que ao ministro; olhou e tornou a olhar, mas, como não havia nada para ver senão os teares vazios, não viu absolutamente nada.Os dois impostores então pediram mais dinheiro e mais fio de sede e de ouro; disseram que precisavam disso para acabarem o tecido. Mas tudo que receberam foi direto para os seus bolsos e nem um ponto apareceu nos teares. Apesar disso, continuaram a agitar agitadamente os braços diante das máquinas vazias.
— Não é um belo tecido? — perguntaram os ladrões.
E ergueram o tecido imaginário diante dele, apontando para o padrão que não existia.
"Eu acho que não sou estúpido", pensou o funcionário. "Se calhar não sou a pessoa indicada para o cargo que desempenho. Bem, nunca pensaria tal coisa! E o melhor é que ninguém o pense!"
Por isso, emitiu ruídos de apreciação sobre o tecido que não conseguia ver e disse aos homens que gostava muito das cores e do desenho.
— Sim! — afirmou ao imperador — É magnífico, sua roupa está ficando cada vez mais linda!
As notícias sobre aquele tecido fantástico depressa se espalharam pela cidade. E então o imperador decidiu ir vê-lo ainda nos teares. Assim, com alguns servidores cuidadosamente escolhidos — entre os quais os dois honestos funcionários que já haviam visitado os patifes — foi à sala de tecelagem, onde os malandros faziam as suas palhaçadas, tão ativos como sempre, disfarçando que trabalhavam.
— Que tecido esplêndido! — exclamou o velho ministro.
— Veja o padrão, majestade! Observe as cores! — disse o outro funcionário.
E apontavam para os teares vazios, porque estavam certos de que as outras pessoas viam o tecido.
"Isto é terrível!", pensou o imperador. "Não vejo nada! Serei estúpido? Serei incompetente como imperador? É assustador pensar uma coisa dessas." Então, disse em voz alta:
— Oh, é encantador, encantador! Tem toda a nossa aprovação!
Acenou com ar satisfeito para os teares vazios; nunca iria admitir que não via lá absolutamente nada.
E os cortesões que o acompanhavam também olhavam fixamente, todos eles secretamente alarmados por não serem capazes de ver um único fio. Mas, em voz alta, fizeram eco com o imperador:
— Encantador, encantador, Majestade, que bela roupa Vossa Alteza irá vestir!
E aconselharam-no a utilizar o esplêndido tecido para confeccionar o traje de gala para o grande cortejo real a ser realizado dentro em pouco, onde teria a oportunidade de exibir a todos sua maravilhosa vestimenta.
— É magnífico e tão fora do vulgar... — era o que se ouvia de todos os lados, quando o povo se referia às intenções do monarca e da tal roupa nova que encomendara.
E o imperador condecorou os dois impostores com uma roseta de ouro para colocarem em suas abotoaduras dos casacos e o título de Funcionário Imperial do Tear a cada um deles.
Durante toda a noite anterior ao dia do cortejo, os dois safados fingiram trabalhar, com dezenas de velas à sua volta fingiam que trabalhavam sem descanso. Toda a gente podia ver como eles estavam atarefados, tentando acabar a tempo a roupa nova do imperador a tempo do desfile. Fingiam tirar o tecido dos teares, cortavam o ar com grandes tesouras de alfaiate, cosiam e tornavam a coser com agulhas sem linha. Por fim, anunciaram:
— A roupa está pronta!
O imperador foi vê-la com os seus cortesões mais nobres, e os falsos tecelões ergueram os braços como se estivessem a levantar alguma coisa.
— Aqui estão as calças — disseram eles. — Aqui está o casaco e aqui está a cauda... — e por aí fora. — São leves como espuma; pelo toque, quem não entende poderá dizer que não se tem nada vestido, mas a beleza está precisamente aí, nem todos apreciam a beleza e a qualidade como Vossa Alteza.
— Sim, claro, lógico... — disseram com convicção os acompanhantes do imperador,  aproveitando a oportunidade de se exibirem como capacitados, embora continuassem sem ver nada, porque, realmente, não havia nada para se  ver.
— Se Vossa Majestade Imperial quiser fazer o favor de tirar a roupa que tem vestida, teremos a honra de o ajudar a vestir esta belíssima roupa diante do espelho grande.
O vaidoso imperador despiu-se e os dois falsários fingiram entregar-lhe as roupas novas, uma peça de cada vez. Depois, com os braços à volta da sua cintura, fingiram ajustar a cauda, num toque final, recomendando cuidado e ajustando o caimento em seu corpo como se, de fato, estivessem vestindo-o.
O imperador virou-se e deu uma volta em frente do espelho.
— Que elegante! Como lhe caíram bem estas vestes Majestade! Foram feitas para sua Figura Real!— murmuravam os cortesões e continuavam a bajulação — Que tecido tão rico! Que cores magníficas! Já alguma vez tinham visto uma coisa tão magnífica?
— Majestade — disse o mestre-de-cerimônias —, o dossel já está lá fora.
O dossel cobriria o imperador durante o cortejo, evitando que ficasse exposto ao sol.
— Bem — exclamou o imperador, mirando-se no espelho —, estou pronto! Assenta realmente muito bem, não acham?
E tornou a dar umas voltas em frente do espelho, como quem se admira pela última vez. Os cortesões que tinham de pegar na ponta da cauda baixaram-se, como se erguessem alguma coisa do chão, e levantaram as mãos diante de si. Não iam deixar o povo pensar que eles não viam nada, muito menos fazer papel de tolos diante do imperador.
E assim o imperador foi caminhando no imponente cortejo, sob o esplêndido dossel, e toda a gente nas ruas ou nas janelas exclamava:
— Que ar magnífico tem o imperador! E as roupas novas... não são maravilhosas? Olhem só para a cauda! Que elegante!
O fato é que ninguém queria admitir que não via roupa nenhuma, todos sabiam as qualidades daquele tecido e também porque isso significaria que eram estúpidos ou então incompetentes no seu trabalho. Nenhuma das belas roupas do imperador tinham sido tão admiradas até então.
Foi quando se ouviu claramente uma voz espantada de criança:
— O imperador não está vestido! Ele está nu!
— Estas inocentes crianças! As coisas ridículas que dizem! — exclamou o pai da criança, tentando se desculpar, incomodado com a fala do filho.
Mas um murmúrio começou a crescer no meio da multidão:
— Aquela criança diz que o imperador não leva nada vestido... o imperador está nu! - E daí a pouco toda a gente repetia: — O imperador está nu!
Por fim, até o próprio imperador achou que eles deviam ter razão, mas pensou para si próprio:
"Não posso parar, senão estrago o cortejo."
E lá foi andando com um ar cada vez mais orgulhoso, enquanto os cortesões continuavam a segurar uma cauda que não existia.
Quanto aos falsos tecelões, nem bem o cortejo começara, partiram para bem longe com suas malas repletas de ouro e prata, prontos a encontrar outro tolo vaidoso que afinal existe em toda parte. 

A PEQUENA SEREIA (conto)





A PEQUENA SEREIA
Hans Christian Andersen
(adaptação)

Muito longe da terra, onde o mar é muito azul, vivia o povo do mar. O rei desse povo tinha seis filhas, todas muito bonitas, e donas das vozes mais belas de todo o mar, porém a mais moça se destacava, com sua pele fina e delicada como uma pétala de rosa e os olhos azuis como o mar. Como as irmãs, não tinha pés mas sim uma cauda de peixe. Ela era uma sereia.

Essa princesa era a mais interessada nas histórias sobre o mundo de cima, e desejava poder ir à superfície; queria saber tudo sobre os navios, as cidades, as pessoas e os animais.
— Quando você tiver 15 anos — dizia a avó — subirá à superfície e poderá se sentar nos rochedos para ver o luar, os navios, as cidades e as florestas.
E assim os anos foram se passando devagar... Quando a princesa completou 15 anos mal pôde acreditar que finalmente iria ver aquelas maravilhas que tanto ansiava. Subiu até a superfície e viu o céu, o sol, as nuvens... viu também um navio e ficou muito curiosa. Foi nadando até se aproximar da grande embarcação. Viu, através dos vidros das escotilhas, passageiros ricamente trajados. O mais belo de todos era um príncipe que estava fazendo aniversário, ele não deveria ter mais de 16 anos, e a pequena sereia se apaixonou por ele assim que o viu através da janela do navio.
A sereiazinha ficou horas admirando seu príncipe, e só despertou de seu devaneio quando o navio foi pego de surpresa por uma tempestade e começou a tombar. A menina viu o príncipe cair no mar e afundar, e se lembrou de que os homens não conseguem viver dentro da água. Mergulhou na sua direção e o pegou já desmaiado, levando-o para uma praia.





Ao amanhecer, o príncipe continuava desacordado. A sereia, vendo que um grupo de moças se aproximava, escondeu-se atrás das pedras, ocultando o rosto entre os flocos de espuma.
As moças viram o náufrago deitado na areia e foram buscar ajuda. Quando finalmente acordou, o príncipe não sabia como havia chegado àquela praia, e tampouco fazia idéia de quem o havia salvado do naufrágio. A pobre sereia acompanhou toda a cena escondida atrás dos rochedos.
A princesa voltou para o castelo muito triste e calada, e não respondia às perguntas de suas irmãs sobre sua primeira visita à superfície.
A sereia voltou várias vezes à praia onde tinha deixado o príncipe, mas ele nunca aparecia por lá, o que a deixava ainda mais triste. Suas irmãs estavam muito preocupadas, e fizeram
tantas perguntas que ela acabou contando tudo o que havia acontecido. Acontece que uma das amigas de uma de suas irmãs conhecia o príncipe e sabia onde ele morava. A pequena sereia se encheu de alegria, e descobrindo o seu pardeiro, ia nadar todos os dias na praia em que ficava seu palácio. Observava à distância seu amado e cada vez mais gostava dos seres humanos, desejando ardentemente viver entre eles.
A princesa então, muito curiosa para conhecer melhor os humanos, perguntou a sua avó se eles também morriam.
— Sim, morrem como nós, mas vivem menos. Nós podemos viver trezentos anos, e quando “desaparecemos” somos transformadas em espuma. Nossa alma não é imortal. Já os humanos têm uma alma que vive eternamente. 
— Eu daria tudo para ter a alma imortal como os humanos! — suspirou a sereia.
— Se um homem vier a te amar profundamente, se ele concentrar em ti todos os seus pensamentos e todo o seu amor, e se deixar que um sacerdote ponha a sua mão direita na tua, prometendo-te ser fiel nesta vida e na eternidade, então a sua alma se transferirá para o teu corpo. Ele te dará uma alma, sem perder a dele... Mas isso jamais acontecerá! Tua cauda de peixe, que para nós é um símbolo de beleza, é considerada uma deformidade na terra dos humanos e todos lá te rejeitarão.
A sereiazinha suspirou, olhando tristemente para a sua cauda de peixe e desejando ter um par de pernas em seu lugar. Mas a menina não esquecia a idéia de ter uma alma imortal e resolveu procurar a bruxa do mar, famosa por tornar sonhos de jovens sereias em realidade... desde que se dispusessem a pagar um preço por isso.
O lugar onde a bruxa do mar morava era horrível, e a princesa precisou de muita coragem para chegar lá. A bruxa já a esperava, e foi logo dizendo:
— Já sei o que você quer. É uma loucura querer ter pernas, isso trará muita infelicidade a você! Mesmo assim, se você fizer questão, vou preparar uma poção, mas já te aviso que essa transformação será dolorosa. Cada passo que você der será como se estivesse pisando em facas afiadas, e a dor a fará pensar que seus pés foram dilacerados.Você está mesmo disposta a suportar tamanho sofrimento?
— Sim, estou pronta! — disse a sereia, pensando no seu amado príncipe e na sua alma imortal.
— Pense bem, menina. Depois de tomar a poção você nunca mais poderá voltar à forma de sereia... E se o seu príncipe se casar com outra você não terá uma alma imortal e morrerá no dia seguinte ao casamento dele.
A sereiazinha estava decidida e assentiu com a cabeça e, sem dizer uma palavra, ficou observando a bruxa fazer a poção.
— Pronto, aqui está ela... Mas antes de entregá-la a você, aviso que meu preço por este trabalho é alto: quero a sua linda voz como pagamento. Você nunca mais poderá falar ou cantar...esse é o preço pela poção.
A princesa quase desistiu, mas pensou no seu príncipe e pegou a poção que a bruxa lhe estendia. Não quis voltar para o palácio, pois não poderia mais falar com suas irmãs, sua avó e seu pai. Olhou de longe o palácio onde nasceu e cresceu, soltou um beijo de adeus em sua direção e nadou rumo à praia.
Assim que bebeu a poção, sentiu como se uma espada lhe atravessasse o corpo e desmaiou. Acordou com o príncipe observando-a. Ele a tomou docemente pela mão e a conduziu ao seu palácio. Como a bruxa havia dito, a cada passo que a menina dava sentia como se estivesse pisando sobre lâminas afiadíssimas, mas suportava tudo com alegria pois finalmente estava ao lado de seu amado príncipe.
A beleza da moça encantou o príncipe, e ela passou a acompanhá-lo em todos os lugares. À noite, dançava para ele, e seus olhos se enchiam de lágrimas, tamanha era a dor que sentia nos pés.

Quem a visse dançando ficava hipnotizado com sua graça e leveza, e
acreditava que suas lágrimas eram de emoção. 
O príncipe, no entanto, não pensava em se casar com ela, pois ainda tinha esperança de encontrar a linda moça que ele vira na
praia, após o naufrágio, e por quem se apaixonara. Ele não se lembrava muito bem da moça, e nem imaginava que aquela bela menina muda era essa pessoa...
Todas as noites a princesinha ia refrescar os pés na água do mar. Nessas horas, suas irmãs se aproximavam da praia para matar a saudade da caçulinha. Sua avó e seu pai, o rei dos mares, também apareciam para vê-la, mesmo que de longe.
A família do príncipe queria que ele se casasse com a filha do rei vizinho, e organizou uma viagem para apresentá-los. O príncipe, a sereiazinha e um numeroso séquito seguiram em viagem para o reino vizinho.
Quando o príncipe viu a princesa, não se conteve e gritou:
— Foi você que me salvou! Foi você que eu vi na praia!
Finalmente encontrei você, minha amada!
A princesa era realmente uma das moças que estava naquela praia, mas havia sido ela que tinha salvado o rapaz. Para tristeza da sereia, a princesa também se apaixonara pelo príncipe e os dois marcaram o casamento para o dia seguinte. Seria o fim da sereiazinha. Todo o seu sacrifício havia sido em vão.
Depois do casamento, os noivos e a comitiva voltaram para o palácio do príncipe de navio, e a sereia ficou observando o amanhecer, esperando o primeiro raio de sol que deveria matá-la. Viu então suas irmãs, pálidas e sem a longa cabeleira, nadando ao lado do navio. Em suas mãos brilhava um objeto.
— Nós entregamos nossos cabelos para a bruxa do mar em troca desta faca. Você deve enterrá-la no coração do príncipe. Só assim poderá voltar a ser uma sereia novamente e escapará da morte. Corra, você deve matá-lo antes do nascer do sol e voltará a ser como antes.
A sereia pegou a faca e foi até o quarto do príncipe, mas ao vê-lo não teve coragem de matá-lo, pois ainda o amava demais. Caminhou lentamente até a murada do navio, mergulhou no mar azul e, ao confundir-se com as ondas, sentiu que seu corpo ia se diluindo em espuma.

RAPUNZEL (conto)





RAPUNZEL
Irmãos Grimm

Era uma vez um casal que há muito tempo desejava ter um filho, mas a mulher não conseguia engravidar. Os anos se passavam e seu sonho não se realizava. Afinal, um belo dia, a mulher percebeu que Deus ouvira suas preces. Ela ia ter uma criança!
Por uma janelinha que havia na parte dos fundos da casa deles, era possível ver no quintal vizinho, um magnífico jardim cheio das mais lindas flores e das mais viçosas hortaliças. Mas em torno de tudo se erguia um muro altíssimo, que ninguém se atrevia escalar. Afinal, era a propriedade de uma feiticeira muito temida e poderosa. Um dia, espiando pela janelinha, a mulher se admirou ao ver um canteiro cheio dos mais belos pés de rabanete que jamais imaginara. As folhas eram tão verdes e fresquinhas que abriram seu apetite. E ela sentiu um enorme desejo de provar os rabanetes.
A cada dia seu desejo aumentava mais e mais. Mas ela sabia que não havia jeito de conseguir o que queria e por isso foi ficando triste, abatida e com um aspecto doentio, até que um dia o marido se assustou e perguntou:

— O que está acontecendo contigo, querida? 
— Ah! — respondeu ela. — Se não comer um rabanete do jardim da feiticeira, vou morrer logo, logo! 
O marido, que a amava muito, pensou: “Não posso deixar minha mulher morrer… Tenho que conseguir esses rabanetes, custe o que custar!” 
Ao anoitecer, ele encostou uma escada no muro, pulou para o quintal vizinho, arrancou apressadamente um punhado de rabanetes e levou para a mulher. Mais que depressa, ela preparou uma salada que comeu imediatamente, deliciada. Ela achou o sabor da salada tão bom, mas tão bom, que no dia seguinte seu desejo de comer rabanetes ficou ainda mais forte. Para sossegá-la, o marido prometeu-lhe que iria buscar mais um pouco.
Quando a noite chegou, pulou novamente o muro mas, mal pisou no chão do outro lado, levou um tremendo susto: de pé, diante dele, estava a feiticeira.
— Como se atreve a entrar no meu quintal como um ladrão, para roubar meus rabanetes? — perguntou ela com os olhos chispando de raiva. — Vai ver só o que te espera! 
— Oh! Tenha piedade! — implorou o homem. — Só fiz isso porque fui obrigado! Minha mulher viu seus rabanetes pela nossa janela e sentiu tanta vontade de comê-los, mas tanta vontade, que na certa morrerá se eu não levar alguns para ela! 
A feiticeira então se acalmou e disse: 
— Se é assim como diz, deixo você levar quantos rabanetes quiser, mas com uma condição: irá me dar a criança que sua mulher vai ter. Cuidarei dela como se fosse sua própria mãe, e nada lhe faltará.
O homem estava tão apavorado, que concordou e saiu dali apressado com os rabanetes embaixo do braço. Pouco tempo depois, o bebê nasceu. Era uma menina. A feiticeira surgiu no mesmo instante, deu à criança o nome de Rapunzel e levou-a embora consigo.
Rapunzel cresceu e se tomou a mais linda criança sob o sol. Quando fez doze anos, a feiticeira trancou-a no alto de uma torre, no meio da floresta. 
A torre não possuía nem escada, nem porta: apenas uma janelinha, no lugar mais alto. Quando a velha desejava entrar, ficava embaixo da janela e gritava:
— Rapunzel, Rapunzel! Joga abaixo tuas tranças! 
Rapunzel tinha magníficos cabelos compridos, finos como fios de ouro. Quando ouvia o chamado da velha, abria a janela, desenrolava as tranças e jogava-as para fora. As tranças caíam vinte metros abaixo, e por elas a feiticeira subia. 
Alguns anos depois, o filho do rei estava cavalgando pela floresta e passou perto da torre. Ouviu um canto tão bonito que parou, encantado.
Rapunzel, para espantar a solidão, cantava para si mesma com sua doce voz.
Imediatamente o príncipe quis subir, procurou uma porta por toda parte, mas não encontrou. Inconformado, voltou para casa. Mas o maravilhoso canto tocara seu coração de tal maneira que ele começou a ir para a floresta todos os dias, querendo ouvi-lo outra vez.
Em uma dessas vezes, o príncipe estava descansando atrás de uma árvore e viu a feiticeira aproximar-se da torre e gritar: “Rapunzel, Rapunzel! Joga abaixo tuas tranças!”. E viu quando a feiticeira subiu pelas tranças douradas que foram jogadas por uma janelinha no alto da torre. 
“Então essa é a escada pela qual se sobe até a janela?”, pensou o príncipe. “Pois eu vou tentar a sorte…”.




No dia seguinte, quando escureceu, ele se aproximou da torre e, bem embaixo da janelinha, gritou: 
— Rapunzel, Rapunzel! Joga abaixo tuas tranças! 
As tranças caíram pela janela abaixo, e ele subiu. 
Rapunzel ficou muito assustada ao vê-lo entrar, pois jamais tinha visto um homem antes. 
Mas o príncipe falou-lhe com muita doçura e contou como seu coração ficara transtornado desde que a ouvira cantar, explicando que não teria sossego enquanto não conhecesse a dona daquela voz tão encantadora. 


Rapunzel foi se acalmando, e quando o príncipe lhe perguntou se o aceitava como marido, reparou que ele era jovem e belo, e pensou: “Ele é mil vezes preferível à velha senhora…”. E, pondo a mão dela sobre a dele, respondeu: 

— Sim! Eu quero ir com você! Mas não sei como descer…pois, jamais coloquei os pés longe dessa torre. Sempre que vier me ver, traga uma meada de seda. Com ela vou trançar uma escada e, quando ficar pronta, eu desço, e você me leva no seu cavalo para longe daqui. 
Combinaram que ele sempre viria ao cair da noite, porque a velha costumava vir durante o dia. Assim foi, e a feiticeira de nada desconfiava até que um dia a ingênua Rapunzel, sem querer, perguntou a ela: 
— Diga-me, senhora, como é que lhe custa tanto subir, enquanto o jovem filho do rei chega aqui em cima tão depressa? 
— Ah, menina ruim! — gritou a feiticeira. — Pensei que tinha isolado você do mundo, e você me engana! 
Na seu acesso de fúria, agarrou Rapunzel pelo cabelos e esbofeteou-a. Depois, com a outra mão, pegou uma tesoura e tec, tec! cortou  as suas belas tranças, largando-as no chão. Não contente, a malvada levou a pobre menina para um deserto e abandonou-a ali, para que sofresse e passasse todo tipo de privação. 
Na tarde do mesmo dia em que Rapunzel foi expulsa, a feiticeira prendeu as longas tranças num gancho da janela e ficou esperando. Quando o príncipe veio e chamou: “Rapunzel! Rapunzel! Joga abaixo tuas tranças!”, ela deixou as tranças caírem para fora e ficou esperando. 
Ao entrar, o pobre rapaz não encontrou sua querida Rapunzel, mas sim a terrível feiticeira. Com um olhar chamejante de ódio, ela gritou zombeteira: 
— Ah, ah! Você veio buscar sua amada? Pois a linda avezinha não está mais no ninho, nem canta mais! O gato apanhou-a, levou-a, e agora vai arranhar os seus olhos! Nunca mais você verá Rapunzel! Ela está perdida para você! 
Ao ouvir isso, o príncipe ficou fora de si e, em seu desespero, se atirou pela janela. O jovem não morreu, mas caiu sobre espinhos que furaram seus olhos e ele ficou cego. 
Desesperado, ficou perambulando pela floresta, alimentando-se apenas de frutos e raízes, sem fazer outra coisa além de se lamentar e chorar pela perda de sua amada Rapunzel. 
Passaram-se os anos. Um dia, por acaso, o príncipe chegou ao deserto no qual Rapunzel agora vivia, na maior tristeza, com seus filhos gêmeos, um menino e uma menina, que haviam nascido ali. 
Ouvindo uma voz que lhe pareceu familiar, o príncipe caminhou na direção de Rapunzel. Assim que chegou perto, ela logo o reconheceu e se atirou em seus braços, a chorar. 
Duas das lágrimas da moça caíram nos olhos dele e, no mesmo instante, o príncipe recuperou a visão e ficou enxergando tão bem quanto antes. 
Então, levou Rapunzel e as crianças para seu reino, onde foram recebidos com grande alegria. Ali viveram felizes e contentes. 

CHAPEUZINHO VERMELHO (conto)





CHAPEUZINHO VERMELHO
Irmãos Grimm

Era uma vez uma doce menina que tinha o amor de todos os que a viam; mas era a avó quem mais a amava, a ponto de não saber o que mais dar à criança. Uma vez lhe presenteou com um chapéu de veludo vermelho e, como este lhe ficava tão bem ela nunca mais quis usar outra coisa sob a cabeça, chamaram-lhe simplesmente Chapeuzinho Vermelho. Um dia disse-lhe a mãe: 
- "Venha cá, Chapeuzinho Vermelho, aqui tens um pedaço de bolo e uma garrafa de vinho para levares à tua avó. Ela está doente e fraca e isto haverá de fortalecê-la. Põe-te ao caminho antes que o sol esquente muito e, quando estiveres no bosque, segue diretamente à casa da vovó e não te desvies do caminho, senão poderás cair e quebrar a garrafa de vinho e a tua avó não receberá nada. E quando entrares no quarto dela, não te esqueças de dizer bom dia e não fique a espreitar em todos os cantos da casa".
- "Vou fazer tudo isso bem feito!"  - prometeu Chapeuzinho Vermelho à sua mãe. 

A avó vivia isolada no bosque, a meia légua da aldeia. Quando Chapeuzinho Vermelho chegou ao bosque, um lobo veio ao seu encontro. Chapeuzinho Vermelho não sabia que se tratava de um animal malvado e não teve medo nenhum dele. 





-"Bom dia, Chapeuzinho Vermelho!" disse ele. 
-"Muito obrigado, lobo." - ela respondeu educada.
- "Aonde vais tão cedo, Chapeuzinho Vermelho?" 
- "À casa de minha avó." 
- "O que levas dentro dessa cesta?" 
- "Bolo e vinho: ontem fizemos e cozinhamos, portanto a pobre vovó doente vai poder receber algo bom que a fortaleça". 
- "Chapeuzinho Vermelho, onde vive a tua avó?" 
- "Lá adiante, ainda falta  um bom quarto de légua dentro do bosque, debaixo dos três carvalhos, aí fica a casa dela; logo abaixo ficam as avelaneiras, assim já saberás" - disse Chapeuzinho Vermelho. 
O lobo pensou para si mesmo: "Que coisa tenra essa menina, dará uma refeição suculenta, deve ser ainda melhor que a velha. Tenho que agir ardilosamente se pretendo apanhá-las" Então andou um pouco ao lado de Capuchinho Vermelho e depois lhe falou: 
- "Capuchinho Vermelho, veja que lindas flores estão por aqui à tua volta. Por que não olhas para elas? Acho que ainda nem reparaste como os passarinhos estão a cantar amorosamente. Andas tão séria, como se fosses para a escola, enquanto que tudo no bosque está tão alegre".
Chapeuzinho Vermelho levantou os olhos e quando viu como os raios de sol dançavam entre as árvores, para a frente e para trás, e como havia lindas flores por todo o lado, pensou: "Se eu levar à avó um ramo fresco dessas lindas flores, hei de dar-lhe alegria. Ainda é tão cedo que chegarei bem a tempo." Então ela saiu do caminho e entrou no bosque à procura de flores. E cada vez que tinha apanhado uma, pensava que mais adiante haveria outra ainda mais bonita e corria a apanhá-la, de tal forma que entrou cada vez mais fundo no bosque. Mas o lobo foi direto para casa da avó e bateu à porta. 

-"Quem está aí?" perguntou a avó.
- "É Chapeuzinho Vermelho, trazendo bolo e vinho, abre a porta vovó!"  falou o lobo.
- "Levanta o trinco," gritou a avó - "Eu estou demasiado fraca para poder me levantar."
O lobo levantou o trinco, a porta abriu e ele, sem uma palavra, dirigiu-se à cama da avó e comeu-a de uma só vez. Depois vestiu suas roupas e colocou sua touca, fechou as cortinas do quarto e deitou-se na cama esperando por Chapeuzinho Vermelho.
Entretanto, a menina tinha corrido pelo bosque apanhando de flor em flor e só quando já tinha tantas que não podia carregar mais é que se lembrou da avó e retomou o caminho para casa dela. Quando chegou, estranhou que a porta estivesse aberta e, quando entrou no quarto, teve uma sensação tão estranha que disse para si própria: "Meu Deus, hoje sinto-me tão angustiada e normalmente gosto tanto de estar com a vovó". E falou: 

- "Bom dia!" - mas não obteve resposta. 
Então dirigiu-se à cama da avó e ali estava a velha com a touca puxada sobre a cara e com uma aparência estranha. 
-"Ah vovó que grandes orelhas você tem!" - falou a menina.
- "É para poder ouvir-te melhor" - respondeu o lobo disfarçado.
- "Ah vovó que grandes olhos você tem!" 
- "Para poder te ver melhor" - disse o lobo.
- "Ah vovó, que grandes mãos você tem!" 
- "É para poder abraçar-te melhor." 
- "Mas, vovó, que boca horrivelmente grande você tem!"
- "É Para poder comer-te melhor". -respondeu o lobo. 
E mal acabara de dizer, pulou da cama e engoliu a pobre Chapeuzinho Vermelho.
E, tendo apaziguado a sua fome terrível, tornou a deitar-se na cama, adormeceu e começou a ressonar muito alto. O caçador estava mesmo a passar em frente da casa da velha senhora e pensou: "Como essa velhota ronca forte! É melhor ver se há algo errado com ela." Então entrou no quarto e, quando chegou à cama, viu o lobo lá estendido. 
- "Aqui te encontro, velho pecador" - disse ele -"Há muito que te procuro!".
Apontou a espingarda mirando na barriga do animal, mas então pensou que o lobo podia ter comido a avó e que ela ainda podia ser salva. Portanto, em vez de disparar, pegou numa tesoura e começou a cortar a barriga do lobo. Depois de ter feito um par de cortes viu um chapeuzinho vermelho aparecer e, após outros tantos cortes, a menina saltou para fora da barriga do monstro, gritando: 
-"Ah, como tive medo! Estava tão escuro dentro do lobo!".
Depois a avó saiu, também viva mas quase incapaz de respirar. Entretanto, Chapeuzinho Vermelho depressa procurou grandes pedras com as quais encheram a barriga do lobo. Quando ele acordou quis fugir, mas as pedras eram tão pesadas que caiu subitamente e pelo esforço, morreu.
Então os três ficaram muito contentes. O caçador tirou a pele do lobo e levou-a para casa. A avó comeu o bolo e bebeu o vinho que Chapeuzinho Vermelho tinha trazido e recuperou suas forças. Mas Chapeuzinho Vermelho pensou: "Nunca mais na vida tornarei a sair do caminho sozinha para entrar no bosque depois que minha mãe ter proibido."



Também se conta que uma vez, quando Chapeuzinho Vermelho levava outra vez bolos e guloseimas à casa da sua avó, um outro lobo falou com ela e quis tentá-la a sair do caminho. Mas desta vez Chapeuzinho Vermelho estava mais atenta, seguiu  direito o seu caminho e disse à avó que tinha encontrado o lobo e que este lhe tinha dito "Bom dia!" Mas com uma expressão má nos olhos: 

- "Se eu não estivesse no caminho público, ele teria me comido ali mesmo" 
- "Vem" disse a avó -"Vamos fechar a porta para que ele não possa entrar".
Pouco depois o lobo bateu à porta e gritou: 
- "Abre a porta vovó, sou eu Chapeuzinho Vermelho e trago-te bolos e coisas gostosas para comer"- disse o lobo mal intencionado.  
Mas elas não falaram nada e nem abriram a porta, por isso o lobo deu umas voltas à casa e finalmente pulou para o telhado, querendo esperar que Chapeuzinho Vermelho se fosse embora à noite para então ir atrás dela e a devorá-la na escuridão. Mas a avó percebeu o que ele tinha em mente. Havia em frente da casa um grande bebedouro de pedra e a avó disse à criança:
-"Pega o balde, Chapeuzinho Vermelho! Ontem fiz salsichas, por isso leva a água da cozedura para o bebedouro e despeje tudo lá dentro". 
Chapeuzinho Vermelho encheu  o balde com a água que foram cozidas as salsichas e despejou até a última gota dentro do grande bebedouro que ficou completamente cheio. Então o cheiro das salsichas alcançou as narinas do lobo e foi atraído até o bebedouro de onde vinha aquele aroma, então cheirou e olhou para baixo. Finalmente, esticou tanto o pescoço que perdeu o equilíbrio e começou a escorregar. Escorregou então para dentro do grande bebedouro, onde se afogou. Chapeuzinho Vermelho foi para casa feliz da vida e mais ninguém lhe fez mal.