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quinta-feira, 16 de maio de 2024

A VOZ DO CORAÇÃO - conto






A VOZ DO CORAÇÃO - conto



 

 

Em um reino muito distante havia uma belíssima princesa, seus pais amavam muito essa filha e a cercavam de muito carinho e conforto. A jovem quase nada falava, prestava atenção a tudo à sua volta e através de seu olhar curioso e sincero conseguia se expressar muito bem, seus pais que a princípio estranharam o mutismo da sua querida filha, aceitaram-na desse modo e viviam felizes dentro do palácio real. No entanto, como às vezes acontece, uma vez a paz desse lugar foi duramente abalada quando surgiu na corte um cavaleiro montado em um garboso corcel pedindo para falar com o rei, pois tinha um importante comunicado de seu mestre. O rei mandou que o intruso se apresentasse, mas estranhou que diante de toda corte e na presença de suas majestades o homem não saudasse com a devida cortesia e gentileza nem a rainha, nem a princesa e muito menos ele, o rei daquele castelo. O estranho foi logo dizendo: 

Meu senhor, é um poderoso guerreiro e me mandou até aqui para avisá-lo que nossas tropas se encontram muito próximas desse castelo e que o ataque será eminente a menos que o rei cumpra nossas exigências. 

O rei ficou petrificado, durante muitos anos seu reino vivia em paz, seus súditos viviam bem e felizes e ele mesmo se considerava um rei justo e bondoso para com seu povo. Não podia deixar que um desconhecido ameaçasse assim seu reino, então ele se levantou e falou para o soldado: 

Escute bem soldado, já achei um grande ultraje você se apresentar de uma maneira tão indigna diante de mim e de minha família e ainda fazendo ameaças infundadas, quem você pensa que é e quem seria o seu senhor que manda um lacaio dizer desaforos? 

O soldado devia estar acostumado com confrontos desse tipo, nem se abalou com a fala do rei e prosseguiu: 

Talvez vocês todos desconheçam o poder do meu amo e também não imaginam a força e a determinação de nosso exército que pode muito bem reduzir esse palácio, assim como todo o seu reino em ruínas, transformando vocês todos em escravos do meu senhor. 

O rei não acreditava naquilo que estava ouvindo e antes de argumentar com o rude emissário ouviu as exigências que trazia: 

Meu amo e senhor gostou desse palácio e decidiu poupar a sua vida e também dos seus súditos desde que possa se casar com sua filha que é conhecida por sua beleza e formosura. 

Parecia que um enorme buraco se abria diante do rei, que não acreditava que seu bem mais precioso, sua amada filha, fosse o cobiçado troféu desse usurpador. 

Nesse mesmo instante, assim como chegou o soldado deu as costas ao rei e a comitiva real, montou no seu cavalo dizendo em tom ameaçador: 

Vocês têm três dias para decidir, ou entregam a princesa e suas vidas serão poupadas ou invadiremos  esse palácio não deixando pedra sobre pedra e mesmo assim sua filha irá conosco, por bem ou por mal. 

E saiu galopando deixando para trás a corte desolada e o rei e a rainha completamente transtornados. 

A princesa que presenciara toda a conversa aproximou-se dos pais e os abraçou, não falou nada, mas eles entenderam que sua filha corajosa estava disposta a se sacrificar. 

Mesmo diante daquele gesto tão nobre da princesa, o rei não se conformou em ficar impávido, sem lutar com aquele guerreiro que ameaçava perturbar e destruir seu reinado. Abraçando a filha, voltou-se a seus generais exigindo uma conferência imediata, o caso era preocupante e uma guerra estava prestes a acontecer. Não abriria mão de sua única filha, principalmente para alguém tão bruto e insensível. 

No entanto, aquele reino era de paz, os soldados sabiam cavalgar com maestria, mas não tinham o gosto pelas batalhas que nunca tiveram que travar, pois viviam todos em harmonia com seus reinos vizinhos em uma atmosfera de alegria e confraternização, enfim os generais tiveram que esclarecer ao monarca que caso um confronto acontecesse de fato, dificilmente alcançariam a vitória, já que seus soldados nem saberiam como empunhar suas espadas que sempre permaneceram intactas em suas bainhas. O rei balançou a cabeça, mas teve que concordar com esse argumento. Esses rapazes sabiam cavalgar e fazer lindos desfiles pelo castelo, mas não tinham a mínima prática em confrontos sangrentos e, certamente, seriam vítimas das atrocidades daqueles bárbaros guerreiros, isso ficou bastante evidente a toda corte quando viram como o soldado se comportou, imagine então um exército de tipos como aquele. Que barbaridade e fatalidade se aproximavam daquele lugar que até então exalava paz e tranquilidade. O rei não sabia o que fazer. 

No final do segundo dia, em conferência com seus ministros e conselheiros nenhuma solução foi encontrada e todos prenunciavam um desfecho sangrento, caso o rei não cedesse às exigências do aventureiro. No terceiro dia, os guardas do castelo avistaram um grande contingente de soldados, todos fortemente armados que cercaram todo palácio. Na frente desse exército um homem de aspecto igualmente rude, seguro e determinado conduzia um cavalo majestoso, parou diante dos portões do castelo e levantou a mão fazendo com que todos os soldados também parassem. Parecia que esses homens estavam acostumados com manobras desse tipo e diante da perplexidade e medo de todos os súditos que foram verificar aquela ameaça, constataram que uma grande tragédia estava prestes a acontecer. O desespero tomou conta de todo o povo. Antes que o terror de fato se instalasse no reino, a princesa que também presenciava toda essa movimentação, surgiu no meio do povo e se dirigiu ao portão, consciente de que essa seria a única solução possível. 

O rei desolado e a rainha em prantos não conseguiram demover a determinação de sua filha. Era preciso encontrar outra alternativa, mas não havia outra possibilidade. 

O guerreiro então aproximou-se das ameias e gritou, demonstrando grande força e determinação, acostumado a mandar e ser obedecido: 

O prazo concedido está chegando ao fim. Logicamente que vocês não têm a mínima chance diante do meu poderoso exército composto por soldados acostumados com a arte da guerra e vencedores em inúmeras batalhas. Desistam e me entreguem a princesa que deixarei todos vivos, escolham outra alternativa e não deixarei pedra sobre pedra e todos morrerão e mesmo assim levarei a princesa comigo, disso não abro mão! 

Que angústia que os pais sentiram naquele momento, os súditos embora tivessem grande apreço pela princesa, colocavam em suas mãos a salvação de suas vidas. 

A princesa parecia mais forte do que nunca, sua beleza irradiava e diante de sua serenidade, mesmo brevemente, o rei quiz acreditar que diante de tamanho infortúnio o sacrifício de sua filha poderia poupar muitas vidas. Ela então encaminhou-se até os portões e com um gesto pediu que fossem abertos, as pessoas com os olhos cheios de água abriram caminho para ela. Ela não esboçou nenhum gesto e nenhuma palavra saiu de seus lábios, seus pais que a conheciam tão bem entenderam ou julgaram ouvir: 

Confiem em mim! 

E acreditando nisso não conseguiram mais impedi-la. A princesa caminhou então em direção à tropa extasiada e parou a frente do guerreiro que ficou sem palavras diante de sua beleza. Era ainda mais linda do que haviam lhe dito. 

Imediatamente um soldado trouxe um cavalo ricamente adornado e a princesa com grande desenvoltura, pois aprendera a cavalgar com seu pai, montou-o e seguiu ao lado do poderoso guerreiro para um novo destino, deixando atrás de si um rastro de poeira que se ergueu aos céus, tal era a quantidade de soldados que seguiam o poderoso comandante e assim todo o ercito, precedido pelo guerreiro e a princesa se perderam no horizonte. Sabe-se lá para onde iriam e o que seria da princesa dali em diante.  

Nesse dia em todo o reino os comentários eram sobre a coragem e a determinação da princesa que além de amada por todos era agora admirada como uma grande heroína responsável por salvar todo o reino com sua determinação e coragem. 

Os dias passaram muito tristes para os pais da princesa que lamentavam o trágico destino de sua filha, pensando se algum dia tornariam a vê-la novamente. 

Por outro lado, caminhando lado a lado da princesa o guerreiro passou a admirá-la cada vez mais, já tinha ouvido falar de sua beleza, mas agora tão próxima de seu alcance podia perceber melhor a cor de seus olhos amendoados, chegava a sentir o cheiro inebriante de seus cabelos que soltos balançavam ao vento e também com que destreza dominava o cavalo, imaginando que muitos dos seus homens acostumados a cavalgar tão bem, não se comparavam a ela que conseguia dominar com elegância e desenvoltura a sua montaria.  

O guerreiro tão poderoso e destemido foi se apaixonando pela princesa e se rendendo aos seus encantos, embora ela ainda não houvesse pronunciado nenhuma palavra durante toda a caminhada. Os papéis começaram a se inverter, o poderoso guerreiro, sem ainda admitir estava se tornando prisioneiro daquela jovem. 

Depois de muitas horas de cavalgada a comitiva chegou em um imenso palácio, muito maior do que o de seu país, com muitos outros soldados que esperavam seu mestre voltar de mais uma batalha vitoriosa e entre gritos e saudações, todos entraram dentro do castelo, cumprimentando e exaltando o seu mestre que mais uma vez retornara triunfante de mais confronto, trazendo para casa o aguardado troféu tão desejado por ele e que era de conhecimento de todos os seus homens: a linda princesa. 

O tosco guerreiro não sabia o que fazer para agradá-la, pediu que escolhesse o quarto que quisesse e colocou à sua disposição uma infinidade de roupas, vestidos, joias, perfumes e incensos, várias aias lhe serviriam e fariam tudo o que quisesse, o que melhor possuía lhe foi oferecido, mas ela continuou sem falar uma única palavra sequer. 

Talvez tenha sido o cansaço da exaustiva viagem, ainda não estaria acostumada com o novo lugar, embora o rude tenha falado mais de uma vez que aquele seria a sua casa dali em diante e que tudo, absolutamente tudo o que desejasse, seria providenciado e ai daquele que se atrevesse a contrariá-la, pagaria com a vida. Lá naquele palácio ela seria a rainha e reinaria junto dele. 

Os dias foram passando, a princesa aceitou algumas vestes, evitou as joias e os presentes oferecidos, passeava pelos corredores do palácio, perseguida pelo olhar do guerreiro que cada dia ficava mais fascinado por sua beleza e altivez. Acostumado a ser reverenciado e obedecido estranhou que a princesa recusasse seus presentes e se negasse a lhe dirigir uma única palavra sequer. Foi então perguntar às empregadas se já tinham ouvido a princesa falar alguma coisa. 

Meu senhor, a princesa permanece o tempo todo muda como uma pedra, mas durante o banho, quando nos faz um gesto para sair, sozinha, ouvimos ela cantar uma música muito linda que nos faz chorar de emoção. 

Aquela conversa deixou o guerreiro mais interessado do que nunca e ele também quiz ouvir essa canção. No dia seguinte escondendo-se atrás de um grande vaso esperou a princesa mergulhar na banheira e ouviu a aguardada canção. Realmente elas tinham razão, a voz da princesa era encantadora e a música entorpeceu seus ouvidos de tal maneira, que mesmo ele, acostumado as vilanias e brutalidades das batalhas se comoveu e não conseguiu conter uma lágrima que escorreu em sua face. 

Assim todos os dias o guerreiro se escondia para ouvir a voz de sua princesa a quem amava cada vez mais. O rude senhor foi se transformando dia a dia. 

Também se tornou mais polido, começou a se vestir melhor, não gritava mais com os soldados e serviçais e quando se aproximava da princesa tentava ser gentil presenteá-la com alguma joia, a qual ela elegantemente continuava recusando, mas se antes esse tipo de gesto o enfurecia, o apaixonado guerreiro simplesmente recolhia o mimo e pensava qual seria o presente que ela finalmente aceitaria. 

Sem perceber a princesa também estava gostando daquele bruto que com o passar do tempo lhe surpreendia com modos mais delicados e atitudes mais agradáveis, embora ainda não lhe dirigisse nenhuma palavra. Aquele silêncio transtornava o guerreiro, ele que já havia vencido tantas batalhas era agora refém daquela mulher e que aguardava ansioso pela hora do seu banho em que podia ouvi-la cantar, mesmo escondido.  

Um dia, a princesa em seu ritual começou a se banhar, mas percebeu que atrás do vaso um vulto se mexia, logo intuiu que só podia ser o seu feitor, mas continuou cantando como nada tivesse percebido. Foi então que o guerreiro resolveu insistir e lhe perguntou: 

Porque você nunca fala comigo, ainda tem dentro do seu coração um ódio tão grande que me castiga me privando de ouvir a sua voz? Não percebe como me aprisionou no teu coração, não notou o quanto mudei? 

A princesa não expressou um único comentário, mas o olhou de um modo tão terno que ela mesmo se surpreendeu, nesse momento percebeu que alguma coisa dentro dela também havia se transformado e imaginou que o seu destino estava prestes a ser novamente transformado.  

O guerreiro tosco e autoritário estava se transformando também, não exigia nada dela além do que ela mesma pudesse oferecer e daquele dia em diante a princesa começou a aceitar alguns presentes e esboçava um pequeno sorriso que garantia ao guerreiro a satisfação de mais uma batalha vencida, pois acreditava que estava conseguindo domar o coração de sua amada. Essa por sua vez, sabendo que era observada enquanto tomava banho, experimentava outras canções que muito encantavam o seu ouvinte. Sem se darem conta, os corações de ambos estavam conversando através da música que cantavam. 

Uma vez, passeando pelos corredores do palácio a princesa ouviu uma melodia conhecida e se aproximando mais de perto viu que era o poderoso guerreiro que a cantava, ele aprendera a letra da música e mesmo desafinado entoava com tanta emoção que fez a princesa chorar de alegria. 

Um dia durante o banho a princesa como de costume começou a cantar e o guerreiro ouvindo-a começou a acompanhá-la, fazendo soar sua voz para que ela também o ouvisse, quando ambos perceberam que estavam cantando a mesma música e ao mesmo tempo, foi como se um grande véu se abrisse e a partir daí eles começaram a conversar, primeiro através das músicas e depois com palavras e juras de amor. 

Talvez vocês queiram saber o que modificou o coração cruel do guerreiro? Foi o silêncio da princesa que ele soube respeitar e aos poucos foi se traduzindo em música que ele pacientemente ouvia e tentava repetir, assim começaram a se entender e se conhecer, passaram então a falar a mesma língua através do coração, pela voz do coração, a linguagem da aceitação, a linguagem do amor. 

  

 

 

 Médico Escolar – Dr. José Carlos Machado www.mediconaescola.com acompanhe também nosso canal no YouTube: https://www.youtube.com/user/medicinaescolar  e Insta:@anthttps://www.blogger.com/about/rhttps://www.blogger.com/about/antroposofiaemdia / @antroposofiaemdia / podcast (spotify) Tudo aquilo que as crianças gostariam que seus pais soubessem

 

terça-feira, 14 de maio de 2024

A MENINA SEM PALAVRA - Mia Couto (conto)






A MENINA SEM PALAVRA - conto

Mia Couto




A menina não palavreava. Nenhuma vogal lhe saía, seus lábios se ocupavam só em sons que não somavam dois nem quatro. Era uma língua só dela, um dialecto pessoal e intransmissível? Por muito que se aplicassem, os pais não conseguiam percepção da menina. Quando lembrava as palavras ela esquecia o pensamento. Quando construía o raciocínio perdia o idioma. Não é que fosse muda. Falava em língua que nem há nesta atual humanidade. Havia quem pensasse que ela cantasse. Que se diga, sua voz era bela de encantar. Mesmo sem entender nada as pessoas ficavam presas na entonação. E era tão tocante que havia sempre quem chorasse.

Seu pai muito lhe dedicava afeição e aflição. Uma noite lhe apertou as mãozinhas e implorou, certo que falava sozinho:

— “Fala comigo, filha!”

Os olhos dele deslizaram. A menina beijou a lágrima. Gostoseou aquela água salgada e disse:

— “Mar”…

O pai espantou-se de boca e orelha. Ela falara? Deu um pulo e sacudiu os ombros da filha. “Vês, tu falas, ela fala, ela fala!” Gritava para que se ouvisse. “Disse mar, ela disse mar”, repetia o pai pelos aposentos. Acorreram os familiares e se debruçaram sobre ela. Mas mais nenhum som entendível se anunciou.

O pai não se conformou. Pensou e repensou e elaborou um plano. Levou a filha para onde havia mar e mar depois do mar. Se havia sido a única palavra que ela articulara em toda a sua vida seria, então, no mar que se descortinaria a razão da inabilidade.

A menina chegou àquela azulação e seu peito se definhou. Sentou-se na areia, joelhos interferindo na paisagem. E lágrimas interferindo nos joelhos. O mundo que ela pretendera infinito era, afinal, pequeno? Ali ficou simulando pedra, sem som nem tom. O pai pedia que ela voltasse, era preciso regressarem, o mar subia em ameaça.

— “Venha, minha filha!”

Mas a miúda estava tão imóvel que nem se dizia parada. Parecia a águia que nem sobe nem desce: simplesmente, se perde do chão. Toda a terra entra no olho da águia. E a retina da ave se converte no mais vasto céu. O pai se admirava, feito tonto: por que razão minha filha me faz recordar a águia?

— “Vamos filha! Caso senão as ondas nos vão engolir”.

O pai rodopiava em seu redor, se culpando do estado da menina. Dançou, cantou, pulou. Tudo para a distrair. Depois, decidiu as vias do facto: meteu mãos nas axilas dela e puxou-a. Mas peso tão toneloso jamais se viu. A miúda ganhara raiz, afloração de rocha?

Desistido e cansado, se sentou ao lado dela. Quem sabe cala, quem não sabe fica calado? O mar enchia a noite de silêncios, as ondas pareciam já se enrolar no peito assustado do homem. Foi quando lhe ocorreu: sua filha só podia ser salva por uma história! E logo ali lhe inventou uma, assim:

Era uma vez uma menina que pediu ao pai que fosse apanhar a lua para ela. O pai meteu-se num barco e remou para longe. Quando chegou à dobra do horizonte pôs-se em bicos de sonhos para alcançar as alturas. Segurou o astro com as duas mãos, com mil cuidados. O planeta era leve como um baloa.

Quando ele puxou para arrancar aquele fruto do céu se escutou um rebentamundo. A lua se cintilhaçou em mil estrelinhações. O mar se encrespou, o barco se afundou, engolido num abismo. A praia se cobriu de prata, flocos de luar cobriram o areal. A menina se pôs a andar ao contrário de todas as direções, para lá e para além, recolhendo os pedaços lunares. Olhou o horizonte e chamou:

— “Pai!”

Então, se abriu uma fenda funda, a ferida de nascença da própria terra. Dos lábios dessa cicatriz se derramava sangue. A água sangrava? O sangue se aguava? E foi assim. Essa foi uma vez.

Chegado a este ponto, o pai perdeu voz e se calou. A história tinha perdido fio e meada dentro da sua cabeça. Ou seria o frio da água já cobrindo os pés dele, as pernas de sua filha? E ele, em desespero:

— “Agora, é que nunca”.

A menina, nesse repente, se ergueu e avançou por dentro das ondas. O pai a seguiu, temeroso. Viu a filha apontar o mar. Então ele vislumbrou, em toda extensão do oceano, uma fenda profunda. O pai se espantou com aquela inesperada fractura, espelho fantástico da história que ele acabara de inventar. Um medo fundo lhe estranhou as entranhas. Seria naquele abismo que eles ambos se escoariam?

— “Filha, venha para trás. Se atrase, filha, por favor”…

Ao invés de recuar a menina se adentrou mais no mar. Depois, parou e passou a mão pela água. A ferida líquida se fechou, instantânea. E o mar se refez, um. A menina voltou atrás, pegou na mão do pai e 0 conduziu de rumo a casa. No cimo, a lua se recompunha.

— “Viu, pai? Eu acabei a sua história!”

E os dois, iluminados, se extinguiram no quarto de onde nunca haviam saído.

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DIAS PERFEITOS (resenha de filme)









DIAS PERFEITOS (resenha de filme)

Diretor - Wim Wenders
Roteiro - Wim Wenders e Takayuki Takuma
Produção - Alemanha/Japão
Elenco -  Koji Yakusho, Tokio Emoto, Aoi Yamada, Arisa Nakano, Saiuri Ishikawa
Duração - 02h:05m
2023


Esse belíssimo filme acompanha o cotidiano de Hirayama, interpretado por Koji Yakusho, um homem de meia idade que vive em um pequeno sobrado cuidando de suas plantas e com uma rotina que inclui seu trabalho como zelador, limpando banheiros públicos na cidade de Tóquio, das fotos que tira das árvores, das músicas que ouve no rádio do carro, dos banhos após sua rotina de trabalho e dos mesmos lugares que frequenta.
Sua vida é metódica e rotineira.
Encontros inesperados acontecem em sua vida como a visita de sua sobrinha e de outros personagens que interferem em sua vida, revelando um pouco de seu passado, mas nada parece transformá-lo integralmente.
Não se trata de glorificar a rotina extenuante do dia-a-dia ou simplesmente romantizá-la, mas trazer através do olhar de Hirayama a dignidade de seu trabalho e na observação dos diversos aspectos que a cidade e seus personagens representam e incorporam.
Em seu pequeno apartamento, um sobrado onde ele vive repetindo diariamente seus afazeres domésticos: arrumando a cama após levantar-se, escovando os dentes em uma minúscula cozinha, escolher o seu café da manhã, até entrar em seu carro e dirigir-se para sua atividade escolhendo uma música que o acompanha nesse trajeto.
Aliás a trilha sonora que inclui Patti Smith, Rolling Stones, Lou Reed, Nina Simone; é primorosa, assim como a fotografia de Franz Lustig que emoldura várias cenas com uma luminosidade especial.
Os conflitos ocasionais que surgem na vida do personagem principal parecem que não atrapalham seu mundo interior e que, aparentemente, consegue suportar.
O grande destaque desse filme se deve ao premiado ator japonês Koji Yakusho que transmite ao seu personagem uma gentileza e dignidade em sua tarefa diária, contemplando o céu a cada manhã antes de entrar em seu carro rumo ao trabalho.
Um filme envolvente e muito significativo que oferece um olhar meditativo e resiliente diante da crueldade do mundo que Hirayama parece conhecer tão bem.
 



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segunda-feira, 13 de maio de 2024

DILEMAS NA EDUCAÇÃO - Novas Gerações, Novos Desafios - Alcione Marques e Gustavo M. Estanislau - resenha de livro








DILEMAS NA EDUCAÇÃO - Novas Gerações, Novos Conflitos

Alcione Marques
Gustavo M. Estanislau

Grupo Autêntica - São Paulo, 2023
299 páginas

Para todos aqueles que trabalham em escola, lidam com crianças e jovens e percebem como as relações se encontram cada vez menos formais, mais horizontais e extremamente conflitantes, sobretudo, diante de tantos desafios que a atualidade impõe (liberdade sexual, drogas, bullying, comportamentos autodestrutivos, saúde mental, etc.), por sua abrangência e importância trata-se de leitura obrigatória.
A pedagoga Alcione Marques e o psiquiatra da infância e adolescência Gustavo Estanislau à frente de um grupo de especialistas propõem uma reflexão sobre o atual papel da escola e sobre o modelo de ensino que temos disponível e questionam sobre a autoridade do professor  e como isso se estabelece diante de tantos conflitos na relação com os alunos.
A construção da autonomia e a aprendizagem, A construção da autoridade na escola, Saúde Mental do professor, são alguns dos 11 temas abordados nesse livro. E através de relatos de professores sobre o tema em questão trazem reflexão sugerindo propostas e possibilidades.
Outros especialistas convidados: pedagogos, psicólogos e psiquiatras contribuem com observações, analisando os conflitos apresentados cada vez mais comuns que enfrentamos hoje no ambiente escolar.





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quinta-feira, 2 de maio de 2024

A FOGUEIRA - Mia Couto (conto)







A FOGUEIRA (conto)

Mia Couto



A velha estava sentada na esteira, parada na espera do homem saído no mato. As pernas sofriam o cansaço de duas vezes: dos caminhos idosos e dos tempos caminhados. A fortuna dela estava espalhada pelo chão: tigelas, cestas, pilão. Em volta era o nada, mesmo o vento estava sozinho. 
O velho foi chegando, vagaroso como era seu costume. Pastoreava suas tristezas desde que os filhos mais novos foram na estrada sem regresso. “Meu marido está diminuir”, pensou ela. “É uma sombra.” Sombra, sim. Mas só da alma porque o corpo quase que não tinha. 
O velho chegou mais perto e arrumou a sua magreza na esteira vizinha. Levantou o rosto e, sem olhar a mulher, disse: — Estou a pensar. — É o quê, marido? — Se tu morres como é que eu, sozinho, doente e sem as forças, como é que eu vou lhe enterrar? Passou os dedos magros pela palha do assento e continuou: — Somos pobres, só temos nadas. Nem ninguém não temos. É melhor começar já a abrir a tua cova, mulher. 
A mulher, comovida, sorriu: — Como és bom marido! Tive sorte no homem da minha vida. O velho ficou calado, pensativo. Só mais tarde a sua boca teve ocasião: — Vou ver se encontro uma pá. — Onde podes levar uma pá? — Vou ver na cantina. — Vais daqui até na cantina? É uma distância. — Hei de vir da parte da noite. 
Todo o silêncio ficou calado para ela escutar o regresso do marido. Farrapos de poeira demoravam o último sol, quando ele voltou. — Então, marido? — Foi muito caríssima — e levantou a pá para melhor a acusar. — Amanhã de manhã começo o serviço de covar. E deitaram‑se, afastados. Ela, com suavidade, interrompeu‑lhe o adormecer: — Mas, marido... — Diz lá. — Eu nem estou doente. — Deve ser que estás. Você és muito velha. — Pode ser — concordou ela. E adormeceram. 
Ao outro dia, de manhã, ele olhava‑a intensamente. — Estou a medir o seu tamanho. Afinal, você é maior que eu pensava. — Nada, sou pequena. Ela foi à lenha e arrancou alguns toros.  — A lenha está para acabar, marido. Vou no mato levar mais. — Vai mulher. Eu vou ficar a covar seu cemitério. 
Ela já se afastava quando um gesto a prendeu à capulana e, assim como estava, de costas para ele, disse: — Olha, velho. Estou pedir uma coisa... — Queres o quê? — Cova pouco fundo. Quero ficar em cima, perto do chão, tocar a vida quase um bocadinho. — Está certo. Não lhe vou pisar com muita terra. 
Durante duas semanas o velho dedicou‑se ao buraco. Quanto mais perto do fim mais se demorava. Foi de repente, vieram as chuvas. A campa ficou cheia de água, parecia um charco sem respeito. O velho amaldiçoou as nuvens e os céus que as trouxeram. — Não fala asneiras, vai ser dado o castigo — aconselhou ela. Choveram mais dias e as paredes da cova ruíram. O velho atravessou o seu chão e olhou o estrago. Ali mesmo decidiu continuar. Molhado, sob o rio da chuva, o velho descia e subia, levantando cada vez mais gemidos e menos terra. — Sai da chuva, marido. Você não aguenta, assim. — Não barulha, mulher — ordenou o velho. 
De quando em quando parava para olhar o cinzento do céu. Queria saber quem teria mais serviço, se ele se a chuva. No dia seguinte o velho foi acordado pelos seus ossos que o puxavam para dentro do corpo dorido. — Estou a doer‑me, mulher. Já não aguento levantar. A mulher virou‑se para ele e limpou‑lhe o suor do rosto. — Você está cheio com a febre. Foi a chuva que apanhaste. — Não é, mulher. Foi que dormi perto da fogueira. — Qual fogueira? Ele respondeu um gemido. A velha assustou‑se: - qual o fogo que o homem vira? Se nenhum não haviam acendido? 
Levantou‑se para lhe chegar a tigela com a papa de milho. Quando se virou já ele estava de pé, procurando a pá. Pegou nela e arrastou‑se para fora de casa. De dois em dois passos parava para se apoiar. — Marido, não vai assim. Come primeiro. Ele acenou um gesto bêbado. A velha insistiu: — Você está esquerdear, direitar. Descansa lá um bocado. Ele estava já dentro do buraco e preparava‑se para retomar a obra. A febre lhe castigava a teimosia, as tonturas dançando com os lados do mundo. De repente, gritou‑se num desespero: — Mulher, ajuda‑me. Caiu como um ramo cortado, uma nuvem rasgada. A velha acorreu para o socorrer. — Estás muito doente. Puxando‑o pelos braços ela trouxe‑o para a esteira. Ele ficou deitado a respirar. A vida dele estava toda ali, repartida nas costelas que subiam e desciam. 
Neste deserto solitário, a morte é um simples deslizar, um recolher de asas. Não é um rasgão violento como nos lugares onde a vida brilha. — Mulher — disse ele com voz desaparecida. — Não lhe posso deixar assim. — Estás a pensar o quê? — Não posso deixar aquela campa sem proveito. Tenho que matar‑te. — É verdade, marido. Você teve tanto trabalho para fazer aquele buraco. É uma pena ficar assim. — Sim, hei de matar você; hoje não, falta‑me o corpo. Ela ajudou‑o a erguer‑se e serviu‑lhe uma chávena de chá. — Bebe, homem. Bebe para ficar bom, amanhã precisas da força. O velho adormeceu, a mulher sentou‑se à porta. Na sombra do seu descanso viu o sol vazar, lento rei das luzes. Pensou no dia e riu‑se dos contrários: ela, cujo nascimento faltara nas datas, tinha já o seu fim marcado. Quando a lua começou a acender as árvores do mato ela inclinou‑se e adormeceu. Sonhou dali para muito longe: vieram os filhos, os mortos e os vivos, a machamba encheu‑se de produtos, os olhos a escorregarem no verde. O velho estava no centro, engravatado, contando as histórias, mentira quase todas. Estavam ali os todos, os filhos e os netos. Estava ali a vida a continuar‑se, grávida de promessas. 
Naquela roda feliz, todos acreditavam na verdade dos velhos, todos tinham sempre razão, nenhuma mãe abria a sua carne para a morte. 
Os ruídos da manhã foram‑na chamando para fora de si, ela negando abandonar aquele sonho, pediu com tanta devoção como pedira à vida que não lhe roubasse os filhos. Procurou na penumbra o braço do marido para acrescentar força naquela tremura que sentia. Quando a sua mão encontrou o corpo do companheiro viu que estava frio, tão frio que parecia que, desta vez, ele adormecera longe dessa fogueira que ninguém nunca acendera.



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quarta-feira, 1 de maio de 2024

EM BUSCA DA PRÓPRIA E VERDADEIRA NATUREZA. (conto)

Heinrich Zimmer
Philosophies of India
Tradução - Maria Luci Buff Migliori.
Associação Palas Athena do Brasil - série Encontros 1 (DHARMA) - São Paulo - 1985



Um filhote de tigre que havia sido criado entre cabras, mas que, através da clarificadora instrução de um mestre espiritual, chegou a dar-se conta de sua própria e insuspeitada natureza. 
Sua mãe havia morrido ao dar-lhe a luz. Prenhe, ela havia vagado muitos dias sem descobrir presa alguma, quando deparou-se com um rebanho de cabras selvagens. A tigresa sentia então grande voracidade, a qual pôde explicar a violência de seu salto. Seja como for, o esforço realizado lhe ocasionou o parto e de puro esgotamento, morreu.
então as cabras, que se tinham dispersado ao verem a tigresa, regressaram ao campo de pastoreio e acharam o tigrezinho dando leves gemidos ao lado do corpo da sua mãe. As cabras adotaram a débil criatura abandonada e por pura compaixão maternal, amamentaram-na junto com suas próprias crias e cuidaram dela carinhosamente. 
O filhote cresceu e os cuidados que haviam dispensado a ele não ficaram sem recompensa, pois o pequeno aprendeu a linguagem das cabras, adaptou sua voz aos suaves berros e demonstrou tanto afeto como qualquer cabrito o faria. No princípio, teve certas dificuldades quando se pôs a mastigar tenras ervas do pasto com seus dentes pontiagudos, mas logo se acostumou.
A dieta vegetariana deixava-o muito fraco e dava ao seu temperamento, notável doçura.
Uma noite - quando este tigrezinho que havia vivido até então entre cabras já tina alcançado a idade da razão - o rebanho foi atacado novamente, dessa vez por um velho e feroz tigre. E, novamente, as cabras se dispersaram, mas o filhote permaneceu onde estava, sem temor algum.
Desde logo sentiu-se surpreso, ao perceber-se face a face com uma terrível criatura da selva que nunca antes havia visto, contemplando o desconhecido com estupor.
Passado o primeiro momento, voltou a recobrar a consciência de si e, dando um berro de desespero, arrancou uma erva e se pôs a mastigá-la enquanto o velho tigre lhe cravava um olhar feroz e intimidador.
De repente o intruso lhe perguntou:
- O que fazes entre as cabras? O que estás mastigando?
A pobre criatura começou novamente a soltar berros. O velho tigre tomou um aspecto realmente aterrador. Rugiu e depois disse:
- Por que fazes esse ruído ridículo?
E antes que o pequeno pudesse responder, pegou-o asperamente pela nuca e sacudiu-o como se quisesse voltá-lo às suas origens à força de pancadas.
O tigre da selva carregou o assustado filhote até um charco próximo e o colocou no chão, obrigando-o a olhar a superfície iluminada pela lua.
- Olhe essas duas caras, não são iguais? Tens a cara redonda de um tigre como eu. Por que acreditas ser uma cabra? Por que berravas como uma cabra? Por que comias pasto?
O pequeno era incapaz de contestar, mas continuava olhando, comparando ambos os reflexos. Então ficou nervoso: apoiava-se em uma pata, depois em outra e deu um grito lamurioso de pesar. O velho tigre mais feroz que antes, levantou-o de novo e o arrastou até sua toca, onde lhe ofereceu um pedaço de carne crua e sangrenta, resto de uma refeição anterior. O filhote estremeceu de repugnância. O tigre da selva, fazendo pouco caso do débil berro de protesto, ordenou secamente:
- Pegue-a, mastigue-a e engula-a!
O filhote resistiu, mas o velho tigre obrigou-o a passá-la por seus dentes semicerrados e ficou atentamente vigiando enquanto o tigrezinho tratava de mastigá-la e engoli-la. A crueza da carne não lhe era familiar e produzia nele certa dificuldade, visto que comia até então ervas e capim. O pequeno estava para soltar o seu berro mais uma vez quando a sentir o gosto do sangue. Perplexo, pegou o resto com avidez. Sentia um raro e inusitado prazer à medida que a carne descia ao seu estomago e uma força estranhamente cálida envolveu suas entranhas permeando todo seu corpo, estimulando-o e embriagando-o.
um novo sabor despertou em seus lábios e se lambeu prazerosamente aproveitando cada gota de sangue. 
Aprumou-se e abriu a boca para dar um grande bocejo, como se estivesse  despertando de uma noite de sono, uma noite que o deixara enfeitiçado durante vários anos. 
Espreguiçando-se arqueou o lombo e esticou as patas abrindo as garras. O seu rabo fustigava o solo e, de repente, de sua garganta estalou o terrível rugido de tigre.
O severo mestre observava tudo isto com crescente satisfação.
De fato, a transformação havia ocorrido.
- Sabes agora quem és? - Pergunta.
E para completar a iniciação do jovem discípulo no saber secreto de sua própria e verdadeira natureza, acrescentou:
- Vem, agora iremos caçar juntos pela selva!





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O PALÁCIO E A POUSADA - Ilan Brenman (conto indiano)






O PALÁCIO E A POUSADA (conto indiano)

Ilan Brenman
As 14 pérolas da Índia
Editora Escarlate - São Paulo - 2019
58 páginas

Na cidade de Agra, local que séculos mais tarde abrigaria o Taj Mahal (palácio construído pelo imperador Chah Jahan para homenagear a beleza de sua amada esposa, Mumtz Mahal), um asceta, homem simples, frugal, dedicado à busca da verdade, bateu na porta de um suntuoso palácio.
Dois soldados abriram a porta, olharam o asceta e perguntaram:
- O que você quer aqui?
- Digam ao rei que quero pernoitar na sua pousada. Respondeu o asceta, que mais parecia um mendigo faminto.
Os soldados começaram a rir e tentaram expulsar aquele homem da frente do palácio.
O asceta permaneceu imóvel, repetindo todo o tempo que queria dormir na pousada do rei.
Dali a pouco, o chefe dos soldados se aproximou e perguntou o que estava havendo.
Ao ouvir a resposta, decidiu comunicar o ocorrido ao próprio rei.
O soberano que se divertiu com essa história, talvez por distração, foi pessoalmente falar com o asceta.
- Quem é o homem que tem a coragem de chamar o meu palácio de pousada? - Bradou o rei diante do asceta.
Muito sereno o homem perguntou:
- De quem era este lugar antes de ser seu, majestade?
- De meu pai. - Respondeu o rei.
- E antes de seu pai, de quem era? - Prosseguiu o asceta.
-Do meu avô.
- E antes dele, de quem era?
- Do meu bisavô.
- E onde se encontram todos esses de que Sua Majestade falou?
O rei, parecendo murchar, respondeu:
- Estão todos mortos.
- Portanto, a construção que estou vendo é um local de passagem. Esse tipo de lugar nós chamamos de pousada.
O rei percebeu o grande sábio que se escondia atrás daquela aparência miserável e, humildemente, convidou o asceta para pernoitar na sua pousada.



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O CORAÇÃO DO MENINO E O MENINO DO CORAÇÃO - Mia Couto (conto)
















O CORAÇÃO DO MENINO E O MENINO DO CORAÇÃO (conto)

Mia Couto
A menina sem palavra - (Histórias de Mia Couto) - livro
Boa Companhia/Editora Schwarcz S.A. - São Paulo - 2015


 O miúdo nasceu com as acertadas aparências. Só em altura de ensaiar primeiras marchas lhe notaram o defeito, o enviesamento nos pezinhos, cada um não sendo como cada qual. Sobre as pegadas estrábicas a avó vaticinou: - Este vai caminhar para dentro dele mesmo. Depois outra malconveniência se somou: o rapaz engrumava as falas, tatebitudo. Os outros não entendiam mais que cuspes e assobios, até os parentes o escutavam com riso parvo de quem finge concordância. Não há medo maior que não se entender humana a voz de outra humana pessoa. A mãe conduziu a criança ao hospital. O doutor lhe mergulhou o ouvido no peito e se ensurdeceu de tanto coração. O menino tinha o pulsar à flor da pele. O médico parecia entusiasmado com o inédito do caso. - Necessitamos que ele fique, para mais exames… - Nem pensar. Esse menino entrou comigo, há de sair comigo. -Mas a senhora nem faz ideia… temos de encontrar um nome para a doença dele. -Como um nome? -Essa doença: eu tenho que lhe encontrar um nome! - Mas esse nome, será que esse nome vai curar a doença dele? O médico sorriu. Ai, essa gentinha simples, tão exímia em ser pensada pelos outros. E assim, sorriso descaindo no lábio, ficou olhando mãe e filho se afastarem no corredor. O menino levava em sua mão, descaída como pétala, uma carta que ele mesmo redigira. Queria ter dado ao doutor esse papelinho que sua inabilidade enchera de letrinha. Com desatenta ternura, a mãe lhe tirou o papel dos dedos e o lançou no latão. A mania desse mirabolhante! Deveria ser outra dessas tantíssimas cartas que o tontinho fingia escrever para sua apaixonada priminha. -Você ainda se carteia com Marlisa? O menino negou com veemência. A mãe sacudiu a cabeça. Enfim, quanto ela se esforçara em vão. Valera a pena insistir ensinamentos em quem nunca aprendera? Também Marlisa, a visada sobrinha, jamais cedera a abrir tais cartas. Nem valia a pena espreitar a caligrafia do atarantonto. Uns andam na lua. No caso, a lua é que andava nele. Certa vez, o rabiscador daqueles engatafunhos desabou no fundo do tempo. O menino faleceu, em azulidão de pele, todo frio como se nenhuma luz dele tivesse vontade. Os médicos acorreram para levar o corpo e lhe administrarem a extrema-autópsia. Lhe arrancaram o coração, o universátil músculo, enormíssimo como um planeta carnudo. O órgão ficou em vitrina, exposto às ciências e aos noticiários. Os cardiologistas disputavam, em sucessivos colóquios, um apropriado nome para baptizar a anormalidade. Passaram-se os dias, anónimos. Era um fim de tarde, a prima Marlisa, ao arrumar as poeiras da casa, deparou com o monte de inúteis cartas. Sopesou-as antes de as lançar ao fogo. Hesitou por um segundinho: o moço sabia abecedar uma simples linha? Pelo sim pelo talvez, ela se aventurou a espreitar o primeiro envelope. E ali se sentou em espanto, ruga na fronte, mãos enrolando um demorado cabelo. Ficou horas, no assentado degrau. Aquilo não eram cartas mas versos de lindeza que nem cabiam no presente mundo. Marlisa inundou a tristeza, tingiram-se as letras. Quanto mais a prima primava em seguir leitura mais rimava com nenhuma outra mulher, toda ela fora do contexto de existir. A moça se apaixonava postumamente? Mas ali, arremessada na escada, nem Marlisa imaginava o que, no simultâneo tempo, se passava com o coração do primo que Deus e a ciência guardavam. Pois que, na vitrina gelada do Hospital, mal se resgou o primeiro envelope, o coração do primo deflagrou em sobressalto. Um oh se estilhaçou nos visitantes. E à medida que Marlisa, mais longe que mil paredes, ia desfolhando versos, o coração mais se desembrulhava, tremelusco-fuscando. Até que, daquele novelo vermelho, se viu desprender um braço, mais adiante um pé e a redondez de um joelho e mais argumentos que faziam valer o facto: aquele coração estava em flagrante serviço de parto! E se confirmava, vinda das entranhas do útero cardíaco, uma total recém criança. E quando, finalmente, o parto se desfechou se viu que o menino nascera igual ao seu progenitor de peito. Fazia medo como um quimicava o outro a papel chapado. Em tudo se semelhavam menos no desenho do pé. Os pés do nascido eram divergentes, como quem viesse para procurar, fora de si, gente de outras estórias. 

Vocabulário:

 Enviesamento: ato ou efeito de (se) enviesar. (De enviesar+-mento) Enviesar: fazer ou pôr em viés, cortar em oblíquo. 
Exímia: que destaca pelas suas qualidades, que revela grande destreza, habilidade, perfeição. 
Veemência: com ímpeto, com intensidade, com força à hora de expressar opiniões ou sentimentos. 
Acaloradamente ou apaixonadamente. 
Visada: que se citou ou mencionou, referido. 
Primar: ser o primeiro, destacar-se, esmerar-se. (De primo+-ar).
Flagrante: praticado no próprio momento em que se é surpreendido, evidente, incontestável Divergente: discordante, que diverge.
Quimicava: um e outro se entendem



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A PERGUNTA (conto indiano)

Hazrat Inayat Khan (recontado por Regina Machado)

O violino cigano e outros contos de mulheres sábias
Regina Machado
Ilustrações - Joubert
Ed. Seguinte. São Paulo
2017
130 páginas



Num certo país bem distante daqui, havia um costume que era considerado como uma lei para os habitantes daquele lugar: ninguém podia passar na frente de uma pessoa se ela estivesse rezando. Não se sabe a origem ou causa de tal proibição, mas isso não vem ao caso na nossa história que começa numa bela manhã de sol, em uma praça no meio de uma importante cidade daquele país.
Um homem religioso sentou-se num canto da praça e preparou-se para começar suas orações. Bem naquele momento, uma jovem surgiu na praça caminhando apressadamente na direção do santo homem e acabou passando diante dele, distraída, com a respiração ofegante.
O religioso ficou indignado.
“Que ousadia!”, ele pensou consigo mesmo. “Vou esperar essa jovem voltar e lhe dar uma lição”. 
E lá ele ficou. O tempo passou e passou e o homem não se moveu do lugar. O dia já estava terminando quando a jovem apareceu do outro lado da praça, agora caminhando mais devagar. 
Parecia sonhadora, ainda mais distraída. No momento em que ela passava na frente do homem santo, ele a chamou falando com voz autoritária, mal disfarçando a enorme irritação:
“Você foi bastante atrevida hoje de manhã. Por acaso ignora que é proibido passar diante de um homem que esteja rezando?”
A jovem parou, assustada. Voltou-se para o homem e lhe disse: 
– Já que não há mais ninguém aqui, vejo que é comigo mesmo que o senhor está falando. Mas muito me espantam suas palavras, senhor. Eu não sei que costume é esse, porque não sou deste lugar. Além do mais, o senhor disse que estava rezando. O que quer dizer “rezar”?
Para mim, respondeu o homem levantando a cabeça todo empertigado – “rezar” significa pensar completamente em Deus.
- Pois então – disse a moça com um sorriso apaziguador 
- O senhor que me desculpe, eu jamais teria violado uma lei se tivesse conhecimento dela. Sabe, eu vim para esta cidade para me encontrar com meu namorado, que mora aqui, e quando cheguei a esta praça hoje pela manhã, estava já bem atrasada. Eu vinha absorta, pensava tão completamente no meu amor que nem vi o senhor. E agora me diga, se o senhor estava rezando, quer dizer, pensando completamente em Deus. como foi que o senhor me viu?



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ONDE NINGUÉM ENTRA - Carlos Drummond de Andrade (conto)



ONDE NINGUÉM ENTRA 

Carlos Drummond de Andrade



 Na casa do rei, que é um palácio de corindo* e pórfiro** vermelho antigo, não posso entrar, mas nos jardins do rei, abertos à visitação pública, eu e meus amigos e os amigos de meus amigos temos direito de passear e até de fazer piquenique. Vivemos de olhos cravados nas janelas da casa do rei, pois há expectativa de ele assomar e saudar-nos ou fazer um gesto qualquer. Até agora isto não aconteceu. Começamos a suspeitar que o rei não mora, nunca morou em sua casa. 
Então onde mora o rei, e se não mora ali, por que não nos franqueiam a entrada da casa? 
O guarda explicou-nos que seria contra o protocolo, e não pode haver rei sem protocolo. E que não fazia mal o rei, por hipótese, não morar ali ou mesmo em nenhum lugar, pois o rei não é propriamente uma pessoa, mas uma instituição, ao passo que nós, seus súditos, somos pessoas físicas e em geral não nos comportamos bem nos paços. 
Um dia destes alguém, desconhecido de nós todos, tentou forçar a entrada na casa do rei e foi dissuadido com bons modos. Como insistisse, removeram-no à força. 
Meu filho de oito anos, que assistiu à cena, perguntou: “Quem sabe se era o rei que queria entrar?”.


* corindo - pedra preciosa, mais dura que o diamante (safira e rubi)
** pórfiro - rocha que recebeu a ação do fogo (ígnea), na qual um tipo de cristal é muito mais abundante do que os outros.










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A BELEZA TOTAL (conto)

Carlos Drummond de Andrade



A beleza de Gertrudes fascinava todo mundo e a própria Gertrudes. Os espelhos pasmavam diante de seu rosto, recusando-se a refletir as pessoas da casa e muito menos as visitas. Não ousavam abranger o corpo inteiro de Gertrudes. 
Era impossível, de tão belo, e o espelho do banheiro, que se atreveu a isto, partiu-se em mil estilhaços. A moça já não podia sair à rua, pois os veículos paravam à revelia dos condutores, e estes, por sua vez, perdiam toda capacidade de ação. 
Houve um engarrafamento monstro, que durou uma semana, embora Gertrudes houvesse voltado logo para casa. O Senado aprovou lei de emergência, proibindo Gertrudes de chegar à janela. 
A moça vivia confinada num salão em que só penetrava sua mãe, pois o mordomo se suicidara com uma foto de Gertrudes sobre o peito. Gertrudes não podia fazer nada. Nascera assim, este era o seu destino fatal: a extrema beleza. E era feliz, sabendo-se incomparável. Por falta de ar puro, acabou sem condições de vida, e um dia cerrou os olhos para sempre. Sua beleza saiu do corpo e ficou pairando, imortal. 
O corpo já então enfezado de Gertrudes foi recolhido ao jazigo, e a beleza de Gertrudes continuou cintilando no salão fechado a sete chaves.



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A INCAPACIDADE DE SER VERDADEIRO - Carlos Drummond de Andrade (conto)








A INCAPACIDADE DE SER VERDADEIRO

Carlos Drummond de Andrade
Contos Plausíveis
Editora Didática Paulista - Editora Record - Rio de Janeiro
quinta edição - 2002
158 páginas
página 19



Paulo tinha fama de mentiroso. Um dia chegou em casa dizendo que vira no campo dois dragões da independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas.
A mãe botou-o de castigo, mas na semana seguinte ele veio contando que caíra no pátio da escola um pedaço de lua, todo cheio de buraquinhos feito de queijo, e ele provou e tinha gosto de queijo. Desta vez Paulo não só ficou sem sobremesa como foi proibido de jogar futebol durante quinze dias.
Quando o menino voltou falando que todas as borboletas da Terra passaram pela chácara de Siá Elpídia e queriam formar um tapete voador para transportá-lo ao sétimo céu, a mãe decidiu levá-lo ao médico. Após o exame, o Dr. Epaminondas abanou a cabeça:
– Não há nada a fazer, Dona Colo. Este menino é mesmo um caso de poesia.







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A SERPENTE E O VAGALUME - conto indiano




A serpente e o vagalume (conto indiano)


Era uma vez uma serpente que perseguia um vaga-lume que nada mais fazia do que simplesmente brilhar.

Ele fugia rápido com medo da feroz predadora e a serpente nem pensava em desistir.

Fugiu um dia, dois dias, mais outro e nada.

No terceiro dia, já sem forças, o vaga-lume parou e perguntou à serpente:

--- Você vai me comer? 

A serpente se aproximou um pouco mais e respondeu:

--- Vou!

--- Mas isso não faz sentido, uma serpente comer um vagalume!? Tem  certeza que que vai me comer? Perguntou novamente o vagalume.

A serpente deslizou lentamente em direção ao inseto e respondeu:

--- Tenho certeza absoluta!

— Então, antes de morrer posso lhe fazer três perguntas? solicitou vaga-lume.

— Pode. Não costumo abrir esse precedente para ninguém, mas já que vou te devorar, pode perguntar.

— Pertenço a sua cadeia alimentar?

— Não.

— Te fiz alguma coisa?

— Não.

— Então por que você quer me comer?

— PORQUE NÃO SUPORTO VER VOCÊ BRILHAR....

E o devorou.



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