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terça-feira, 6 de novembro de 2018

EDUCANDO COM AMOR (artigo para informativo Escola Waldorf Francisco de Assis)



AQUILO QUE ESTÁ ESCRITO NO CORAÇÃO NÃO NECESSITA DE AGENDAS, PORQUE A GENTE NÃO ESQUECE. O QUE A MEMÓRIA AMA FICA ETERNO.

RUBEM ALVES.


Educar um filho não é tarefa fácil, mas todos nós principiantes recebemos um dia essa incumbência e a exercemos da maneira que podíamos, geralmente com força de vontade e, certamente, com boa intencionalidade, que descobrimos depois não serem suficientes, mesmo assim insistimos, brigamos, erramos e finalmente descobrimos que o que movimentou tudo isso foi revestido de amor e isso nos conforta.
A criança recebe o amor de seus pais, que lhe é dado de graça, nós também temos essa reciproca, porém esquecemos na maioria das vezes de que o fato de amarmos muito os nossos filhos não nos impede de também exigir deles respeito e reverência, isso também faz parte da atitude de amar. Parece que nos esquecemos de ler nas letras miúdas do contrato que fizemos com o mundo espiritual de que cuidaríamos, protegeríamos e amaríamos os nossos filhos, mas, sobretudo os conduziríamos com segurança, respeito e confiança; pois bem as crianças tem essa expectativa dos adultos que as conduzem, principalmente de seus pais que sabem o que é bom para elas e não necessitam barganhar com seus filhos esse amor que já lhes pertence, portanto, podem e devem colocar limites, suportar frustrações e ensinar para elas que a realidade não existe para nos satisfazer, que não se pode ter tudo o que se quer na hora que desejarmos, que nem tudo sai conforme planejado, mas que apesar disso tudo estamos ao seu lado, isso também é amor e deve ser ensinado a elas.
Costumo dizer que ser pai é também saber se tornar desnecessário, para desconforto de muitos pais que questionam essa afirmação, pois me garantem que sua presença é muito importante para a vida de seus filhos e eu respondo que sim, existe e sempre existirá a importância dessa relação, mas ajudar na autonomia e no desenvolvimento é uma qualidade que não deveríamos abrir mão, trazendo à nossa própria consciência que nosso papel como condutores que somos perante nossos filhos está justamente na importância dessa função, ou seja, mostrar a direção a seguir, incentivar, torcer e se afastar à medida que vão crescendo, trabalhar internamente essas dificuldades é um ato de amor. Na contra mão disso fica nosso egoísmo em retermos nossos filhos para si e o grande boicote que fazemos a eles é promover a acomodação de receberem tudo de “mão beijada”, sem esforço e sem sacrifício o que demostra que mesmo amando muito se pode confundir e inverter esses valores, com isso as crianças e os jovens não aprendem o que é reconhecimento, não tiveram a experiência de que aquilo que dispõem foi oferecido pelos pais, a roupa da moda, o tênis bonito, a comida, o celular e tudo o mais foi oferecido pelos pais, que muitas vezes, não exigem nada em troca, nem um gesto de carinho e desse modo é lógico que serão necessários “ad infinitum”, porque atrás dessa abundância de excessos existe também a incoerência de oferecer ao filho tudo aquilo que julgamos que seja bom para ele, talvez sem refletir antes se exista de fato tal necessidade. As coisas oferecidas às crianças deveriam passar por esse crivo, o que adianta comprar o vigésimo carrinho ou a décima boneca se a criança nem brinca com todos aqueles brinquedos que já tem isso gera desperdício que se atrela a duas outras situações a falta de reverência e a ingratidão, pois, vira uma abundância, esse excesso, mesmo revestido de carinho, fica desproporcional, inadequado, demasiado, o amor também tem seus tempos e suas medidas. A criança entende isso, os adultos nem sempre, porque desconfiam de que um gesto de amor também pode estar na contido na palavra “não”, receiam perder o amor de seus filhos e isso é um grande engano. Devemos estimular a criança a superar as suas dificuldades e não fazendo isso por elas, o amor é também confiança, precisamos confiar que sabemos o que é melhor para nossos filhos.
E isso tudo fica na memória da criança, essas nossas atitudes, esses cortes que precisam ser feitos para que a criança e depois o jovem possa se lembrar, porque foi ensinado pelos pais que ele aprendeu a respeitar e confiar, essa atitude dos pais é estruturante no equilíbrio psíquico da criança, pois norteia e dá uma direção segura.
Precisamos de coragem para isso. Coragem não é a ausência do medo, pois educar um filho não é tarefa fácil. Coragem é lançar-se a despeito do medo. Desejo a todos, portanto, coragem com amor.



A IMPORTÂNCIA DE CONTAR HISTÓRIAS (artigo)








Lembro-me de ser uma criança muito tímida, falava pouco, observava tudo à minha volta, mas tinha grande dificuldade de participar das brincadeiras com as outras crianças, lembro também como gostava de ouvir histórias, não me recordo dos meus pais contarem histórias de livros, mas ficaram na memória as coisas que diziam sobre a família e as dificuldades que passaram em suas juventudes e de minha mãe que inventava estórias para eu comer ou dormir.
Mais tarde tive uma experiência muito curiosa, havia um empregado que trabalhava no sítio de meu pai, ele era andarilho e de tempos em tempos aparecia e pedia emprego, ficava o tempo de juntar algum dinheiro para partir depois para mais uma aventura e ele gostava de contar causos e histórias de suas viagens para nós, na minha imaginação infantil aquilo era o mais próximo que experimentava com o universo mágico e aventuresco do mundo ainda desconhecido e da forma como ele descrevia suas narrativas trazendo suas peripécias de uma forma encantadora, não importava se havia uma sombra de mentira nesses contos e recordo que por mais inverossímeis que fossem essas histórias envolveram minha imaginação durante anos. Naturalmente, como todo bom contista ele sabia agradar os seus ouvintes, era isso que o instigava a inventar mais ainda, o estimulante em ouvi-lo era justamente isso, ele tinha prazer em contar suas histórias que imaginadas ou não, de fato não importava muito, era pura diversão, uma delícia poder ouvi-lo.
Mais tarde experimentei essa sensação com os meus filhos, contava histórias, inventava outras, então descobri que contar uma história para mim traz a sensação de poder transmitir essa excitação que sentia quando ouvia aquele homem contar suas aventuras, quando conto uma história seja para crianças ou para adultos o meu prazer é envolver esse expectador no universo mágico e fantasioso que somente os bons contos, aqueles que nos motivam podem propiciar aqueles que estão ouvindo. Realizo-me quando escolho uma história que me traz emoção e encantamento podendo compartilha-la com alguém e fico imaginando que devia ser isso que o contador de causos da minha infância também deveria sentir.  Quem conta um conto ganha um ponto e a magia desse universo é o que ajuda à criança a suportar a realidade que terá de enfrentar durante a vida.
Alguns pais questionam a insistência na narrativa de contos de fadas introduzidos desde cedo no ritmo de vida da criança, temem que desse modo seus filhos tenham uma visão distorcida da realidade e se preocupam que as crianças ouvindo essas fantasias não estejam preparadas para o futuro. O que talvez esses pais não percebam é que, justamente ao contrário, são exatamente essas histórias recheadas de arquétipos que as crianças entendem perfeitamente que possibilitarão que elas possam enfrentar a realidade que a vida irá impor futuramente. A falsa ideia de que devemos precocemente explicar e mostrar tudo para a criança sem ressalvas acarreta em uma restrição de sua infância e no grande roubo de expectativa em tirar esse tempo importante na vida infantil, à criança precisa ter tempo de ser criança. Portanto, bem vindos esses maravilhosos e fantásticos contos de fadas.

(vejam algumas indicações de livros e também sugestões de contos em outras postagens desse Blog).

O LOBO E OS SETE CABRITINHOS - conto

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Era uma vez uma velha cabra que tinha sete cabritinhos e os amava, como uma boa mãe pode amar os filhos. Um dia, querendo ir ao bosque para as provisões do jantar, chamou os sete filhinhos e lhes disse:
- Queridos pequenos, preciso ir ao bosque; cuidado com o lobo; se ele entrar aqui, come-vos todos com uma única abocanhada. Aquele patife costuma disfarçar-se, logo o reconhecereis, porém, pela voz rouca e pelas patas negras.
Os cabritinhos responderam:
- Podeis ir sossegada, querida mamãe, ficaremos bem atentos.
Com um balido, a velha cabra afastou-se confiante. Pouco depois, alguém bateu à porta, gritando:
- Abre a porta meus queridos pequenos; está aqui vossa mãezinha que trouxe um presente para cada um!
Mas os cabritinhos perceberam, pela voz rouca, que era o lobo.
- Não abrimos nada, - disseram - Você não é a nossa mamãe; a mamãe tem uma vozinha suave; a tua é rouca; tu és o lobo!
Então o lobo foi a uma loja e pediu ao vendedor um grande pedaço de argila, mas o homem desconfiado das más intenções do lobo não quis lhe dar, então o animal ameaçou comê-lo com uma só bocada, o pobre homem morrendo de medo deu ao lobo o que ele pediu e assim engoliu a argila e sua voz  tornou-se mais suave. Em seguida, o lobo voltou a bater à porta, dizendo:
- Abram a porta meus queridos pequenos; está aqui a vossa mãezinha que trouxe um presente para cada um!
Mas havia apoiado a pata negra na janela; os pequenos perceberam e gritaram:
- Não abrimos, nossa mamãe não tem as patas negras como tu; tu és o lobo.
O lobo correu, então, até o padeiro e lhe disse:
- Machuquei o pé, queres esparramar-lhe em cima um pouco de massa?
Quando o padeiro lhe espargiu a massa na pata, correu até o moleiro e disse:
- Espalha um pouco de farinha de trigo na minha pata.
O moleiro pensou: "Este lobo está tentando enganar alguém" e recusou-se a atende-lo. O lobo, porém, ameaçou-o:
- Se não o fizeres, devoro-te agora mesmo!
O moleiro, então, se assustou e polvilhou-lhe a pata como o lobo havia pedido. O malandro foi, pela terceira vez, bater à porta dos cabritinhos, dizendo:
- Abram a porta pequenos, vossa querida mãezinha voltou do bosque e trouxe um presente para cada um de vocês, meus queridos filhotinhos!
Os cabritinhos gritaram:
- Mostra-nos primeiro a tua pata para que saibamos se és realmente nossa mamãezinha.
O lobo não hesitou, colocou a pata sobre a janela e, quando viram que era branca, acreditaram no que dizia e abriram-lhe a porta. Mas foi o lobo que entrou. Os cabritinhos, amedrontados, trataram de se esconder. O primeiro escondeu-se debaixo da mesa, o segundo meteu-se embaixo da cama, o terceiro correu para dentro do forno, o quarto foi para a cozinha, o quinto fechou-se no armário, o sexto dentro da pia e o sétimo na caixa do relógio de parede. Mas o lobo encontrou-os todos e não fez cerimônias; engoliu-os um após o outro, sem ter o trabalho de mastigar. O último, porém, que estava dentro da caixa do relógio, não foi descoberto. Uma vez satisfeito, o lobo saiu e foi deitar-se sob uma árvore, no gramado fresco do prado e não tardou a ferrar no sono. Não tardou muito e a velha cabra regressou do bosque.
Ah, com que se lhe deparou! A porta da casa escancarada; mesa, cadeiras, bancos, tudo de pernas para o ar. A pia em pedaços, as cobertas, os travesseiros arrancados da cama. Procurou logo os filhinhos, não conseguindo encontrá-los em parte alguma. Chamou-os pelo nome, um após o outro, mas ninguém respondeu. Ao chamar, por fim, o menor de todos, uma vozinha sumida gritou:
- Querida mamãezinha, estou aqui, dentro da caixa do relógio.
Ela tirou-o de lá e o pequeno contou-lhe que viera o lobo e devorara todos os outros. Imaginem o quanto a cabra chorou pelos seus pequeninos! Saiu de casa desesperada, sem saber o que fazer; o cabritinho menor saiu-lhe atrás. Chegando ao prado, viram o lobo espichado debaixo da árvore, roncando de tal maneira que fazia estremecer os galhos. Observou-o atentamente, de um e de outro lado e notou que algo se mexia dentro de seu ventre enorme.
- Ah! Deus meu, - suspirou ela - estarão ainda vivos os meus pobres pequenos que o lobo devorou?
Mandou o cabritinho menor que fosse correndo em casa apanhar a tesoura, linha e agulha também. De posse delas, abriu a barriga do monstro; ao primeiro corte, um cabritinho pôs a cabeça de fora e, conforme ia cortando mais, um por um foram saltando para fora; todos os seis, vivos e perfeitamente sãos, pois o monstro, na sanha devoradora, os engolira inteiros, sem mastigar.
Que alegria sentiram ao ver a mãezinha! Abraçaram-na, pinoteando felizes como nunca. Mas a velha cabra lhes disse:
- Vão depressa procurar algumas pedras para encher a barriga deste danado antes que ele desperte.
Os cabritinhos, então, saíram correndo e daí a pouco voltaram com as pedras, que meteram, tantas quantas couberam, na barriga ainda quente do lobo. A velha cabra, muito rapidamente, coseu-lhe a pele de modo que ele nem chegou a perceber.
Finalmente, tendo dormido bastante, o lobo levantou-se e, como as pedras que tinha no estômago lhe provocassem uma grande sede, foi à fonte para beber; mas, ao andar e mexer-se, as pedras chocavam-se na barriga, fazendo um certo ruído. Ele então pôs-se a gritar:
Dentro da pança,
que é que salta e pula?
Cabritos não são;
parece pedra miúda!
Chegando à fonte, debruçou-se para beber; entretanto, o peso das pedras arrastou-o para dentro da água, onde se acabou afogando miseravelmente. Vendo isso, os sete cabritinhos saíram correndo e gritando:
- O lobo morreu! O lobo morreu!
Então, juntamente com a mãezinha, dançaram alegremente em volta da fonte, cantando:
Quem tem medo do lobo mau, lobo mau?
Quem tem medo do lobo mau?
come sal, come sal!!!





A MENINA DO CAPUZ VERMELHO e outras histórias de dar medo - resenha de livro





A menina do capuz vermelho e outras histórias de dar medo.
Ângela Carter
tradução de Luciano Vieira Machado
Penguin - Companhia das Letras
2011 (142 páginas)


Esse é um daqueles livros de contos em que as fadas não aparecem em profusão, mas seres sobrenaturais, animais falantes, tias malvadas, esposas traiçoeiras e personagens nada confiáveis serão os protagonistas dessas histórias coletadas por Ângela Carter (1940 - 1992).
São narrativas transmitidas pela tradição oral recolhidas em várias partes do mundo, algumas conhecidas de todos e que desde o início são reelaboradas e difundidas mundo afora. 
O grande mérito dessa escritora foi o trabalho de recolher esses contos nessa coletânea que concluiu pouco antes de morrer. O cenário dessas histórias se passa em meados do século XIX, em uma época pré-industrial onde a população européia era composta de muitos analfabetos ou semianalfabetos pobres, portanto, literatura era algo contado e não escrito fazendo com que contos populares, contos de fada e histórias ligadas à tradição oral terem chegado até os dias de hoje com toda sua força e permanecerem atuais apesar do tempo.
A maioria deles se encontra revestida de uma carga dramática independente de sua expressão sociológica ou psicológica, nem mesmo histórica, são informais, mas com arquétipos determinantes o suficiente para impressionar os ouvintes e se tornarem atemporais.
A autora nos relata na apresentação desse livro que: "Quando ouvimos a fórmula ERA UMA VEZ ou uma de suas variantes, já sabemos que o que vem a seguir não tem a pretensão de ser verdade. Mamãe Ganso pode contar mentiras, mas não vai nos enganar dessa forma. Ela vai nos divertir, vai nos ajudar a passar o tempo de forma agradável, uma das mais nobres funções da arte".
Composto de vinte contos das mais variadas origens (francesa, inglesa, egípcia, armênia, cigana, russa, escocesa, etc.), esse livro é uma excelente oportunidade para resgatarmos a criança curiosa que existe dentro de cada um de nós, ávida por querer entender o porquê das coisas e que esses contos talvez não respondam completamente, mas podem nos transportar a lugares e situações inverossímeis, porém absolutamente verdadeiras, esse é o grande encantamento que os contos proporcionam e que foram selecionados aqui com grande versatilidade e qualidade.
Talvez aqui caiba um detalhe importante, pois como o próprio título informa, algumas histórias podem realmente "dar medo" e serem inadequadas para determinadas crianças, portanto, convém antes nos assegurarmos que esse ou aquele conto pode ser apropriado ou não de ser compartilhado, no entanto, esse material precioso deveria ser conhecido por todos aqueles que ainda se permitem viajar nesse maravilhoso mundo dos contos de fada, mesmo quando as fadas nem sempre sejam tão boas assim.


segunda-feira, 5 de novembro de 2018

ENSINANDO A CRIANÇA A CANTAR - (artigo)








Lembro-me de ser uma criança muito tímida, falava pouco, observava tudo à minha volta, mas tinha grande dificuldade de participar das brincadeiras com as outras crianças, lembro também como gostava de ouvir histórias, não me recordo dos meus pais contarem histórias de livros, mas ficaram na memória as coisas que diziam sobre a família e as dificuldades que passaram em suas juventudes e de minha mãe que inventava estórias para eu comer ou dormir.
Mais tarde tive uma experiência muito curiosa, havia um empregado que trabalhava no sítio de meu pai, ele era andarilho e de tempos em tempos aparecia e pedia emprego, ficava o tempo de juntar algum dinheiro para partir depois para mais uma aventura e ele gostava de contar causos e histórias de suas viagens para nós, na minha imaginação infantil aquilo era o mais próximo que experimentava com o universo mágico e aventuresco do mundo ainda desconhecido e da forma como ele descrevia suas narrativas trazendo suas peripécias de uma forma encantadora, não importava se havia uma sombra de mentira nesses contos e recordo que por mais inverossímeis que fossem essas histórias envolveram minha imaginação durante anos. Naturalmente, como todo bom contista ele sabia agradar os seus ouvintes, era isso que o instigava a inventar mais ainda, o estimulante em ouvi-lo era justamente isso, ele tinha prazer em contar suas histórias que imaginadas ou não, de fato não importava muito, era pura diversão, uma delícia poder ouvi-lo.
Mais tarde experimentei essa sensação com os meus filhos, contava histórias, inventava outras, então descobri que contar uma história para mim traz a sensação de poder transmitir essa excitação que sentia quando ouvia aquele homem contar suas aventuras, quando conto uma história seja para crianças ou para adultos o meu prazer é envolver esse expectador no universo mágico e fantasioso que somente os bons contos, aqueles que nos motivam podem propiciar aqueles que estão ouvindo. Realizo-me quando escolho uma história que me traz emoção e encantamento podendo compartilha-la com alguém e fico imaginando que devia ser isso que o contador de causos da minha infância também deveria sentir.  Quem conta um conto ganha um ponto e a magia desse universo é o que ajuda à criança a suportar a realidade que terá de enfrentar durante a vida.
Alguns pais questionam a insistência na narrativa de contos de fadas introduzidos desde cedo no ritmo de vida da criança, temem que desse modo seus filhos tenham uma visão distorcida da realidade e se preocupam que as crianças ouvindo essas fantasias não estejam preparadas para o futuro. O que talvez esses pais não percebam é que, justamente ao contrário, são exatamente essas histórias recheadas de arquétipos que as crianças entendem perfeitamente que possibilitarão que elas possam enfrentar a realidade que a vida irá impor futuramente. A falsa ideia de que devemos precocemente explicar e mostrar tudo para a criança sem ressalvas acarreta em uma restrição de sua infância e no grande roubo de expectativa em tirar esse tempo importante na vida infantil, à criança precisa ter tempo de ser criança. Portanto, bem vindos esses maravilhosos e fantásticos contos de fadas.

(vejam algumas indicações de livros e também sugestões de contos em outras postagens desse Blog).

domingo, 4 de novembro de 2018

DEUS DA CARNIFICINA - resenha de filme.




Direção: Roman Polanski
Ano: 20012
Elenco: Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz, John C. Reilly
Duração: 01h/20m.


Esse filme fala sobre a hipocrisia e a desconstrução dos valores burgueses que caem por terra a partir do momento em que os personagens vão se revelando como realmente são. O que á princípio se mostra extremamente civilizado quando dois casais se encontram no apartamento de um deles para redigirem uma espécie de contrato social com regras e funções sobre a convivência entre os filhos de ambos que brigaram e causaram esse encontro inusitado.
As personalidades são bastante diferentes e todo o filme se passa entre quatro paredes, esse filme foi baseado em uma peça de teatro, mas novamente Polanski consegue dar uma roupagem e um jogo de cena, através dos enquadramentos dos personagens que faz com que seus conflitos imprimam no espectador uma espécie de soco no estomago quando refletimos sobre esses valores morais que a sociedade impõe a todos nós e as regras sociais possam ser debatidas.
Das amenidades e cordialidades iniciais as máscaras dos personagens começam a cair e as normas de civilidade deixam de existir. Nancy (Kate Winslet) mulher educada e cordial é casada com Alan (Christopher Waltz), um cínico capitalista, que tem uma fixação por seu celular, não se desgrudando dele (esse é um spoiler interessante quanto ao desfecho desse apego), lógico que a aparente cordialidade do casal acaba caindo por terra durante o encontro, que também acontece com o outro casal: Penélope (Jodie Foster) e Michael (John C. Reilly), que oferecem a casa para esse encontro. Penélope é uma mulher guiada por princípios morais rígidos que são aparentemente suportados pelo marido bondoso, mas que se revelará explosivo e de temperamento forte durante as discussões. Desse modo as máscaras vão caindo e a verdadeira face dos personagens vai se revelando em cada um deles e o motivo inicial daquele encontro acaba se transformando, o caos surge com toda a sua força, a carnificina então tem a sua oportunidade de manifestar-se, certamente nenhum deles será mais o mesmo depois daquele encontro.
Vale a pena prestar uma atenção especial na última cena (a única fora do cenário anterior) onde aparecem dois jovens em um parque.






A PROTEGIDA DE MARIA (conto)



Na orla de uma extensa floresta morava um lenhador e sua esposa. Eles tinham apenas uma filha, que era uma menina de três anos. Mas eles eram tão pobres que não tinham mais o pão de cada dia e já não sabiam o que haveriam de dar-lhe para comer. Certa manhã o lenhador foi com grande preocupação até a floresta para cuidar de seu trabalho e, quando estava cortando lenha, lá apareceu de repente uma mulher alta e bela que trazia na cabeça uma coroa de estrelas cintilantes e lhe disse “Sou a Virgem Maria, mãe do Menino Jesus, e tu és pobre e necessitado: traga-me tua filha, vou levá-la comigo, ser sua mãe e cuidar dela." O lenhador obedeceu, foi buscar a filha e entregou-a à Virgem Maria, que a levou consigo para o Céu. Lá a menina passava muito bem, comia pão doce e bebia leite açucarado, e seus vestidos eram de ouro, e os anjinhos brincavam com ela.
Quando completou quatorze anos, a Virgem Maria a chamou e disse "Querida menina, partirei em uma longa viagem; tome sob tua guarda as chaves das treze portas do reino celestial; tu poderás abrir doze delas e contemplar os esplendores que há lá dentro, mas a décima terceira, cuja chave é esta pequena aqui, está proibida para ti: cuidado para não abri-la, pois seria a tua infelicidade." A menina prometeu ser obediente e, quando a Virgem Maria havia partido, começou a olhar os cômodos do reino celestial: a cada dia abria um deles, até que todos os doze tinham sido vistos. Em cada um dos cômodos estava sentado um apóstolo cercado de grande esplendor, e toda aquela suntuosidade e magnificência dava grande alegria a ela, e os anjinhos, que sempre a acompanhavam, alegravam-se também. Até que, então, faltava apenas a porta proibida, e ela sentiu um grande desejo de saber o que estava escondido atrás dela. Por isso disse aos anjinhos "Não abrirei a porta por inteiro e também não entrarei, mas vou entreabri-la para olharmos um pouquinho pela fresta." - "Oh, não," disseram os anjinhos, "seria um pecado: a Virgem Maria proibiu fazer isso, além do mais, isso poderia facilmente trazer-te a desgraça." Então ela se calou, mas o desejo não silenciou em seu coração, mas, ao contrário, continuou roendo e corroendo-a com força, não lhe permitindo ficar em paz. E certa vez, quando os todos os anjinhos haviam saído, pensou "Agora estou totalmente sozinha e poderia olhar lá dentro, afinal, ninguém ficará sabendo o que fiz." Procurou a chave e, tão logo a apanhou, enfiou-a na fechadura e, uma vez ela estando lá, sem pensar duas vezes, girou-a. A porta abriu de um salto e ela viu a Trindade sentada em meio ao fogo e à luz. Ficou parada um momento, observando tudo com assombro, depois tocou de leve com o dedo aquela luz, e seu dedo ficou totalmente dourado. No mesmo instante foi tomada de intenso pavor, bateu a porta com força e correu dali. Mas o pavor não diminuía, ela podia fazer o que fosse, mas o coração continuava batendo acelerado e não havia como acalmá-lo: assim também o ouro continuou no dedo e não saía de jeito algum, não importa o quanto lavasse e esfregasse. Não passou muito tempo e a Virgem Maria retornou de sua viagem. Ela chamou a menina e solicitou as chaves de volta. Quando ela apresentou o molho de chaves, a Virgem olhou em seus olhos e perguntou: -"E não abriste mesmo a décima terceira porta?" - "Não," respondeu. Então ela pousou a mão sobre o coração da menina e sentiu como ele estava batendo sobressaltado, de modo que percebeu que sua ordem tinha sido desobedecida e a porta fora aberta. Então perguntou mais uma vez: "Realmente não a abriste?" - "Não," respondeu a menina pela segunda vez. Aí a Virgem avistou o dedo que ficara dourado pelo toque do fogo celestial e teve certeza de que ela pecara, e perguntou pela terceira vez: "Não a abriste?" - "Não," respondeu a menina pela terceira vez. Então a Virgem Maria disse: "Tu não me obedeceste e, além disso, ainda mentiste, portanto não és mais digna de permanecer no Céu."

          Nesse momento a menina caiu em profundo sono e quando despertou jazia lá embaixo sobre a terra em meio a um lugar agreste. Quis gritar, mas não conseguiu emitir qualquer som. Levantou-se de um salto e quis fugir, mas para onde quer que se dirigisse sempre era detida por sebes espinhosas que não conseguia atravessar. Nesse ermo em que estava encerrada havia uma velha árvore oca que agora teria de ser sua morada. Era lá para dentro que rastejava quando caía a noite, e era lá que dormia, e, quando vinham chuvas e tempestades, era lá que buscava abrigo. Levava uma vida lastimável, e quando recordava como tudo havia sido tão bom no Céu, e como os anjinhos costumavam brincar com ela, chorava amargamente. Raízes e frutas silvestres eram seus únicos alimentos, e ela os procurava ao redor até onde podia ir. No outono juntava as nozes e folhas que haviam caído no chão e levava-as para o oco da árvore; comia as nozes no inverno e, quando chegavam a neve e o gelo, arrastava-se como um animalzinho para debaixo das folhas para não sentir frio. Não demorou muito e suas vestimentas começaram a se rasgar e um pedaço após outro foi caindo do corpo. Tão logo o Sol voltava a brilhar trazendo o calor, ela saía e sentava-se diante da árvore e seus longos cabelos encobriam-na de todos os lados como um manto. Assim foi passando ano após ano e ela ia experimentando a miséria e sofrimento do mundo.

            Uma vez, quando as árvores tinham acabado de cobrir-se outra vez de verde, o rei que lá reinava estava caçando na floresta e perseguia uma corça, e como esta havia se refugiado nos arbustos que rodeavam a clareira da floresta, ele desceu do cavalo e com sua espada foi arrancando o mato e abrindo caminho para poder passar. Quando finalmente chegou do outro lado, avistou sob a árvore uma donzela de maravilhosa beleza que lá estava sentada totalmente coberta até os dedos dos pés pelos seus cabelos dourados. Ficou parado admirando-a com assombro até que finalmente dirigiu-lhe a palavra e disse: "Quem és tu? Por que estás aqui no ermo?" Mas ela não respondeu, pois sua boca estava selada. O rei falou novamente: "Queres vir comigo até meu castelo?" Ela apenas assentiu levemente com a cabeça. Então o rei a tomou nos braços, carregou-a até seu corcel e cavalgou com ela para casa, e, quando chegou ao castelo real, ordenou que a vestissem com belos trajes e tudo lhe foi dado em abundância. Embora não pudesse falar, ela era afável e bela, e assim ele começou a amá-la do fundo de seu coração e, não demorou muito, casou-se com ela.

            Quando se havia passado cerca de um ano, a rainha deu à luz um filho. Nessa mesma noite, quando estava deitada sozinha em seu leito, apareceu-lhe a Virgem Maria, que disse "Se quiseres dizer a verdade e confessar que abriste a porta proibida, destravarei tua boca e devolverei tua fala, mas se insistires no pecado e teimares em negar levarei comigo teu filho recém-nascido." Nesse momento foi dado à rainha responder, porém ela manteve-se obstinada e disse: "Não, não abri a porta proibida," e a Virgem Maria tomou-lhe o filho recém-nascido dos braços e desapareceu com ele. Na manhã seguinte, quando não foi possível encontrar a criança, começou a correr um murmúrio no meio do povo de que a rainha comia carne humana e teria matado seu próprio filho. Ela ouvia tudo isso e não podia dizer nada em contrário, mas o rei recusou-se a acreditar naquilo porque a amava muito.

             Depois de um ano nasceu mais um filho da rainha. Naquela noite voltou a parecer a Virgem Maria junto dela dizendo: "Se quiseres confessar que abriste a porta proibida, devolverei teu filho e soltarei tua língua; mas se insistires no pecado e negares, levarei também este recém-nascido comigo." Então a rainha disse novamente: "Não, não abri a porta proibida," e a Virgem tomou-lhe a criança dos braços e levou-a consigo para o Céu. De manhã, quando mais uma vez uma criança havia desaparecido, o povo afirmou em voz bem alta que a rainha a tinha devorado, e os conselheiros do rei exigiram que ela fosse levada a julgamento. Mas o rei a amava tanto que não quis acreditar em nada, e ordenou aos conselheiros que, se não estivessem dispostos a sofrer castigos corporais ou mesmo a pena de morte, que deixassem de insistir no assunto.

              No ano seguinte a rainha deu à luz uma linda filhinha e, pela terceira vez, apareceu à noite a Virgem Maria e disse: "Acompanha-me." Tomou-a pela mão e conduziu-a até o Céu, mostrando-lhe então os dois meninos mais velhos, que riam e brincavam com o globo terrestre. A rainha alegrou-se com aquilo e a Virgem Maria disse: "Teu coração ainda não se abrandou? Se confessares que abriste a porta proibida, devolverei teus dois filhinhos." Mas a rainha respondeu pela terceira vez: "Não, não abri a porta proibida." Então a Virgem Maria a fez descer novamente à terra, tomando-lhe também a terceira criança.

             Na manhã seguinte, quando a notícia correu, todo o povo gritava "a rainha come gente, ela tem que ser condenada," e o rei não conseguiu mais conter seus conselheiros. Ela foi submetida a julgamento e, como não podia responder e se defender, foi condenada a morrer na fogueira. Quando haviam juntado a lenha e ela estava amarrada a um pilar e o fogo começava a arder a sua volta, então derreteu-se o duro gelo do orgulho e seu coração encheu-se de arrependimento e ela pensou: "Ah, se antes de morrer eu ao menos pudesse confessar que abri a porta." Nesse momento voltou-lhe a voz e ela gritou com força "Sim, Maria, eu a abri!" No mesmo instante uma chuva começou a cair do céu apagando as chamas do fogo, e sobre sua cabeça irradiou uma luz, e a Virgem Maria desceu tendo os dois meninos, um de cada lado, e carregando a menina recém-nascida no colo. Ela falou-lhe com bondade: "Quem confessa e se arrepende de seu pecado, sempre é perdoado," e entregou-lhe as três crianças, soltou-lhe a língua e deu-lhe de presente a felicidade para a vida inteira.








UM HOMEM CHAMADO OVE - resenha de filme

Médico na Escola Dr José Carlos Machado www.mediconaescola.com






 2015 (Suécia)
·         Diretor: Hannes Holm
·         Idiomas: Língua sueca · Língua persa
·         Prêmios: European Film Award for Best Comedy · Guldbagge Award for Best Make-up/Hair Duas indicações para o OSCAR de melhor filme estrangeiro
·         Música de: Gaute Storaas
·         Duração: 1hora 56min ·
Elenco

Johan VViderberg




Baseado em um livro do mesmo nome conta a história de um senhor que tem uma rotina severa cuidando do condomínio em que mora, observando se seus vizinhos descartam seu lixo de forma adequada, se estacionam seus carros nas respectivas vagas, cuidando e criticando duramente a todos à sua volta ao mesmo tempo em que visita o túmulo de sua mulher Sonja. Nessa vida amargurada, solitária, monótona e depressiva começa a pensar em suicídio, mas os novos vizinhos do outro lado da rua mudam as suas perspectivas e trazem novos problemas que ele precisa resolver.
Rolf Lassgärd (OVE), vai aos poucos nos envolvendo nessa trama comovente evocando uma espécie de simpatia do espectador conforme vão sendo desvendados os motivos que o levaram a agir desse modo e é revelado que aquele homem bruto, forte, racional e determinado também tem coração, aliás essa simbologia fica muito pertinente quando descobrimos durante a trama que OVE apresentas um problema de saúde. Acabamos torcendo por aquele rabugento e entendendo o porquê de suas implicações, com pitadas sutis de humor o filme se torna leve, embora com questionamentos significativos, na verdade, nos identificamos com OVE, justamente porque todos nós, sob diversos aspectos e variações, temos esse lado implicante e crítico que reage àquilo que vêm de fora, que é contrário ao novo e ao diferente, que não se enquadra em nossa lógica pré-determinada; tornamos-nos OVE quando temos uma dificuldade de aceitar que o mundo e a realidade simplesmente não existem para nos satisfazer e essa é o grande desafio que precisamos enfrentar para sair desse determinismo e dessa arrogância que nos aprisiona. OVE talvez tenha sofrido privação de seus pais, pouco afetivos e com silêncios profundos, talvez seja naturalmente deprimido, melancólico, mas teve uma companheira (Sonja), que o acolheu e o aceitou desse modo, tem amigos e vizinhos pacientes com suas agressões e essas experiências demonstram que a vida mesmo, com suas hostilidades, injustiças e contradições, também pode ser possível e fica compreensível quando quer se reunir à sua mulher, que o aceita integralmente, mas na sua ausência tem que lidar com aqueles que nem sempre o acolhem que o questionam e nem sempre admitem esse modo agressivo e prepotente de reagir aquilo que não lhe agrada.
A meu ver a grande reflexão que esse filme traz é a chance que podemos ter em avaliar o nosso próprio lado OVE, nas armadilhas e nas projeções que fazemos, no falso self que incorporamos e nesse automatismo reagimos e terceirizamos aos outros todas as nossas frustrações e  angústias ao invés de percebermos que mesmo com todos os argumentos e certezas não existe somente uma verdade e o subjetivismo e a própria vida se incumbi de demonstrar isso, ou seja, a vida pode se tornar mais leve e consequentemente mais feliz.



PEDRO E SEU IRMÃO (conto)



Pedro era um desses meninos que gostava de correr, de pular e também fazia coisas engraçadas, dava risada e era muito alegre e animado.
Um dia sua mãe lhe revelou um segredo, chegou bem pertinho do seu ouvido e contou: - Pedro você vai ganhar um irmãozinho. Pedro não entendeu bem o que era aquilo, mas começou a perceber que as coisas começaram a mudar dentro de casa. Sua mãe começou a ficar muito cansada já não brincava tanto com ele como antes e parecia que estava ficando mais gorda e pesada, seu pai vivia trabalhando e quando chegava em casa estava tão exausto que até dormia no sofá, Pedro percebeu que as coisas estavam ficando diferente e desconfiou que isso tudo fosse culpa daquele tal irmãozinho que estava pra chegar e não gostava nada disso.
As visitas que chegavam, até mesmos seus avós só queriam olhar para a barriga da mãe e perguntavam como estava o nenê e Pedro ficava de lado, já não se importavam mais com ele como antes e começou a perceber que tinha perdido sua posição para aquela coisa que ocupava um lugar na barriga da sua mãe e que ela alisava com toda a ternura e carinho, como fazia antes em sua cabeça. Pedro descobriu que nessas horas tinha mesmo era raiva desse irmão.
O tempo foi passando e a barriga da mãe ficava cada vez maior e a casa começou a ficar cheia de tanta coisa nova que chegava. Pedro no começo achava que aquilo tudo era prá ele, mas as roupas eram muito pequenas, os brinquedos muito sem graça e nem no berço novo ele poderia caber, porque tudo isso era para o seu irmão que estava para chegar e a raiva crescia cada vez mais.
Pedro foi parando de fazer coisas engraçadas e nem gostava mais de pular e de correr como antes ficava olhando aquela barrigona e perguntava prá mãe: - Quando sair daí ele vai brincar comigo? E a mãe dizia: - Vocês vão brincar muito e você e ele serão muito amigos. Aquilo acalmava um pouco a raiva que sentia e Pedro até voltava a se divertir novamente, mas sentia falta do tempo que a mãe brincava com ele e o pai lhe dava mais atenção, esse seu irmão estava tendo muito mais cuidado que ele e resolveu que não queria mais ser amigo do irmão.
Um dia sua mãe chamou a vovó para ficar em casa enquanto ia para o hospital com seu pai para ganhar o nenê. E a avó ao menino: - Hoje vai chegar o seu irmãozinho! E Pedro ficou curioso esperando pelo irmão imaginando como ele seria. Esperou, esperou e nada do irmão chegar e perguntava para a avó: - Vó quando ele vai chegar? E a avó dizia que não iria demorar muito, mas Pedro não entendia porque demorava tanto assim e ele tinha que ficar sozinho...
Então ouviu o barulho do carro do pai e correu pra encontrar com sua mãe que chegou carregando alguma coisa no seu colo, Pedro ficou olhando de longe e sua mãe convidou-o para chegar bem pertinho e disse: - Pedro esse aqui é o Lucas ele é o seu irmãozinho que saiu de dentro da minha barriga. Pedro olhou, olhou e achou aquela coisinha tão pequenininha e sem graça ficou pensando como poderiam brincar juntos, mas também gostou de ver a sua mãe sem aquele barrigão porque agora ela poderia voltar a brincar só com ele e pulou e correu por toda a casa como fazia antes, mas de verdade era porque achava que tudo voltaria a ser como era antes.
Mas aquela coisinha chorava o dia todo e a mãe não tinha mais tempo para ficar com ele, seu pai continuava chegando tarde e ficava o tempo todo com seu irmãozinho no colo, todos que chegavam em casa só queriam ver o nenê, até a vovó só queria ficar com ele e Pedro foi ficando triste já não tinha mais vontade de correr nem de pular e ficava com muita raiva daquele irmão que só sabia chorar e ficar no colo.
Uma vez Pedro estava sozinho em seu quarto, muito triste e sentindo muita raiva daquela coisinha quando seu pai foi sentar ao seu lado e perguntou se não queria brincar. Quanto tempo isso não acontecia e Pedro ficou tão feliz que naquela hora nem pensou mais no irmão e ele e o pai brincaram e se divertiram como faziam antes e o menino teve vontade de correr e pular pela casa toda. Então seu pai falou: - Pedro você não está contente com a chegada do seu irmãozinho? O menino ficou triste de novo e balançou a cabeça dizendo que não e o pai disse: - Pedro você continua sendo o meu primeiro filho mais amado! Você é o meu filho Pedro querido. E Pedro voltou a ficar feliz e correu e pulou mais um pouco, porque acreditou em seu pai, mas foi só o irmãozinho chorar que o pai saiu e o deixou novamente sozinho.
Mas depois pensou que agora já não tinha mais o pai só pra ele, que teria que dividi-lo com o irmão e Pedro sentiu falta do tempo em que a única criança daquela casa era ele.
Depois foi a vez da sua mãe que entrou no quarto e perguntou se ele não queria ouvir uma história bem bonita e o menino lembrou como gostava quando a mãe fazia isso, mas antes ele reclamou: - Você agora só fica com o Lucas e não liga mais prá mim! E a mãe colocou Pedro no colo e disse baixinho no seu ouvido: - Estava com saudade de ficar assim juntinho de você. E Pedro continuou: - Eu não gosto do Lucas. E sua mãe falou no outro ouvido: - Vamos aproveitar agora que ele está dormindo e brincar como a gente fazia? Mas Pedro insistia: - Eu não gosto dele! E sua mãe lhe disse: - Vamos combinar uma coisa? Espera ele ficar do seu tamanho para dizer isso a ele, enquanto isso aceita ele como teu irmãozinho e sempre que puder a gente volta a brincar juntinho, que você acha? E o menino olhou, olhou e achou aquilo uma boa ideia e ouviu uma linda história de sua mãe enquanto ela alisava seus cabelos como fazia antes e Pedro dormiu feliz.
Nos dias seguintes acontecia a mesma coisa, era só o Lucas chorar que os pais o deixavam de lado e iam atendê-lo e Pedro ficava cada dia com mais raiva daquele irmão chorão e achava mesmo que antes era bem melhor.

Os meninos cresceram às vezes Pedro fica chateado com o irmão, que quer pegar os seus brinquedos e ficar andando atrás dele porque ele nem sabe ainda brincar de chutar bola, mas fica atrapalhando o tempo todo e vai reclamar com o pai que lhe diz: - Pedro você reparou como o Lucas quer imitar você em tudo? E o menino até concordou, mas não deixou de reclamar: - Ele é um chato que pega as minhas coisas! E o pai respondeu: – Prá ele você é um herói! E Pedro gostou dessa ideia de ser um herói para o seu irmão e voltava a brincar com ele. Mas isso não durava muito e a paciência era bem pequenininha e o menino, dessa vez ia reclamar com a mãe: - Eu não gosto do Lucas! E a mãe voltava a dizer: - Espera ele crescer pra você dizer isso tudo pra ele, mas espera mais um pouquinho, agora ele não te entende. – Mas ele é um chato! E a mãe falava: - Pedro meu querido, ele vai crescer e se você der uma chance a ele quem sabe você não acaba gostando dele? E Pedro resolveu esperar mais um pouquinho.
Pedro achava mesmo o irmão muito chato, não sabia se gostava dele, mas achava graça quando o irmão repetia tudo o que ele fazia e voltava a correr e pular prá ver se ele também o imitava e até nessas horas até achava que o irmão era legal e resolveu continuar esperando mais um pouquinho prá saber se o Lucas podia ser seu amigo.
Um dia na hora do almoço Pedro quis saber por que o irmão ainda precisava que lhe dessem comida na boca enquanto ele já comia sozinho? – Porque você é mais velho que o Lucas e sabe muito mais coisas que ele. Disse o pai. – Essa é a vantagem de ser o filho mais velho, sabe de tudo antes do que vem depois. Completou a mãe. E o menino começou a gostar de ser mais sabido que o irmão e sorriu de satisfação.
Conforme foi crescendo Pedro descobriu que na família da gente tem um lugar para todo mundo, para aqueles que nasceram antes e também para os outros que vieram depois, que os mais velhos são mais sabidos e podem ensinar muitas coisas para os mais novos. Que, às vezes, ter um irmão mais novo é muito chato, porque ele fica atrás da gente e fica imitando tudo, mas também é bom ser o herói daquele moleque e também saber que ele é o primeiro filho e isso nenhum irmão vai tirar dele, no fundo Pedro não quer admitir, mas acha que está achando aquele irmão um cara legal.   







A MÚSICA DE LUIS (conto)






LUIS ERA UMA CRIANÇA MUITO QUERIDA PELA SUA FAMÍLIA.
TODOS GOSTAVAM MUITO DELE E DIZIAM QUE ELE ERA MUITO ESPERTO EMBORA GOSTASSE DE FICAR SOZINHO.
LUIS ERA ASSIM.
QUANDO LUIS COMPLETOU QUATRO ANOS SUA MÃE TEVE MAIS UM FILHO E LUIS GANHOU UM IRMÃO.
LUIS NÃO PARECEU SE IMPORTAR MUITO COM ISSO E CONTINUOU SOZINHO COMO ANTES.
O IRMÃO DE LUIS FOI CRESCENDO E SEUS PAIS COMEÇARAM A ACHAR QUE LUIS ERA DIFERENTE E QUE FICAVA MUITO TEMPO SOZINHO.
 RESOLVERAM COLOCÁ-LO NA ESCOLA PARA BRINCAR COM OUTRAS CRIANÇAS.
NA ESCOLA TINHAM MUITAS CRIANÇAS DA MESMA IDADE DE LUIS.
AS CRIANÇAS ADORAVAM BRINCAR E CONVIDAVAM LUIS PARA BRINCAR COM ELAS.
MAS LUIS PREFERIA FICAR SOZINHO.
E AS CRIANÇAS O ACHAVAM ESQUISITO.
MAS LUIS ERA ASSIM.
UM DIA A PROFESSORA CHAMOU OS PAIS DE LUIS PARA UMA CONVERSA E PERGUNTOU: - O LUIS SEMPRE FOI ASSIM?
- ASSIM COMO? PERGUNTARAM OS PAIS.
- ASSIM QUIETO, ISOLADO, SOLITÁRIO?
- ELE SEMPRE FOI MUITO ESPERTO! DISSE O PAI.
- MAS ELE SEMPRE GOSTOU DE FICAR SOZINHO. DISSE A MÃE.
- VOCÊS NÃO ACHAM QUE ELE É DIFERENTE DAS OUTRAS CRIANÇAS? PERGUNTOU A PROFESSORA.
- UM POUQUINHO TALVEZ. DISSERAM OS DOIS.
- MAS LUIS ERA ASSIM. COMPLETARAM OS PAIS.
- AQUI NA ESCOLA ELE TAMBÉM FICA SOZINHO E NÃO QUER BRINCAR COM AS OUTRAS CRIANÇAS. DISSE A PROFESSORA.
- VOCÊS JÁ LEVARAM LUIS EM ALGUM MÉDICO? ELA PERGUNTOU.
- AINDA NÃO! DISSERAM OS PAIS.
ENTÃO RESOLVERAM LEVAR LUIS NO MÉDICO PARA SABER SE TINHA ALGUM TRATAMENTO PARA O MENINO NÃO FICAR MAIS SOZINHO.
O MÉDICO EXAMINOU O MENINO DA CABEÇA ATÉ O DEDÃO DO PÉ, PUCHOU CONVERSA, CUTUCOU E QUIS BRINCAR COM ELE E O LUIS ALI SÓ NA DELE. O MÉDICO PEDIU EXAMES E PASSOU UM MONTE DE REMÉDIOS PARA O LUIS, MAS PARECIA QUE NADA FUNCIONAVA E ELE AINDA GOSTAVA DE FICAR SOZINHO.
E OS PAIS VOLTARAM AO MÉDICO PARA PERGUNTAR O QUE TINHA AFINAL O FILHO QUE SÓ QUERIA FICAR SOZINHO.
E O MÉDICO FALOU QUE LUIS TINHA UMA SÍNDROME CHAMADA DE ASPERGER.
E OS PAIS AGORA SABIAM POR QUE LUIS GOSTAVA DE FICAR SOZINHO E FORAM CONTAR PARA A PROFESSORA QUE PASSOU TAMBÉM A SABER, O QUE FAZIA LUIS FICAR ASSIM ISOLADO DE TODOS.
E TODOS FICARAM SATISFEITOS COM ESSA NOVIDADE E LUIS CONTINUAVA BRINCANDO SOZINHO, MAS AGORA COM MOTIVO, OU MELHOR, AGORA ISSO TINHA NOME.
LUIS ERA ASSIM PORQUE TINHA UMA SÍNDROME DE ASPERGER.
UM DIA CHEGOU À ESCOLA UM MENINO NOVO.
QUE TAMBÉM GOSTAVA DE BRINCAR SOZINHO E AS OUTRAS CRIANÇAS TAMBÉM ACHARAM AQUELE MENINO MUITO ESQUISITO.
MAS ELE QUIZ BRINCAR COM LUIS.
E TAMBÉM NÃO SE IMPORTOU QUANDO ELE NÃO QUIZ BRINCAR.
MAS O MENINO NOVO INSISTIU COM LUIS E ELES FICARAM PRÓXIMOS.
E ASSIM COMEÇARAM A BRINCAR JUNTOS O TEMPO TODO.
AS OUTRAS CRIANÇAS COMEÇARAM A SE APROXIMAR TAMBÉM.
E LUIS FOI SE ACOSTUMANDO MAIS COM A COMPANHIA DELAS.
E UM DIA UMA CRIANÇA LEVOU UM APITO E AQUELE BARULHO CHAMOU A ATENÇÃO DE LUIS QUE QUIS APITAR TAMBÉM.
E DEPOIS OUTRA TAMBÉM QUIS EXPERIMENTAR E COMEÇARAM A GRITAR E A PULAR E O LUIS, TÃO QUIETINHO, PASSOU A PULAR E A GRITAR MAIS ALTO AINDA E TODAS ELAS SE DIVERTIRAM MUITO COM A ALEGRIA DE LUIS. PORQUE ELE NÃO ERA ASSIM.
A PROFESSORA VIU AQUILO E TEVE UMA IDEIA.
DEU UM APITO PARA O LUIS, UM TAMBOR PARA OUTRO, UM CHOCALHO PARA OUTRA CRIANÇA E ASSIM MONTOU UMA ORQUESTRA E ELAS GOSTARAM MUITO DESSA BRINCADEIRA E TOCAVAM TODOS OS DIAS.
AS CRIANÇAS JÁ NÃO ACHAVAM MAIS ESQUISITO, NEM O LUIS E NEM O MENINO NOVO.
E JÁ BRINAVAM E TOCAVAM MÚSICA TODOS JUNTOS.
LUIS FOI CRESCENDO E DESCOBRIU QUE GOSTAVA MUITO DE MÚSICA E APRENDEU A TOCAR MUITOS OUTROS INSTRUMENTOS.
AINDA PREFERE FICAR SOZINHO, MAS ATÉ SE ARRISCA QUANDO ALGUÉM O CONVIDA PARA TOCAR JUNTO. LUIS GOSTA DE MÚSICA E GOSTA DESSA CONVERSA MUSICAL QUE A MÚSICA PROPORCIONA.
E DESSE MODO, LUIS FOI DEIXANDO DE FICAR TÃO ISOLADO E AS PESSOAS JÁ NÃO ACHAM ELE ESQUISITO.
LUIS É DIFERENTE E ADORA MÚSICA.
LUIS É ASSIM.






AS DUAS CASAS DE BIA - conto



            Bia era uma menina muito alegre e esperta, morava com seu pai e a sua mãe, gostava de brincar com suas bonecas e de ouvir histórias que seus pais contavam para ela em sua cama na hora de dormir.
            Às vezes sua mãe brigava com ela e Bia chorava muito e só parava quando a mãe dizia pra ela: - Isso que você fez eu não gostei! E Bia perguntava: - Mas você ainda me ama? Então faziam as pazes, a mãe abria um sorriso e abraçava a menina que voltava a ser feliz. Então Bia aprendeu que tinha coisas que a mãe não gostava que ela fizesse.
            Bia gostava de brincar de cavalinho com seu pai, gostava de pentear o seu cabelo, brincar de casinha e ficava contente quando ele contava as coisas que sabia, achava o pai muito sabido e era gostoso ficar abraçada com ele, mas às vezes seu pai também brigava com ela e se afastava dela, Bia chorava muito e só parava quando o pai dizia prá ela: - Eu não gosto quando você faz isso! Nessas horas Bia corria para perto da sua mãe que dizia: - O papai gosta muito de você, mas tem coisas que você faz que ele não gosta. E Bia entendeu que tem coisas que o pai não gostava que ela fizesse. E ficava feliz quando fazia as pazes com o pai que voltava a brincar com ela.
            Uma vez Bia viu seus pais brigando e entendeu que talvez eles tivessem feito alguma coisa que não gostassem e quando viu sua mãe chorando perguntou por que estava triste e a mãe lhe respondeu: - Isso é coisa de adulto minha querida, não se preocupe. Mas Bia começou a sentir uma coisa esquisita dentro do peito e entendeu que aquela “coisa de adulto” era muito estranha e como demoravam muito para fazer as pazes e foi perguntar para o avô: - Vô, por que o meu pai briga tanto com a minha mãe? E o vovô dizia: - Ah! Minha querida isso são coisas de adulto, daqui a pouco eles voltam a se entender. E Bia aprendeu que briga de adulto é mais comprida, mas continuava achando aquilo estranho e não via a hora desses adultos se entenderem.
            Um dia Bia viu seu pai arrumando as malas e ficou contente pensando que iriam viajar, Bia gostava muito de passear, mas seu pai lhe falou: - Bia, o papai vai morar em outra casa, quando estiver tudo pronto você vai ter um quarto lindo só pra você. Mas quando viu sua mãe chorando sentada na cama perguntou: - Mamãe você não vai fazer a mala prá gente viajar para a outra casa? E a mãe falou: - Não Bia! Papai vai morar em uma casa e nós duas vamos continuar aqui. Bia não entendeu, mas queria que aqueles seus adultos não brigassem tanto.
            Os dias foram passando e Bia não entendia porque os adultos demoram tanto tempo para fazerem as pazes e sentia falta de brincar de cavalinho e de pentear o cabelo do pai que demorava muito tempo para ver e quando perguntava dele para sua mãe, ela lhe respondia: - Papai está muito ocupado arrumando a casa e já-já você vai ter um quartinho novo só prá você. Mas Bia queria ficar em seu quarto e velho mesmo e que seus pais fizessem logo as pazes que tudo voltasse como era antes e disse para sua mãe: - Eu não quero quarto novo, não quero essa porcaria de casa nova, quero que vocês parem de brigar e ele volte a morar aqui em casa de novo. E chorou muito quando disse isso e sua mãe explicou: - Bia nem sempre as coisas acontecem do jeito que a gente quer. E Bia entendeu que tem coisas que não se pode ter e sentiu de novo aquele negócio esquisito dentro do peito e ela ficou diferente depois disso, já não era tão alegre como antes.
            Um dia bem cedinho seu pai apareceu e convidou-a para passarem o dia inteiro junto e conhecerem a casa nova e Bia foi correndo chamar sua mãe para acompanhá-la, mas a mãe lhe disse que não iria, mas que desejava que ela se divertisse muito e Bia passou aquele dia todo na nova casa do pai e ganhou de presente um quarto novo cheio de brinquedos novos, até cama e armários novos ela havia ganhado e quando seu pai lhe perguntou se havia gostado da casa nova a menina perguntou: - E a mamãe quando vem  morar aqui com a gente? E o pai então explicou prá ela: - Bia agora você vai ter duas casas, uma casa da mamãe e outra do papai. E Bia ficou muito triste com essa explicação porque queria que todos ficassem juntos de novo e chorou porque não entendia o que os seus adultos estavam fazendo.
            As coisas ficaram assim desse jeito, seu pai aparecia em sua casa e a levava para a outra casa e eles podiam brincar de cavalinho, ela penteava seus cabelos e ganhava um abraço forte de urso que só o papai podia dar, mas mesmo assim contente Bia sentia falta de sua mãe e ficava muito triste e quando dizia para o pai que queria que eles voltassem a ficar juntos, o pai explicava: - Bia nem sempre as coisas acontecem do jeito que a gente gostaria. E Bia se lembrou da sua mãe que dizia a mesma coisa e ela ficou mais triste ainda.
            Quando ela estava em seu antigo quarto com seus brinquedos, Bia sentia muita falta dos outros brinquedos que deixou na casa nova, mas quando estava no quarto novo sentia falta de brincar com as bonecas e os velhos brinquedos e Bia ficava triste e não brincava nem na casa nova e nem na antiga casa e seus pais se preocupavam com a tristeza de Bia que sentia aquela coisa esquisita dentro do peito..
            Um dia quando Bia estava se preparando para ir para a nova casa do pai, chegou o avô que reparando na tristeza da menina perguntou: - Bia minha querida por que você está com essa carinha tão triste? E Bia lhe explicou que quando estava em uma casa sentia saudade da outra e quando estava aqui não estava ali e ficava com um negócio esquisito dentro do peito. Aí seu avô lhe disse muito seriamente: - Eu sei bem o que é isso que você sente dentro do peito. E a menina prestou mais atenção quando ele continuou: - Isso aí que você está sentindo se chama saudade e é esquisito mesmo, porque rouba da gente aquilo que a gente está sentindo naquela hora e a alegria que podia acontecer vai embora. E a menina queria saber mais: - Como é isso vovô? – É assim, a gente precisa aprender a enganar a saudade você já sabe que não dá prá ter tudo o que se quer na hora que se quer, não sabe? E a menina balançou a cabecinha dizendo que sim e prosseguiu o avô: – Mas também não precisa deixar a alegria de lado, mesmo não se tendo tudo, então prá enganar a saudade tem que ser muito esperto você que tem duas casas, dois quartos, muitos brinquedos em cada casa, acaba sentindo saudade da casa antiga quando está na casa nova e tem saudade da casa nova quando está na outra casa, não é? Mas você tem duas casas; porque você não experimenta aproveitar muito, muito, muito o lugar que você está e quando a saudade apertar muito você diz pra ela esperar que daqui a pouco você vai voltar para o lugar que ela está chamando aí ela sossega e você aproveita onde está. Bia entendeu que a saudade também doía, mas que talvez essa fosse uma boa ideia e resolveu experimentar.
            Bia às vezes fica triste porque queria que tudo voltasse a ser como antes, mas já aprendeu como enganar a saudade e lembra que agora tem duas casas e pode também experimentar ser muito feliz mesmo não tendo tudo na hora que quer. 


Médico Escolar - Dr José Carlos Machado www.mediconaescola.com Acompanhe também nosso canal no You Tube! https://www.youtube.com/user/medicinaescolar e @antroposofiaemdia